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URBANISMO

Cinemas baldios
Por Fernando Masini

Política de revitalização do centro de São Paulo pouco se preocupa com as salas de filmes da região

Os antigos palácios cinematográficos do centro de São Paulo estão hoje em ruínas, a maioria deles desativada. Grande parte do entusiasmo do público em freqüentar as faraônicas salas de exibição -construídas a partir da década de 30- e desfilarem nas antes glamourosas avenidas Ipiranga e São João arrefeceu ao longo dos anos, sendo que raras exceções resistiram à morte anunciada.

O lançamento de multiplex em lugares mais seguros, a concorrência da televisão e do cinema em casa, o desgaste nas fórmulas apresentadas pelos grandes estúdios, as disputas entre exibidores e órgãos públicos, tudo isso somado, além de outros fatores, contribuiu para o declínio do público e o fechamento de salas na região central da capital paulistana, batizada de Cinelândia na época de ouro.

Só para se ter uma idéia, em 1945, das dez salas de maior público na cidade, sete estavam no centro, encabeçadas pelos cines Ipiranga e Art-Palácio. O panorama concentra-se ainda mais se analisarmos os dados do Seade (órgão de pesquisa pertencente ao governo do Estado de São Paulo) de 1957: todas as dez salas com maior média de público localizavam-se na Cinelândia.

Basta uma rápida volta pelas imediações para notar como o cenário atual é bem menos fulgurante. O cine Paissandu, por exemplo, continua com seu esqueleto de pé no mesmo local onde sempre residiu. Agora uma única pessoa cuida do prédio, seu Sebastião, também responsável por apresentar o espaço para os interessados em alugá-lo. “Quase sempre é dono de estacionamento que vem dar uma olhada no prédio”, diz.

Ao entrar no Paissandu percebe-se o estado de abandono: os antigos painéis da fachada interna desgastados, praticamente apagados, os elevadores não funcionam mais –Sebastião explica que toda a fiação foi furtada– e o carrinho que vendia balas e doces está coberto de poeira. Apenas um aspecto ainda é majestoso: o tamanho da sala e os inúmeros caminhos de acesso, parecidos com veredas de um labirinto.

Em “Salas de Cinema em São Paulo”, o pesquisador Inimá Simões fez um retrato do cine Paissandu quando da sua inauguração, em 1958. “Com 2.150 lugares e muito conforto (os espectadores que demandam os dois pullmans sobem por elevadores que dão acesso às salas de espera, decoradas também com temas regionais: a congada e o frevo), o Paissandu é uma demonstração de confiança no mercado cinematográfico paulistano”.

Não muito distante dali, na rua Conselheiro Crispiniano, padece o cine Marrocos, fechado há mais de dez anos e também à espera de um locatário. Houve de efetivo uma tentativa de parceria com a rede Cinemark para reformar o prédio, mas segundo a própria assessoria da empresa, o negócio patina nos trâmites burocráticos e ainda não saiu do papel.

Erguido em 1952, o cine Marrocos foi considerado por muito tempo o cinema mais luxuoso da América do Sul. Foi palco de eventos importantes da cidade, como a primeira Mostra Internacional de Cinema. Adotou o rigor como distinção e não permitia de forma nenhuma a entrada de homens sem gravatas ou mulheres desarrumadas. Inspirado em temas árabes, possuía um chafariz no hall de entrada e um bar com colunas espelhadas.

Outras duas célebres salas do centro tornaram-se exibidoras de filmes pornôs, na tentativa de aliviar a escassez de público. A primeira delas, o cine Paris, fica no número 808 da avenida Ipiranga e transformou-se em cinema pornô em março de 2006. Hoje, funciona 24 horas por dia e dispõe de cabines individuais, além da sala principal. Já o Art-Palácio, antigo UFA -projeto idealizado pelo arquiteto Rino Levi em 1936 e um dos primeiros palácios cinematográficos da Cinelândia- possui atualmente duas salas, sempre de filmes pornográficos, e a entrada custa cinco reais.


O caso Marabá

O caso mais recente de tentativa de restauração da memória da Cinelândia é o do cine Marabá. Inaugurado em 1945, no número 757 da avenida Ipiranga, a sala fechou as portas e deve passar por uma reforma. É dos últimos sobreviventes do centro de São Paulo a buscar alternativas para evitar uma derrocada completa.

O grupo Playarte, administrador da sala, pretende transformar o espaço com capacidade para 1.600 espectadores, num conjunto de cinco salas menores, sendo uma principal de 500 lugares, duas de 200 a 300, e outras duas com lotação de 150 a 200 pessoas. Para desenhar o projeto no estilo multiplex, foi chamado o arquiteto Ruy Ohtake, famoso por ter criado em São Paulo os hotéis Renaissance e Unique.

Como se trata de um prédio tombado pelo Patrimônio Histórico, é obrigatório um respaldo da prefeitura para o começo das obras. O projeto atualmente espera uma equipe de engenheiros e arquitetos, supervisionada pela administração local, para definir como será o processo de restauro. Em seguida, o documento será encaminhado à prefeitura, para liberar ou não o início da reforma.

De certo, sabe-se que as colunas serão mantidas e restauradas, provavelmente não haverá alteração na fachada e as cinco salas terão de ser reversíveis, ou seja, aptas a retomarem o formato original. O nome Marabá a princípio permanece. Segundo a assessoria da Playarte, a promessa é de que o novo conjunto de salas será inaugurado em meados de 2008.

O Marabá desafiou a lógica do mercado exibidor, mantendo-se por longo período como uma das salas que registraram as maiores médias de público da cidade. Conseguiu resistir a épocas de crise, como nas décadas de 60 e 70, quando a televisão espalhou-se como principal novidade nas casas dos brasileiros e provocou, em certa medida, o afastamento da população dos cinemas.

A sala serviu de base para impulsionar as primeiras produções da companhia Vera Cruz, em 1950, cujo início ocorreu com o filme “Caiçara”, de Adolfo Celli, em noite de gala no Marabá. Inimá Simões escreveu sobre o episódio: “Com holofotes, banda da Guarda Civil, autoridades em geral e o cordão de isolamento protegendo o elenco que acena para a multidão, testemunha-se uma situação particularmente inédita, pois afinal um filme realizado aqui merece ser projetado em ambientes nobres da Cinelândia”.


Um novo eixo cinematográfico

A retração de público percebida ao longo dos anos 60 e 70 vai gerar um alvoroço entre empresários do setor cultural no sentido de reconfigurar o mercado exibidor e testar novas possibilidades para reconquistar espectadores. O centro é atacado por investidores e pela especulação imobiliária, o que causa desconfiança nos proprietários dos cinemas, que penam para pagar aluguel e impostos revertidos à prefeitura.

De uma média expressiva de quase 60 mil espectadores na capital em 1955, segundo números do Seade, há uma queda vertiginosa para pouco mais de 20 mil em 1970. Essa curva descendente prenuncia um cenário desolador para a cinematografia paulistana. Uma das saídas é investir em filmes de arte e tentar de alguma forma atrair novos públicos cansados da mesmice de Hollywood, que também amargava na época uma crise.

Uma das primeiras iniciativas neste sentido partiu do empresário Dante Ancona Lopes, conforme mostra Inimá Simões em “Salas de Cinema em São Paulo”. Em 1958, Lopes idealizou no centro da cidade o cine Coral, “que vinha para atender um público que não ficava satisfeito com o filme de todo dia”. Apostou numa inovação que deu certo, apesar de aparentemente ir contra aos desejos da população. Na sala foram exibidas novas produções européias, como as de Truffaut, Antonioni e Fellini.

Apesar de alívios esparsos no meio da turbulência do mercado exibidor, a verdade é que o centro já não ostentava o garbo e a elegância de antigamente. A evasão de público e o fechamento das salas provocaram a migração dos cinemas para regiões mais promissoras, como a avenida Paulista e os Jardins, marcando assim uma nova fase do circuito cinematográfico paulistano.

“O centro está congestionado. Falta espaço para expansão dos negócios, o acesso está cada vez mais comprometido, o que provoca transformações na própria estrutura de serviços da cidade, que inchou a ponto de não comportar apenas um núcleo central. Essas transformações, aliadas à degradação que já se faz sentir no centro, afastam os espectadores daqueles antigos palácios cinematográficos onde se reunia a elegância paulistana”, apontou Inimá Simões.

Novas salas apareceram no recém deslocado eixo cinematográfico de São Paulo: o Astor, na avenida Paulista (fechado em 2001 e onde fica atualmente a Livraria Cultura), os cines Gazeta e Gazetinha, também na avenida Paulista, onde agora funciona o Reserva Cultural, e o Cine Belas Artes, até hoje localizado na rua da Consolação.

Enquanto isso, as salas do centro em assumida decadência começaram a dividir o espaço interno em repartições menores, na tentativa de promover maior número de atrações e variedades no mesmo prédio. A proposta arranjada de improviso, pouco preocupada em garantir ao público as condições técnicas necessárias para fruição do espetáculo, ficou conhecida como “cinema-quitinete”. O Paissandu foi desdobrado em duas salas, e os cines Art Palácio e Ipiranga também foram duplicados.

Mas a medida pouco contribuiu para retirar as salas do centro do atoleiro. Os cinemas modernos na região da avenida Paulista criaram um novo ambiente requintado e mais protegido para a população de São Paulo. Daí para frente, a história é conhecida, o número de multiplex instalados em shoppings pipocou pelos quatro cantos da cidade, e as políticas públicas pouco se interessaram em revitalizar os cinemas do centro da cidade.

Publicado em 8/3/2008

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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