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O que responder àqueles que tentam fazer de um Oiticica pós-69 um populista? Endossar essa versão implica na desqualificação da linha que vai de "Tropicália'' à "Cosmococa'' (1973), reflexão em torno da imagem na cultura de massa e posição ímpar contra o audiovisual.

Prefiro continuar afirmando, em encontros acadêmicos ou não, que o conceito de Crelazer deveria constar em qualquer bibliografia acerca da "sociedade do espetáculo". Não se trata de essencialismo, basta estudar a evolução do conceito de participador. Sim, separação entre trabalho e prazer gera vida alienada, vivida indiretamente, "dentro de uma representação", dirá Guy Debord (1931-1994).

O ateliê-fábrica que Andy Warhol (1928-1987) funde em um único espaço, no início dos anos 1960, permanece uma reflexão essencial para um ideal coletivo. E o "Programa Ambiental'' (1966) de Oiticica permite uma volta por cima da negatividade -isto é "gingar", gingar é ter a coragem de escrever "Brasil diarréia". Quem não entendeu pode continuar tomando aspirina.


A palestra apresentada no dia 12 de março de 2008 foi reduzida para caber em 30 minutos. A presente versão é integral. Dedico esta reflexão à minha irmã, Grace, por sua escuta sem fim.


Publicado em 22/4/2008

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Lisette Lagnado
É crítica de arte e professora do Mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina, integra o Conselho Consultivo de Arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e é editora de Trópico e da seção "em obras" desta revista. Foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo e coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural). Publicou "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA), entre outros livros.

1 - Jacques Derrida, "Le Monolinguisme de l'Autre ou la Prothèse d'Origine'' (Paris: Galilée, 1996). "Oui, Je N'ai Qu'une Langue, Or Ce N'est Pas la Mienne." (p. 15) (Sim, só tenho uma língua, entretanto não é a minha.) A antinomia está colocada em duas proposições: "1. On ne parle jamais qu'une seule langue. 2. On ne parle jamais une seule langue." (p. 21) (1. Não se fala nunca uma língua só. 2. Não se fala nunca uma só língua.)


2 - A arquitetura ficou a cargo de Paulo Mendes da Rocha e o projeto editorial sob a responsabilidade do curador adjunto Adriano Pedrosa.

 
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