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LANÇAMENTO
Uma vitória contra o destino O extraordinário “Carta a D. - Uma História de Amor”, do filósofo André Gorz, é o oposto dos livros de auto-ajuda A editora Cosac Naify, em conjunto com a sempre sofisticada Annablume, acaba de publicar no Brasil “Carta a D. – História de um Amor”, em tradução de Celso Azzan Jr. e esclarecedor posfácio de Josué Pereira da Silva. O tão breve quanto precioso volume, antes de mais nada, um primor gráfico, de rara fatura, chega, em meio à mediocridade da maioria dos últimos lançamentos ocorridos no país, com o forte apelo de uma assinatura –a do filósofo franco-austríaco André Gorz. Ídolo e guru de nove entre dez contemporâneos do célebre Maio de 68 francês, que pretendeu sacudir as estruturas de um mundo tão exausto quanto caduco. Se o movimento conseguiu ou não seu intento é outro assunto, mas que foi perdulário na produção de mitos e referências, isso ninguém pode negar. Do então ruivo e rebelde Cohn-Bendit a outros notórios musos e musas de então -de Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre, passando por Jacques Sauvageot, Benny Lévy, André Glucksman e Roland Castro. Este “Carta a D.” é o comovente relato de um amor, pontuado por quase 60 anos de história. Num depoimento que envolve não só a união com a inglesa Doreen –e que passou o nome a Dorine ao adotar a cidadania francesa–, como também o de uma perfeita síntese das últimas décadas de nosso insensato mundo, André Gorz, ele igualmente um “estrangeiro”, judeu austríaco, “apátrida” até 1956, quando se decide pela cidadania francesa, o que temos é, através das tintas de uma prosa intensamente poética, e essencial, a soberba investigação do que faz o encontro entre dois seres ganhar fumos de “eternidade”. Assim, neste tão curto quanto incisivo texto, o filósofo marxista-existencialista, um dos mais luminosos discípulos de Sartre, autor de quase 30 títulos, seja na área do ensaio ou do jornalismo, compõe o que será o seu último livro. Escrito na primavera européia de 2006, aqui tudo é melancólico, findante, e a vida, sob horror vacui, reinvidica para si uma solenidade triste. E Gorz abre a carta num ritmo de adágio lentíssimo: “Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor de seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Dorine está perto de morrer, vítima de uma insidiosa e torturante enfermidade, a aracnoidite, contraída oito anos antes, quando, ao se submeter a uma cirurgia na coluna, foi obrigada a tomar o lipiodol (contraste para raio-X), que, não eliminado do organismo, só então começa a lhe aparecer no corpo como sinistro e tragédia. A doença, paralisante e incurável, dá os seus primeiros e definitivos sinais sob a forma de dores insuportáveis que a impedem até mesmo de se deitar. Gorz sabe que vai perder o “lugar de sua vida”. Ao tratar de um evento amoroso incomum, que o acompanha desde o esforçado início de carreira numa Paris difícil de ser vivida e “penetrada” sem o indispensável suporte de uma companheira, que é mais que companhia, André Gorz não perde a deixa: considera, em profundidade e extensamente, a natureza última que torna dois seres essencialmente cúmplices e/ou “acumpliciados” frente à vida, e aos minieventos da vida, no quase sempre áspero cotidiano de uma “convivência”, onde, claro, nem sempre imperam as flores do fascínio, da tolerância e do encantamento. Curiosamente, André Gorz, justamente ele, um dos ícones dos ideais libertários do Maio de 68 francês, haveria de encontrar numa união em todos os sentidos estável, “burguesa” por excelência, o lócus ideal e insubstituível que funda -numa aparenta contradição-, não só sua existência, como propicia, em larga parte, o próprio desenvolvimento de sua não pequena obra como jornalista e pensador. E lhe facilita, a partir desta autêntica -e mais que pública- “âncora” afetiva, a “práxis” de uma fecunda biografia. Doce contradição, no caso, esta árdua obsessão por Dorine, a sugerir, alguma vez, em preto e branco, “histoires d’amour” que nem sequer as melhores cenas da Nouvelle Vague foram suficientemente capazes de imaginar um dia... Mas, não importa, é com D. que Gorz decidiu viver, em todo seu alcance e “duração”, a aventura de uma existência, com suas epifanias e descensos, com suas quedas no abismo e com suas miúdas ocorrências, invariavelmente tocadas de magia e sedução. Comovedor o trecho em que o autor lembra o estreito sofá que dividiam, logo que passaram a morar juntos, no apartamento de um cômodo em Saint-Germain-des-Prés. “Você dividiu comigo o velho sofazinho afundado que me servia de cama. Ele tinha apenas sessenta centímetros de largura, e nós dormíamos apertados, um contra o outro.” Por essas e por muitas outras é que Dorine passa a lhe filtrar o real de cada dia e, sem ela, não há cada dia, sobretudo para quem, como Gorz, se dedicou a buscar, através da escrita, a decifração de si e do mundo: “Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou de uma conversa. (...) Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. ‘Então escreva!’ ”. Necessário registrar aqui que ao tocar um tema em essência arriscado -o da felicidade de um “encontro” amoroso e de uma interlocução construída para toda a vida, imantados ambos por tamanho êxito-, não há outra saída, senhores, senão a de perecer junto. Separar-se, ainda mais dolorosamente pela morte de um dos protagonistas, há então de significar que a vida, sem seu insubstituível “complemento”, esvazia-se de todo e qualquer sentido. “O amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível, de menos socializável; de refratário aos papéis e imagens delas mesmas que a sociedade lhes impõe; aos pertencimentos culturais. (...) Você havia me dado a possibilidade de escapar de mim mesmo e de me instalar num outro lugar, do qual você me trouxera notícia. Com você, eu podia deixar de férias a minha realidade”, escreve Gorz. Ainda que o teor desta carta atravessada pelo cruciante pavor de quem percebe a vida por um fio e de quem carrega o mundo sobre as costas feito um prisioneiro no campo de concentração, André Gorz não cai, em nenhum momento, na vala comum dos dissimulados livros de auto-ajuda que pululam por aí travestidos de literatura. Não, Gorz é sincero até a última raiz e até o último suspiro -não deseja nem pretende ajudar ninguém com a particularíssima história de amor que o une -e o alia irreversivelmente- a Dorine, senão salvar-se a si próprio, pela via da escrita, mesmo sabendo o quão frustro e vão é o intento. Não há salvação para o Amor Demais senão a derruição pessoal pela via do suicídio a dois, até a última gota e a derradeira injeção letal que, aliás, Gorz e Dorine se aplicam mutuamente, no outono de 2007, no retiro de Vosnon, para onde se mudaram, octogenários, ainda que unidos pelas marcas de uma longínqua mocidade triunfante. Desce o pano. Não há outro final para uma história de amor que se quis eterna mesmo sabendo-se finita, grotescamente finita, breve passeio sobre a crua e insondável Terra dos Homens. Um ano antes, ao pôr termo a esta “Carta a D.”, Gorz parecia ter acertado, em aguda cumplicidade com a sua sempre Dorine, que o passado pode fechar-se sobre si mesmo, feito um lacre, insubstituível. Mesmo que a chave final seja a morte. Uma história de amor, diga-se ainda, tão profunda e enfeitiçada na qual, nova vitória sobre o Destino!, os amantes não se dizem jamais adeus. “Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. (...) Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.” Eis aí uma história de amor que não termina; que não termina jamais.
“Carta a D. – História de um Amor”, de André Gorz. Tradução: Celso Azzan Jr. Posfácio: Josué Pereira da Silva. Annablume/Cosac Naify. 80 págs., R$ 29,00.
. Wilson Bueno
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