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LANÇAMENTOS

Nabuco & D. Pedro II: os amenos
Por Carlos Alberto Dória

Novas biografias de personagens do Império permitem rever o sentido da formação político-intelectual do Brasil

A história do Brasil tem nomes que nunca conseguiremos exorcizar: Joaquim Nabuco, D. Pedro II, Euclides da Cunha, Silvio Romero, Machado de Assis e tantos outros que, teoricamente, nos ensinaram a nos vermos como em boa medida nos vemos até hoje. Por isso, fantasmagóricos, eles voltam sempre. Como agora, através de novas biografias de Joaquim Nabuco, de autoria de Angela Alonso, e de D. Pedro II, de José Murilo de Carvalho.

O sentido do revisionismo historiográfico é muito claro quando se trata de personagens como Tiradentes, Zumbi, Lampião e alguns poucos outros, num país tão carente de heróis populares. De “bandidos” ao seu tempo foram convertidos em personalidades exemplares. Mas, qual é o sentido da revisão de personagens de extração nitidamente elitista, especialmente do período imperial?

É bem verdade que há uma “onda monarquista” por conta dos 200 anos da vinda da Corte, fugida de Napoleão. Evaldo Cabral de Mello jogou pesado contra a efeméride: ”O vezo das comemorações oficiais, que nunca são desinteressadas, busca transformar o reinado joanino numa apoteose nacional. O açodamento limita-se, claro, ao Rio, e é um produto a mais do narcisismo coletivo do carioca, que, acreditando-se o mais cosmopolita dos brasileiros, é, na verdade, o mais provinciano. Mas os cariocas têm todo o direito de comemorar dom João VI. Afinal, sem isso, o Rio não passaria hoje de Santos à margem da Guanabara”.

Mas Nabuco certamente é um caso distinto. Esse aristocrata, campeão do abolicionismo, é um personagem emblemático do liberalismo brasileiro. Como ele mesmo disse na virada do século 19, parodiando um dos seus autores prediletos (François-René de Chateaubriand), “eu me encontrei entre dois séculos como na confluência de dois rios: mergulhei nas águas agitadas de ambos, afastando-me com pesar da velha margem em que nasci, e nadando com esperança para a margem desconhecida. (Mas) ao contrário de Chateaubriand, eu, que não sei nadar, fico imóvel na margem onde nasci”.

Já D. Pedro é figura sobre a qual pouco sabemos mas julgamos suficiente o que sabemos, visto que somos republicanos. Por isso avulta a sua mitologia: amante das artes, protetor das ciências; tímido, solitário, recatado; mitologia esta indiferente à sua indiferença diante da abjeta escravidão.

Murilo de Carvalho, num texto elegante, procura mostrá-lo como personagem mais rica do que possa parecer à primeira vista. Sem dúvida um dos capítulos mais interessantes é o que dá conta da formação do pequeno órfão para assumir o poder –o que é feito “precocemente” através da campanha da maioridade– e ficamos sabendo, com razoável grau de detalhes, como ele foi construído pelas instituições vigentes de modo a refleti-las com fidedignidade.

Já o capítulo mais infeliz do livro de Murilo é o que traça o perfil da correspondência íntima do imperador. Às suas cartas de amor, trocadas com a condessa de Barral, sua amante e preceptora de suas filhas, além de figura forte e influente sobre sua vida intelectual e política. Mas, ao explorar as cartas com rigor de bom historiador, o autor enfatiza que, na série , faltam muitas cartas, e que não seria razoável supor essas lacunas como interrupção de uma correspondência freqüente e regular. Cartas se perderam, conclui Murilo de Carvalho.

Mas, quando Murilo publica o livro, seu colega de Academia Brasileira de Letras, José Mindlin, declara-se em posse das 377 cartas faltantes da condessa. “Puxei os últimos fios de cabelo que me restavam”, declarou, desolado. Ficamos sabendo, então, que pouco se conversa no chá da Academia Brasileira de Letras sobre o que realmente importa para as nossas letras. E seria de se esperar uma edição revisada da biografia que, no entanto, aparece intocada em sucessivas reimpressões.

Já o caso de Nabuco revela outra sorte. Além das biografias clássicas, como as de Carolina Nabuco e Luis Vianna Filho, há pouca literatura recente sobre sua vida. Interpretações de sua obra há várias, com destaque para “As Desventuras do Liberalismo”, de Marco Aurélio Nogueira, de 1984. Mas de lá para cá a família Nabuco nos fez o favor de desovar no mercado os diários do estadista, e ninguém ainda havia se demorado sobre eles como faz Angela Alonso.

Uma primeira leitura dos diários é até decepcionante para quem pretenda ver “o outro lado” desse político e escritor fundamental para se compreender a abolição e o fim do Império, além das vicissitudes do liberalismo no Brasil.

Contatos sociais, negócios, contabilidade, doenças, visitas, rabichos de aventuras amorosas, parcos registros sobre atos abolicionistas –enfim, bastante lacônico. Mas também se pescam algumas idéias sobre as suas leituras e não-leituras (como de “Os Sertões”), opiniões sobre assuntos polêmicos. Tudo muito fragmentário, como é a vida organizada em fatias de 24 horas.

Pois bem. Faltava uma armação onde pendurar esses fatinhos da vida desfiada que Nabuco nos oferece nos seus diários. A biografia de Angela Alonso vem cumprir esse papel, entremeando a história do personagem com o grosso do seu pensamento, apresentado especialmente em seus livros (“Minha Formação”, “O Abolicionismo”, “Um Estadista do Império”).

Diários pessoais, biografias, memórias, autobiografias, são gêneros literários que surgem e se desenvolvem especialmente no século 19. Todos como expressão de uma subjetividade que procura se aninhar na história, situar-se como sujeito que a ordena e empresta sentido. Mas no Brasil não houve grande tradição de biografias (exceção honrosa de “Um Estadista do Império”, biografia que Nabuco escreveu do seu pai), predominando as autobiografias.

Só recentemente as biografias tiveram impulso, sendo que uma boa safra delas começou com “Chatô - O Rei do Brasil”, de Fernando Morais, e “Mauá – O Empresário do Império”, de Jorge Caldeira. Uma nova fatia do mercado mostrou-se a explorar, embora poucos o façam com maestria. Por isso é preciso entender o passo de uma intelectual acadêmica em direção a esse mercado para se poder avaliar corretamente o seu esforço.

Angela Alonso é certamente um dos melhores quadros da sociologia atual, uma representante típica da geração uspiana formada em torno de 1990 que tem, como uma de suas marcas, o questionamento dos fundamentos tradicionais de interpretação da nossa história intelectual.

Não se trata de elaborar diretamente uma nova “interpretação do Brasil”, mas de reconhecer que talvez o país não tenha sido tão bem “interpretado”; questionar a interpretação da interpretação, fazer a crítica da crítica, para sacudir a poeira do tempo sobre o modo clássico de nos vermos.

Mas como ver Nabuco ou D. Pedro II sob novas lentes? Angela especializou-se no estudo da “geração de 1870”, sobre a qual tem publicado excelente ensaio, mas no trato de Nabuco teve que reformular o modo narrativo. Já José Murilo de Carvalho, ao contrário, é reconhecidamente um renovador da historiografia e isso se deve também a um estilo narrativo consolidado, que corre solto, liso, fluente. Nos dois, o afastamento intencional do academicismo, traço da coleção “personagens brasileiros” da Companhia das Letras.

Em trabalhos anteriores, Angela Alonso mostrou, com grande fôlego, que a experiência intelectual da geração de 1870 era diretamente política, ou seja, visava intervir na cena política, e não a mera produção de “doutrinas”, macaqueando modas internacionais, como usualmente se interpretou quando se agrupavam os autores sob rótulos como “liberais”, “positivistas”, “evolucionistas” e assim por diante.

A biografia de Nabuco, além de ser uma continuidade da linha de pesquisa da autora, nasce também como uma opção metodológica, pois parece a ela um caminho mais promissor do que a maneira ensaística de inscrever o pensamento de alguém na história, quando o propósito é produzir uma versão menos acadêmica do conhecimento. Em outras palavras, parece reconhecer o ensaio como forma prisioneira da academia.

De fato, o Nabuco que o livro dispõe é essencialmente um personagem de salão, um bon vivant; aristocrata decadente, que precisa, para sobreviver, se aninhar à sombra do Estado, alavancar a carreira através de lances de uma política de favores que envolve a todos numa sociedade com regras democráticas incertas. Incerteza, aliás, que o próprio imperador percebia e que parecia contrariá-lo mas contra a qual nada podia, segundo Murilo de Carvalho.

O tema do liberalismo num país escravocrata, muitas vezes representado como um conjunto de idéias “fora do lugar”, é, sem dúvida, um grande desafio para a historiografia, para a ciência política e para a sociologia.

Este o caminho que trilha Angela, ao seguir os passos de Nabuco pelos salões da corte, em Londres e nos Estados Unidos. E a autora não deixa de captar um certo artificialismo no abraçar da grande causa abolicionista; não porque a Nabuco faltasse convicção política, mas porque esse foi o caminho que encontrou num mercado político saturado, preferindo estender uma mão para as manifestações de rua como forma de progredir e liderar no front parlamentar. Entre oportunismo e senso de oportunidade vai uma grande distância, embora as aparências possam borrar a distinção.

O ponto fraco do livro é, contudo, a obsessão da autora por permanecer colada às fontes do pensamento de Nabuco. Longos trechos entre aspas, mutilados por colchetes constituem verdadeiros tropeços para a leitura fluente, como a que se pode fazer do livro de Murilo de Carvalho. Vê-se, então, que citar em vez de interpretar é um cacoete acadêmico que não combina com textos de divulgação.

Além disso, contrasta com a diretriz da coleção, que opta por não remeter as citações às fontes, como se fossem desnecessárias para quem lê. Em outras palavras, supõe-se que o leitor desse tipo de literatura (um “novo leitor”?) não pretenda aprofundar sua própria visão pelo recurso às fontes que, por sinal, são resenhadas ao final do livro e dispostas como uma nova “facilidade”.

E aqui se pode voltar à questão inicial: a que serve uma coleção como essa, até agora centrada em personagens do Império? Talvez o interesse por biografias, o mercado que consome este gênero literário, estivesse melhor servido por outras escolhas. Mas se trata de um esforço para vulgarizar uma nova visão do Império, como se ele resumisse essencialmente a formação da nação. Uma nova historiografia que está a nos dizer como o liberalismo esteve prisioneiro de mecanismos de poder que não podiam permitir-lhe ser melhor do que foi: manco, caolho, impostado na vivência cortesã.

Sendo verdadeira (ou convincente) essa interpretação, será graças a essa má sorte do liberalismo que poderemos rever, agora com maior simpatia, aqueles que o encarnaram. Um mundo de personagens amenos que se enraíza na violência da escravidão. Enfim, uma historiografia que parece nos dizer que o liberalismo foi o melhor que a história nos legou, mesmo quando vacilante. Há visões alternativas da nossa história, mas certamente não se centrariam em Nabuco nem em D. Pedro II como seus expoentes.


Publicado em 2/5/2008

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros. Acaba de publicar "Estrelas no Céu da Boca - Escritos Sobre Culinária e Gastronomia" (ed. Senac).

1 - Angela Alonso, “Joaquim Nabuco - Os Salões e as Ruas”, Companhia das Letras, 2007. José Murilo de Carvalho, “D. Pedro II - Ser ou Não Ser”, Companhia das Letras, 2007. Ambos integram a coleção “Perfis Brasileiros” da editora.


2 - Evaldo Cabral de Mello, “A Festa da Espoliação”, entrevista ao “Jornal do Comércio”, Recife, em 22/01/2008.


3 - Evaldo Cabral de Mello (org.), “Diários de Joaquim Nabuco”, Rio de Janeiro, Bem-te-vi e Massangana, 2005.

 
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