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Há um processo de esvaziamento da democracia. Acho que se deve criticar os partidos corruptos que não perseguem os interesses do país e do povo, e que não cumprem suas promessas. Agora, há outros políticos, outras políticas e outras medidas. O país não está necessariamente entregue à dicotomia de ter que escolher entre uma política corrupta e um regime político autoritário.


Portugal e Espanha têm vários aspectos comuns, como, por exemplo, o fato de terem vivenciado longas ditaduras. No entanto, os caminhos seguidos após a democratização têm sido distintos. Como o sr. avalia essa relação?

Rosas: Sim, é diferente porque Portugal fez a revolução, acertou contas, muito mais do que em Espanha e no Brasil. O problema que temos em Portugal é, sobretudo, tornar presente um grande tabu que continua a pesar: a memória da guerra colonial. O que há em Portugal é uma luta sobre os conteúdos da memória. O que há na Espanha e no Brasil é o silêncio.

A democracia teve um preço em Espanha e, ouso dizer, no Brasil. Foi um pacto de transição que se assentou no silêncio e na anistia sem princípio. Ficou tudo perdoado e não se fala mais nada. E isso é um erro tremendo, não há nenhuma democracia que agüente a longo prazo o preço do silêncio.

As pessoas têm que acertar contas com os carrascos. O silêncio é uma espécie de anulação da memória. É como se dissessem: “Não vamos discutir a memória para salvar a democracia”. A democracia só pode ser madura se houver lugar para as memórias que aceitem a si próprias.


Como o sr. avalia a convivência no poder entre o primeiro-ministro, José Sócrates, e o presidente da República, Cavaco Silva?

Rosas: O presidente da República é de uma cor política e o primeiro-ministro é de outra. O Partido Socialista, que é majoritário, ganhou a eleição duas vezes. A última com maioria absoluta e vai governar o país até as eleições de 2009. É um governo socialista de características neoliberais. A maioria dos partidos socialistas na Europa tem esse papel: desmantelar aquilo que foi construído no pós-guerra, como previdência, direitos sociais, educação etc.

Tudo isso, cumprindo a lógica implacável do capitalismo global, está sob ataque. É uma luta que se trava neste momento na Europa entre os que querem, em nome da eficácia do capital, dar cabo daquilo que são os espaços públicos de defesa dos cidadãos e aqueles que querem mantê-los. O primeiro-ministro português é uma espécie de Tony Blair, que se limitou a fazer o que a senhora Margareth Thatcher fazia melhor.


Há uma crise da esquerda na Europa?

Rosas: Não, não acho que exista. Se a linha divisória entre esquerda e direita é a defesa dos serviços públicos -e é um critério que acho razoável-, os partidos socialistas não estão à esquerda. Eles têm um pequeno pezinho de um lado e os outros pés no outro, ainda que dentro dos partidos socialistas exista sensibilidade e haja pontos de vista diferentes. Essas viragens dos partidos socialistas para o neoliberalismo são sofridas com indignação por um grande número de socialistas europeus.

Após o colapso do paradigma soviético houve uma crise da própria idéia do socialismo. Isso levou a um processo de recomeço e redefinição, que passa pelo reconhecimento da diferença, pelo fim do sectarismo, do dogmatismo e pela capacidade de juntar coisas de naturezas diferentes com um objetivo comum. Esse processo de reconstituição de uma esquerda popular e socialista na Europa tem tido altos e baixos.

Vivemos em uma espécie de presente contínuo. Como é possível acabar com as oito horas de trabalho na Europa? Somente fazendo esquecer que correram rios de sangue para que os trabalhadores tivessem esse direito e os sindicatos se tornassem legais. É uma memória de luta e de resistência que legitima as conquistas sociais. E querem apagar essa memória, que para o capitalismo é de desestruturação social, não através da proibição, mas de métodos muito mais eficazes, uma espécie de esvaziamento do real.


A participação de socialistas no governo de Nicolas Sarkozy reflete essa nova realidade dos partidos de esquerda?

Rosas: O Partido Socialista francês vivencia exatamente os mesmos problemas dos outros esquerdistas europeus. Ele tem um vasto setor liberal, mas, mesmo com a combatividade de certos setores minoritários, a lógica que se impõe passa a ser indiferenciada.

Em Portugal, por exemplo, ter um governo do Partido Socialista ou do Partido Social-Democrata vai sendo tendencialmente a mesma coisa. É algo que no fim do século 19 chamávamos de rotativismo: a política é a mesma, as clientelas é que são diferentes. Não cabe a mim fazer comentários sobre a vida política no Brasil, mas, seguramente, o que eu estou a dizer é muito bem compreendido por quem observa com atenção a realidade brasileira.


Como o sr. avalia a relação Brasil/Portugal?

Rosas: Tem sido uma relação sujeita a muitos mitos. No tempo da ditadura salazarista, havia o mito da fraternidade, que baseava muito mais na retórica do que na realidade. Até o fim dos anos 50, Portugal era um grande exportador de mão-de-obra para o Brasil, sobretudo dos mais pobres, mas as economias brasileira e portuguesa tinham muito pouca complementaridade e mesmo a grande ponte da língua foi insuficientemente aproveitada para a cooperação real.

A situação mudou nos últimos anos no seguinte sentido: Portugal passou a ser um importador da força de trabalho do Brasil. A maior comunidade de imigrantes hoje no país é de brasileiros. Além disso, Portugal passou a ser um investidor em certos setores de ponta. Na economia brasileira é uma gota d´água, mas na portuguesa é significante. As relações passaram a ter algum conteúdo pelo trabalho e pelo capital.

Seria muito importante que isso fosse complementado pelo campo cultural. Porque há muita gente a trabalhar no Brasil no campo das ciências sociais, da história, da literatura, na questão colonial, nos problemas da educação. Há uma multifacetada compreensão em vários campos científicos que não é suficientemente valorizada. Essas relações deveriam ser trabalhadas e institucionalizadas por protocolos e através de centros, lá e cá, que se encarregassem de apoiar e potencializar essa iniciativa.


Quais são as características do Bloco de Esquerda?

Rosas: O Bloco de Esquerda reúne a União Democrático-Popular, antes marxista-leninista, um grupo trotskista chamado Partido Socialista-Revolucionário, e uma dissidência do Partido Comunista Português, a Plataforma de Esquerda. Ele agrupou ainda pessoas sem partido, como eu, que se juntaram ao projeto na compreensão de algumas questões.

Hoje o trabalho tem que ser feito pela capacidade de reunir várias leituras e culturas de esquerda em um único projeto. O que implica ter que enfrentar fantasmas do dogmatismo e ter capacidade de responder às solicitações que as pessoas esperam de uma esquerda transformadora. É preciso ter um programa concreto para atender necessidades reais e fazer disso a base de um projeto de esquerda popular e socialista. O partido foi fundado em 1999 e tem atualmente nove deputados.


E qual é a sua plataforma política?

Rosas: Ela está focada em alguns aspectos essenciais: como a defesa do sistema público de educação e saúde, a resistência ao império americano e a luta pelos direitos que a esquerda historicamente subestimou, como questões relacionadas à mulher e a todas as minorias perseguidas ou oprimidas da sociedade.

Conseguimos legalizar o aborto e avançou-se nos direitos dos homossexuais com as uniões de fato. A esquerda tradicional via essas coisas, que atualmente estão no centro da luta política, como de menor importância. E há outro aspecto importante, e que hoje é fundamental, a luta contra a destruição do ambiente.


Publicado em 23/2/2008

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Ana Paula Conde
É jornalista, mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutoranda em história, política e bens culturais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

 
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