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Acho que a crise da esquerda vai durar muito tempo, pois não há nenhuma aliança em curso. Sobretudo porque ela está dividida em duas tendências que não vão se reconciliar tão cedo. A tendência que pensa que é preciso ir mais à direita (Strauss-Kahn e Ségolène Royal) e, por outro lado, uma extrema-esquerda que pensa que é preciso ir mais à esquerda. Acho que ainda teremos muitos anos de crise da esquerda.


Como o sr. analisa a liderança do líder de extrema-esquerda Olivier Besancenot?

Badiou : Besancenot não tem uma verdadeira originalidade. Ele está tentando reconstruir um pequeno partido comunista porque o grande morreu. Existe um lugar para isso porque as pessoas são órfãs do Partido Comunista. Se a gente ler os textos, as propostas e a visão política de Besancenot, ela é clássica, tradicional. Acho que não tem grande futuro.


Sarkozy diz que quer acabar de uma vez por todas com a herança de Maio de 68. O sr. pode explicar as causas dessa cruzada?

Badiou : Maio de 68 representou na França o último momento forte da esperança de uma mudança política profunda. Era a idéia que havia uma outra possibilidade além do capitalismo desenfreado, da reação, na época do gaullismo. Foi, pois, um momento de esperança política extremamente forte.

Penso que, quando Sarkozy diz que é preciso acabar de uma vez por todas com Maio de 68, ele quer dizer “é preciso acabar com essa esperança”. É mais profundo do que acabar com qualquer coisa que existe realmente. É acabar com a esperança de uma outra política e se instalar de maneira realista e resignada no mundo tal e qual ele é, isto é, no mundo da monstruosidade capitalista atual. Ele diz que não há outra coisa, não há outra esperança. Mas ele não vai conseguir apagar essa esperança

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O sr. escreve: "A hipótese comunista como tal é genérica, ela é o 'fundo' de toda orientação emancipadora e dá nome à única coisa que faz com que valha a pena nos interessarmos pela política e pela história". Por que o Partido Comunista Francês não sabe mais falar ao povo?

Badiou: Acho que, no século XX, com a União Soviética, com os partidos comunistas tradicionais, pouco a pouco a palavra "comunismo" perdeu seu significado genérico. No fundo, comunismo não queria dizer mais uma esperança verdadeira e viva de uma outra sociedade, queria dizer o partido, os Estados socialistas que todos sabíamos que não eram um paraíso, ao contrário. Então, pouco a pouco, em sua realização concreta a idéia comunista perdeu seu vigor, sua força e sua inspiração.

No fundo, o fim do comunismo de Estado, o fim da União Soviética e finalmente o fim dos partidos comunistas ocidentais significa o fim desse período do comunismo. O que digo no meu livro é que nesse momento a gente pode escolher entre duas possibilidades: ou abandona completamente a hipótese comunista, ou renuncia à palavra "comunismo" e procura outra coisa...


O Partido Comunista Francês é o único partido comunista ocidental que não mudou de nome, não?

Badiou: Sim, mas ele pretende mudar. E Olivier Besancenot pensa em tirar a palavra "comunista" do nome de seu partido, a Liga Comunista Revolucionária. A primeira hipótese seria renunciar a essa palavra. Penso que isso seria uma derrota. Acho que se deve valorizar a palavra, dar-lhe vigor, sabor e novidade. É preciso fazer a crítica completa do que foi o comunismo do século XX, reconhecendo que ele teve sua grandeza, encarnou formas de organização popular verdadeiras.

Não se deve jogar o bebê com a água do banho. Precisamos defender e transformar a palavra, criticando o período anterior e não abandoná-la pura e simplesmente, porque penso que, se não temos uma palavra que designe a esperança geral de uma outra política, ficamos enfraquecidos, e é como dizer: “Só podemos mudar poucas coisas”. Mas, se queremos uma esperança geral, acho que a hipótese comunista continua a ser o bom caminho, no sentido que lhe dava Marx, no sentido que ela tinha no século XIX.


E qual é o bom caminho para o Partido Comunista Francês?

Badiou : Morrer de uma vez. Ele deveria propor sua dissolução e sua reconstituição sobre outras bases, outras perspectivas. Como um partido que carrega uma esperança política é uma aventura terminada. Hegel dizia: “Tudo o que nasce merece morrer”. Pois bem, o Partido Comunista nasceu em 1920 e pode morrer em 2010.


Mas, se o sr. considera a hipótese comunista, seria preciso ter um Partido Comunista, não?

Badiou: Isso é um grande problema. Quais as formas de organização adaptadas à hipótese comunista? Acho que isso muda. A idéia de Marx não era a de um partido, era de uma internacional, e a internacional era outra coisa, era uma confederação de organizações. A idéia de Lênin é a de um partido. Depois da idéia de uma internacional no sentido de Marx, depois do partido no sentido de Lênin, penso que devemos entrar numa terceira forma de organização que ainda não conheço. Se soubesse lhe diria...


Seria um furo...

Badiou: Claro, seria um furo. Mas penso que não seria nem a internacional no sentido de Marx nem o partido de Lênin. É preciso criar algo. A grande questão atual é que é preciso reinstalar a hipótese comunista primeiramente. É um trabalho de pensamento, um trabalho teórico, um trabalho intelectual, um trabalho de experimentação social. Mas o problema da organização não está resolvido. Isto é evidente.


Mas o sr. pensa que Marx é sempre atual ?

Badiou: Marx é atual do ponto de vista da formulação da hipótese comunista e de algumas de suas características. Não digo que devemos refazer uma internacional como a internacional de Marx, mas creio que os grandes problemas de hoje sejam internacionais. Por exemplo, dizem que na França não existe mais uma classe operária. Sim, mas em escala mundial há uma enorme classe operária.

Na China, há dezenas, centenas de milhões de operários que trabalham 15 horas por dia em fábricas. Não é, pois, verdade que não exista mais classe operária. Os fenômenos são mundiais. E, portanto, uma das questões difíceis da organização contemporânea da hipótese comunista é sua forma mundial.


Quem faz resistência a Sarkozy atualmente e como se organiza hoje essa resistência?

Badiou: Na análise que proponho da França contemporânea, digo que se vêem quatro forças contra Sarkozy. A juventude dos liceus e das universidades; a juventude popular da periferia ("banlieue"); a grande massa de assalariados comuns, inclusive os ferroviários, os funcionários da RATP (companhia estatal de trens), os técnicos das fábricas, mas também os empregados dos Correios; e, depois, os proletários recém-chegados, a grande massa de operários de origem estrangeira: africanos, magrebinos, asiáticos...

São as quatro forças possíveis. Todas essas forças fazem seus movimentos. Houve movimentos estudantis importantes, houve movimentos da juventude popular, houve greves de assalariados e há organizações e manifestações importantes dos operários que não têm documentos.


Os operários sem-documentos têm peso numa nova política?

Badiou: Eles têm formas de organização, de manifestação e de resistência importantes. São os mais perseguidos de todos. O grande problema, um problema político maior para a organização de todas as forças políticas contra Sarkozy, é o da unidade entre essas quatro forças, de passagem de uma força a outra. No momento, elas estão separadas e, enquanto for assim, o adversário terá uma margem de manobra importante.


Os sindicatos são fracos e divididos?

Badiou: Exatamente. E, além disso, representam tradicionalmente uma força secundária, não decidem os acontecimentos. Maio de 68 não foi exatamente um acontecimento sindical. Mesmo a greve não foi iniciada sob comando dos sindicatos, ela começou antes.

É chocante ver que entre os levantes da juventude popular e as manifestações e greves dos estudantes não há uma relação, ou então ver que a greve dos assalariados e os protestos dos trabalhadores de origem estrangeira também não têm unidade. Enquanto persistirem essas divisões, seremos fracos. Concretamente, o problema de organização política hoje é o problema de um mínimo de circulação e de unidade dessas quatro forças.


Qual seria a solução para uni-las?

Badiou: Será preciso começar por experiências locais. A possibilidade para os jovens intelectuais de trabalhar com operários de origem estrangeira sobre a questão dos documentos já existe, não é uma coisa impossível. Que a juventude popular seja apoiada ou considerada pela juventude estudante também é uma possibilidade. Podem-se construir pequenas experiências e tentar generalizá-las depois. Esse é o verdadeiro trabalho político.


Publicado em 23/2/2008

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Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

 
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