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novo mundo
POLÍTICA

O ovo da serpente 2.0
Por Giselle Beiguelman

Esvaziamento da esfera pública faz parte da cultura das redes de relacionamento na internet

”É como um ovo de serpente. Através da fina membrana, pode-se ver um réptil inteiramente formado” (Dr. Hans Vergerus para Abel Rosenberg em “O Ovo da Serpente”, de Ingmar Bergman)


O aumento da banda da telefonia móvel, a proliferação das redes sem-fio e a multiplicação das plataformas dos chamados softwares sociais (como blogs e redes de relacionamento, como o Facebook etc.) vêm produzindo mudanças sem precedentes nas formas de comunicação, produção e circulação de informações.

Entre outras implicações, essas variáveis apontam para a diminuição do gap de conectividade entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento e a expansão das formas de conhecimento colaborativo.

Mas, tão importantes quanto essas relações emergentes, tem sido o aumento do uso promocional de suas ferramentas com finalidades de marketing, inaugurando a curiosa era dos “fansumidores”, como chamou atenção o jornalista de tecnologia do “Guardian“, Jack Schofield, comentando a inauguração do sistema de “publicidade social” no Facebook.

Nesse sistema, sites comerciais parceiros do Facebook organizam comunidades em torno de suas marcas e garantem uma distribuição dos anúncios de forma segmentada. A catequese das marcas pela web 2.0 é um fenômeno a ser estudado, especialmente em sites como o YouTube, em que empresas especializadas em marketing viral têm investido pesado, forjando uma estética amadora e de furos de making of que nunca existiram.

Para além do fetiche das mercadorias, essa modalidade de uso das redes sociais indica um esvaziamento da esfera pública e uma fragilização da política como arena de negociação coletiva que me parece importante interrogar, relacionando alguns fatos recentes às transformações tecnológicas das quais temos sido testemunhos e atores.


Press kit mórbido

Em abril de 2007, o estudante Cho Seung-hui matou 32 pessoas na universidade em que estudava, no Estado americano da Virgínia. Antes disso, tomou todos os cuidados para produzir um press kit mórbido, com depoimentos em vídeo, fotos e textos que supostamente explicavam seu crime. Postou tudo na internet e enviou pelo correio a uma grande rede de TV americana. Terminado o massacre, suicidou-se.

O requinte da pré-produção que, profissionalmente, já mirava a pós-produção, se explicita no jogo da “vigilância neopanótica”, como conceituou Timothy Druckrey, “que resulta em um desejo quase compulsivo –que se poderia chamar de fetichista– de fazer com que virtualmente tudo seja acessível na forma de uma imagem” (2000, p. 94).

Um desastre aéreo ocorrido na cidade de São Paulo, poucos meses depois do massacre da Virginia, em julho de 2007, colocaria em evidência, por vezes com requintes de perversidade, a lógica de fomento à superexpsosição que vem atualizando a sociedade do espetáculo como sociedade overmidiática que é “over” não porque é excessiva, mas por que é redundante.

Os inúmeros inputs em blogs e sites de publicação de vídeos, que acompanharam o desastre da TAM, no aeroporto de Congonhas, colocaram em circulação desde fotomontagens grosseiras a centenas de vídeos que retratavam fumaça, borrões e conversas domésticas triviais de fundo. Demonstravam, assim, os limites do jornalismo informal e sua capacidade de fazer divulgar não-notícias desinformativas num mundo em que muitos brigam pelo direito à “ciberlebridade” de pelos menos meia dúzia de hits.

O assassinato de oito estudantes na Finlândia, em 7 de novembro de 2007, postado e anunciado no YouTube com antecedência, veio coroar essa série de reveses como indicativos de uma sociopatia emergente: a possibilidade de, no mundo em que todo mundo se “tuba” e se publica com dois cliques, a história acontecer antes mesmo dos fatos terem ocorrido (ou vice-versa).

Não se trata de discutir aqui a espetacularização da violência e associá-la a um suposto atavismo tecnológico que relaciona o “excesso de informação” agenciado pela internet a desvios de comportamento. Primeiramente, porque essa relação é falsa. O casamento crime e mídia não é novidade, nem exclusividade da web.

No Brasil, já assistimos pela TV a horas de agonia durante o seqüestro do ônibus 174 no Rio, em 12 de junho de 2000, que resultou na morte de uma refém e do seqüestrador. Vimos também, em agosto de 2001, o apresentador e dono do SBT, Silvio Santos, negociando por horas com o seqüestrador de sua filha Patrícia Abravanel, Fernando Dutra Pinto, que exigiu a presença da imprensa e até do então governador do Estado, Geraldo Alckmin, para garantir sua sobrevivência.

Em segundo lugar, porque a hipótese de que exista um estado de excesso de informação apenas calibra uma aspiração conservadora que pressupõe ser necessária uma hierarquia de poder intelectual, que seria responsável por filtrar e entregar o conteúdo aos receptores responsáveis.

O problema, portanto, não é descobrir como limitar a quantidade de informações, mas sim como ampliar, cada vez mais, o volume qualitativo do conteúdo midiático e cultural que circula na Internet e fora dela. Isso passa por pensar parâmetros críticos que nos ponham em confronto com a irrealidade cotidiana.


Imagens anestésicas

É sintomática dessa vertigem a reação de uma aluna Universidade do Norte de Illinois, onde em 14 de fevereiro de 2008 um rapaz matou quatro pessoas, feriu 17 e se suicidou. De acordo com o que foi noticiado pela “Folha de S. Paulo”, ela teria dito: "Olhei para a menina que estava do meu lado e perguntei: ‘Será que isso é real? Acho que o professor está brincando’".

Numa semana em que esse havia sido o quinto ataque com arma de fogo nos Estados Unidos, dos quais quatro ocorreram em escolas, o testemunho da aluna lembra um desconcertante filme de Cronenberg, “eXistenZ” (1999). Nesse filme, que retrata o teste de um game por um grupo, os personagens vivem a angústia de não saber se estão no universo do jogo ou vivendo suas vidas no mundo do qual vieram.

A reação da indústria cinematográfica, televisiva e de games após os ataques terroristas de 11 de Setembro, que levou a diversas alterações e reedições de produtos que evocavam o desastre de forma não intencional é indicativa da fragilidade dos limites entre realidade e ficção na contemporaneidade e da sagacidade de Cronenberg.

Entre as vidas de avatares e a existência humana, as fronteiras se diluem e aproximam-se do contexto de “crise das imagens”, enunciado por Catherine David. De acordo com essa crítica, vivemos hoje em meio a uma hemorragia de imagens que transitam, sempre descontextualizadas, na publicidade e na indústria do entretenimento, com tamanha intensidade, que se tornam invisíveis até tornarem-se anestésicas (2007, pp. 147-148).

Uma anestesia que tende a se confundir com o próprio espaço de convivência pública a reboque do crescimento das redes sociais, como o MySpace e Facebook. Nessas redes, prevalece um regime de alianças entre amigos tão sólido, que suprime a possibilidade de conflito. Espaços de relacionamento protegidos, espécie de jardins murados de redes dentro das redes, levam-nos a perguntar:

“Mas quem são seus inimigos? O que significam os amigos para a constituição do colaborativo? O que acontece à lógica criativa da tensão, que lhe é constitutiva, quando tudo o que se tem é uma afirmação sem fim?” (Rossiter, 2007).

Nessa perspectiva, as supostas redes sociais nos modelos Facebook ou Linkedin aparecem como sistemas de trancamento de seus participantes nos limites de interação dos proprietários desses espaços, detonando a universalidade dos protocolos da web e tornando-se uma verdadeira rede anti-social (Bruns, 2008).

A rarefação do conflito se acentua não só pelos círculos protegidos de amizade de afinidade, mas também pelos recursos de personalização do conteúdo que a web 2.0 oferece por meio do bem sucedido sistema de tags.

É bom lembrar aqui que esse “2.0” não remete à emergência de um novo protocolo de internet, mas a novos padrões de organização dos dados e de arquitetura de linkagem, que modifica a internet por viabilizar outros usos. Ao invés de ser apenas um gigantesco arquivo de páginas, ou seja de conteúdo disponível para consumo, ela passa a funcionar como plataforma para desenvolvimento de aplicativos e conteúdos.

Nessa perspectiva, os padrões de organização da web 2.0 seriam os marcos fundadores da era do DIY (“Do It Yourself”, faça você mesmo) e da época do CGC (“Consumer Generated Content”, conteúdo gerado pelo consumidor). É só lembrar da “Wikipedia” que esse termos se auto-esclarecem.

Há muito marketing nisso tudo, mas é inegável que a arquitetura de linkagem da web 2.0 pode indicar que a internet, enfim, sofrerá a passagem da cultura da página à cultura dos dados, ou de um ambiente baseado na taxonomia para um baseado em “companheironomias”.

Tudo gira em torno de tags cadastradas pelos assinantes de um serviço do tipo Last.fm ou del.icio.us, que são apresentadas em ordem alfabética ou hierárquica. Palavras escritas com letras menores indicam pouco acesso, as maiores são as mais populares. São as “nuvens de informação” (“clouds”), outro termo que é uma das marcas registradas da web 2.0.

Prevalece aqui o conceito de inteligência distribuída que revigora o poder das “nanoaudiências”, mas também do funil de informações que associa maior quantidade com melhor qualidade (identidade não necessariamente verdadeira...).


Neo-individualismo

Se a descentralização da organização do conhecimento parece ser irreversível nesse processo, não deixa de chamar atenção o quanto esse modelo atomiza a informação, redundando não só em impossibilidade de visão do contexto, mas também em buscas menos arriscadas, haja vista que a tendência é operar a partir dos filtros de uma rede pessoal previamente conhecida.

O processo deve se acentuar no contexto da comunicação móvel pelos modos como ela embaça os contextos de espaço e tempo, ao invés de transcendê-los.

“A comunicação wireless não transcende o tempo e o espaço, como freqüentemente se afirma, nos termos de uma observação aparentemente baseada no senso comum. Ela embaça, ao invés de transcender os quadros temporais e espaciais. Induz um diferente tipo de espaço –o espaço dos fluxos–, composto de lugares em rede onde a comunicação acontece, e um diferente tipo de tempo –um tempo sem tempo- formado a partir da compressão do tempo e do desequenciamento das práticas pelas ações multi-tarefas” (Castells, Fernandéz-Ardèvol, Qiu & Araba, 2006, p. 250)

Esse embaçamento de contextos promove uma mixagem de práticas organizacionais e sociais, que se efetua na comunicação feita a partir de meios de transporte (carro, trens, metrô), salas de espera, filas e em trânsito, muitas vezes inserindo e/ou sendo mediadas por recursos multimídia como fotos e vídeos. Contudo, essa mixagem não se faz de modo indeterminado.

“Ela (essa mixagem de práticas diversas e diferentes contextos espaciais e temporais) é centralizada no indivíduo comunicante. Portanto, é uma produção centralizada individualmente do material e do processo social de comunicação. Dessa maneira, redes de interação individual tendem a se libertar de organizações, instituições, normas e restrições materiais, na base da conveniência pessoal e adequação a projetos individuais. Como resultado disso, ocorre um extraordinário fortalecimento da cultura do individualismo (significando a primazia dos projetos e interesses individuais sobre as normas da sociedade ou dos grupos de referência) em termos materiais. Por isso, o individualismo, ao invés da mobilidade, é a tendência social da sociedade móvel (...)” (Idem, pp. 250-251)

Nesse contexto, fica claro o paradoxal fenômeno do “individualismo em rede” (networked individualism), conceito resultante de uma abrangente pesquisa do Netlab da Universidade de Toronto sobre o impacto da internet nas comunidades sociais (Wellman, Quan-Haase, Boase & Chen, 2003), que pode estar se consolidando via as “companheironomias” agenciadas pelas tags e a expansão da comunicação móvel.

De acordo com os pesquisadores do Netlab:

“As formas de comunicação mediadas por computador estão se desenvolvendo em direção à personalização, com mais controle das pessoas sobre as fontes das quais querem receber mensagens, quando e sobre o quê. Essa forma de comunicação e as interações que dela decorrem são mais adequadas às preferências e necessidades pessoais, promovendo um modo mais individualizado de interagir e uma forma de mobilização como redes fluidas de engajamento parcial. Isso pode facilmente fragmentar organizações políticas, mas pode também facilitar a construção de coalizões entre organizações políticas” (Idem)

1 - Rede de relacionamento lançada em 2004 pelo então estudante de Harward Mark Zuckerberg, o Facebook conta hoje com mais de 70 milhões de usuários e é o 2º site de relacionamento mais popular e o 7º site mais acessado do mundo, de acordo com dados publicados no próprio Facebook.


2 - “Viagem na Irrealidade Cotidiana” é o título de um livro de Umberto Eco.


3 - Uma análise mais detalhada da mecânica da web 2.0 pode ser acessada em outro artigo desta autora: “Companheironomias” (2006), vide “Link-se” no final deste artigo.

 
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