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dossiê
O ESPAÇO POLÍTICO

O fim da diferença
Por Vladimir Safatle

É hora de a esquerda, outra vez, erguer a bandeira da igualdade radical e da universalidade em suas lutas

This is the way the world ends/ Not with a bang/ but a whimper
T.S. Eliot

Observar o esgotamento de processos históricos é um exercício que leva confrontação com a dança vertiginosa das inversões. Valores e normas que antes pareciam ter a força de garantir a efetivação de expectativas de liberdade, auto-realização e justiça começam simplesmente a funcionar de maneira contrária.

Nestas horas vemos um cenário político macabro composto de tolerantes intolerantes, democratas autoritários, pacifistas belicistas e cosmopolitas comunitaristas. Isto, quando não somos assombrados pelo retorno de pensamentos edulcorados de crítica da modernidade, pregando a necessidade de uma refundação conservadora de nossos vínculos sociais.

No fundo, todas essas figuras indicam como a substância normativa das nossas sociedades ocidentais não têm mais força alguma para orientar a crítica social.

Diante deste quadro, é de se esperar a sensação de falta de norte. Pois estamos em uma fase em que a política não pode ser guiada por exigência de realização de ideais normativos de justiça e consenso que já estariam presentes em alguma dimensão da vida social.

Deixar-se guiar por tais exigências nos impede de desenvolver uma crítica mais profunda que nos permita questionar a gênese de nossos próprios ideais de justiça e consenso. Ou seja, a crítica não pode mais ser apenas a comparação entre situações concretas determinadas e normas socialmente partilhadas.

Esta é, no fundo, uma crítica de juizado de pequenas causas que se contenta em comparar normas e caso. Antes, a verdade crítica tem a força de se voltar contra nossos próprios critérios de justiça e consenso democrático, já que ela se pergunta se nossa forma de vida não é mutilada a ponto de se orientar por valores resultantes de distorções patológicas.

Neste contexto, não é de se estranhar que vários pensadores de esquerda se voltem para tópicos que pareciam arremessados à lata de lixo da história como, por exemplo, a crítica da democracia parlamentar, a reflexão sobre a legitimidade da violência política e a elevação da “igualdade radical” e da “indiferença” (ao invés da “diferença pura”) como valor político maior para a esquerda. Movimento desenvolvido de maneira mais clara e sistemática por pensadores como Alain Badiou e Slavoj Zizek.

É provável que esses tópicos, de uma maneira ou outra, se transformem em peça importante da agenda de debates da esquerda mundial. Eles indicam como, diante de uma realidade histórica extrema, o pensamento capaz de abrir portas para o futuro é aquele que não teme deslocar-se para os limites.

Um exemplo maior dessas inversões é o que aconteceu com a diferença enquanto valor maior para a ação política.

Durante certo tempo, embalada pelos ares libertários de Maio de 68, a esquerda viu na “diferença’’ o valor supremo de toda crítica social e ação política. Assim, os anos 70 e 80 foram palco da constituição de políticas que visavam, em alguns casos, construir a estrutura institucional daqueles que exigiam o reconhecimento da diferença no campo do sexual, do gênero, da raça etc.

Uma política das defesas das minorias funcionou como motor importante do alargamento das possibilidades sociais de reconhecimento. Essa política gerou, no seu bojo, as exigências de tolerância multicultural, que pareciam animar o mundo principalmente a partir de 1989, com a queda do Muro de Berlin.

Sabemos como multiculturalismo diz respeito, inicialmente, a uma lógica de ação política baseada no reconhecimento institucionalizado da diversidade cultural própria às sociedades multi-raciais ou às sociedades compostas por comunidades lingüísticas distintas. Isto implica em transformar o problema da tolerância à diversidade cultural, ou seja, o problema do reconhecimento de identidades culturais, no problema político fundamental.

Dessa forma, abriu-se as portas para uma certa secundarização de questões marxistas tradicionais vinculadas à centralidade de processos de redistribuição e de conflito de classe na determinação da ação política. No limite, os conflitos fundamentais no interior do universo social foram compreendidos como conflitos culturais. Talvez tenha sido por isto que a agenda sobre o multiculturalismo tenha sido gerada exatamente no interior dos “cultural studies” anglo-saxões.

No entanto, podemos dizer que esta transformação de conflitos sociais em conflitos culturais foi talvez um dos motores maiores de uma equação usada atualmente à exaustão pela direita mundial, em especial na Europa. Ela consiste em aproveitar-se do fato de as classes pobres européias serem compostas majoritariamente por imigrantes árabes e africanos e, assim, patrocinar uma política brutal de estigmatização e exclusão política travestida de choque de civilizações.

Ou seja, há uma linha reta que vai da tolerância multicultural à perpetuação racista da exclusão daqueles para quem nossos valores nunca deram prova de inclusão modernizadora. Afinal, trata-se de dizer que o único lugar onde a diferença pode florescer em sua liberdade é em nosso Ocidente defendido por megaaparatos securitários contra terroristas.

Um belo exemplo da retidão dessa linha foi dado pelo atual consultor do J.P. Morgan e fiel escudeiro de George W. Bush, Tony Blair. Lembremos de sua declaração a respeito do “dever de integração” que cai sobre os ombros de todo muçulmano que resolveu emigrar para a Grã-Bretanha, discussão sobre a integração motivada pela eterna querela a respeito do porte de véus em lugares públicos. “Nossa tolerância”, dirá Blair, “é parte do que faz da Grã-Bretanha, Grã-Bretanha. Conforme-se a isto, ou não venha para cá. Nós não queremos os ‘hate-mongers’ independentemente de sua raça, religião ou credo”.

“Conforme-se a isto, ou não venha para cá” é, de fato e como todos podem ver, um exemplo muito ilustrativo de tolerância. No fundo, essa é uma prova clara de que nossos valores liberais não servem mais para coisa alguma.

Por outro lado, é bem provável que esta estratégia de esvaziamento de conflitos sociais através da cultura seja responsável também pela inacreditável onda de nacionalismo requentado que invade a Europa. Desde a criação do “Ministério da imigração e da identidade nacional” pelo marido de Carla Bruni até o recente apoio europeu à declaração da independência do Kosovo e o recrudescimento do separatismo na Bélgica, vemos o mesmo tipo de regressão política que consiste em identificar Estado, nação e povo.

A esse respeito, lembremos que uma das maiores invenções políticas da modernidade foi o imperativo de que nem a nação, enquanto construção imaginária, nem o Estado, enquanto aparato jurídico-institucional, podem estar relacionados ao povo como identidade. Pois isso significa colonizar a política com uma lógica que bloqueia o que há de determinação universal em todo e qualquer sujeito.

Nação e Estado devem ser, assim, absolutamente indiferentes às diferenças, isto no sentido de aceitá-las todas e esvaziar a afirmação da diferença de qualquer conteúdo político. Pois o espaço do político não deve ser marcado pela afirmação da diferença, mas pela indiferença absoluta em relação a qualquer exigência identitária. No limite, isto nos leva a criticar a existência de uma nação e um Estado francês, kosovar, judeu, flamengo, inglês etc. Condição maior para discutir a possibilidade de construção de Estados pós-nacionais.

Para termos uma idéia de quão explosivo pode ser este dispositivo, lembremos das conseqüências possíveis da vinda de mais um ator de peso neste cenário de conflito cultural: Ratzinger e sua igreja. Desde suas primeiras declarações racistas contra a violência inerente ao Islã, o jogo estava claro.

Descontando a ironia em ouvir o papa -que beatificou padres que apoiaram o regime fascista e assassino de Franco- criticar a violência religiosa, não havia dúvidas que a operação consistia em insistir na posição central do catolicismo para a configuração da “idéia espiritual do Ocidente”. Com isto, abriam-se as portas para o pior de todos os amálgamas: a constituição de uma fortaleza identitária patrocinada pela tradição judaico-cristã.

Para tanto, Ratzinger não teme sequer cometer o impropério de citar Adorno e Horkheimer em suas bulas, como se a crítica frankfurtiana aos processos de interversão na modernidade levassem diretamente às suas pregações por abstinência sexual fora do casamento, à excomunhão dos que abortam, dos que defendem famílias homossexuais e outras pérolas do biopoder e da culpabilização.

A única coisa que se pode dizer a este respeito é que, se Ratzinger interessa-se pela Escola de Frankfurt, talvez ele poderia começar lendo “Tabus Sexuais Hoje”, de Adorno, ou, quem sabe, “Eros e Civilização” de Marcuse. Construir aliados através de falsos amálgamas é uma antiga estratégia para fazer proposições intoleráveis parecerem aceitáveis.

Contra aqueles que não vêem relação alguma entre fortalecimento dos comunitarismos, o retorno da ala mais reacionária do catolicismo e a política multicultural das diferenças, valeria a pena fazer aqui algumas considerações.

Não podemos perder de vista como trata-se, no fundo, de impor uma escolha forçada. Ou um modo de experiência social da diferença que se realiza na multiplicação de modos de ser coerente com os imperativos da modernidade capitalista ou a procura pela reconstituição social de vínculos substanciais patrocinada pela polícia e pelas estruturas disciplinares de sempre (igreja, nação, família etc.).

Diante dessa situação, devemos lembrar que a verdadeira mola do poder não é a imposição de uma norma de conduta, mas a organização das possibilidades de escolha. Trata-se de operar uma redução da escolha que transforma o movimento no circuito limitado de um pêndulo que vai necessariamente de um pólo a outro. E, como todo pêndulo, o mover-se é apenas uma forma de conservar o mesmo centro. Ir de um pólo a outro é apenas uma maneira mais complicada de não andar.

Nossas formas hegemônicas de vida podem muito bem conviver ao mesmo tempo com a geografia mental da liberalização e da restrição. Afinal, não há dificuldade alguma em desejar a plasticidade infinita da “viagem aleatória da libido” e amar ouvir de vez em quando a voz firme do Ministro da Justiça.

Por fim, podemos dizer que esse contexto talvez deixe clara a urgência de a esquerda colocar novamente suas lutas sob a bandeira da igualdade radical e da universalidade, abandonando qualquer tipo de veleidade comunitarista ou de entificação da diferença.

Devemos compreender de uma vez por todas que a igualdade não implica imposição da identidade, mas indiferença em relação a toda e qualquer diferença. Indiferença que permite retirar a diferença do espaço da política para que ela possa ser vivenciada de maneira não dramática e para que a política possa confrontar-se com o seu real. Para a esquerda, isto não significa outra coisa que lembrar de onde ela veio.


Publicado em 23/2/2008

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Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e professor-visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII. É também autor de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006) e "Cinismo e Falência da Crítica" (no prelo), entre outros.

 



1 - "The Guardian'', 9/12/2006.

 
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