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Vicente Mello, o chefão da I’M, é a cara pública do HLDC. É o chamado “profissional”, uma espécie de “cleaner” do filme de Tarantino. Ele diz que investirá, em 2008, R$ 20 milhões em marketing. É um apelo sedutor para confeccionistas nem sempre firmes das pernas. “Meu trabalho é fazer com que o consumidor me deixe invadir o guarda-roupa dele com os nossos produtos”, afirmou.

Se fosse 100% sincero, diria: invadir o seu bolso... Concentração de grifes, concentração de plantas produtivas, gestão profissional centralizada, ampliação da rede de lojas, multiplicação de produtos e, conseqüentemente, barateamento de custo unitário, além de muito marketing. Depois, entrará em marcha o plano de internacionalização das grifes.

Pode ser que a internacionalização ajude também a resolver alguns gargalos empresariais. A elevação recente da alíquota de importação de tecidos de 18% para 26% teve o propósito de defender tecelagens tradicionais diante da concorrência chinesa, como é o caso da Cataguazes, do vice-presidente da República, José Alencar. Mas essa sobrevida da tradição é um obstáculo para a expansão das grifes, que usam tecidos “tecnológicos”, sem equivalentes nacionais, e que foram igualmente majorados pela medida do governo.

Ao encarecer insumos, medidas como essa diminuem as perspectivas das grifes nacionais exportarem roupas. Logo, é provável que a internacionalização signifique confeccionar fora do país para vender também fora do país. Exportação de empregos, no jargão dos economistas...

A imprensa trata a concentração de capitais na indústria da moda como “maturidade” do setor. É como se o passado e o presente nada fossem além de um ensaio do futuro. Mas, desde sempre, os grandes nomes da moda, os principais desfiles, foram franceses, como se houvesse até recentemente uma impossibilidade histórica de uma moda nacional. Afinal, Dener não morreu na miséria?

O fato é que essa moda francocêntrica já não funciona mais e não existirão dois fenômenos como Louis Vuitton. Seus simulacros são tentativas de aplicação desse modelo de negócios bem-sucedido, incorporando a demanda moderna do mercado de luxo que se apresenta, agora, fracionado em infinitos nichos. Eis porque, em vez de expandir e popularizar as grandes marcas européias, é preciso crescer agregando a miríade de marcas diversificadas e de expressão meramente local.

A questão que a novidade coloca é se os grupos que estão adquirindo as grifes brasileiras possuem competência para se estabelecer nesse segmento específico do mercado. Dirigir um conjunto de grifes não é o mesmo que dirigir uma rede de postos de gasolina. É um mercado sensível, uma atividade complexa (tantas coleções por ano!) e, no caso do Brasil, na contramão das estações européias.

Quando se vende uma coleção na Europa, as confecções têm seis meses para fabricar e entregar a mercadoria; no Brasil, esse tempo não existe. Boa parte das encomendas precisa estar em vias de fabricação (tecido comprado, modelos desenhados etc...) quando a coleção aparece na São Paulo Fashion Week. O risco é da confecção, e bem maior do que o que passaria uma grife européia.

Nada indica que o grupo I’M tenha esta expertise. Talvez por isso a Ellus, ao ser adquirida pela InBrands, concordou em ceder apenas 49% do capital aos novos donos. Não há convicção plena no mercado de que o caminho que a I”M vem abrindo seja seguro.

É inegável que nos últimos 30 anos formou-se não um “gosto nacional”, mas um estilo de consumo nacional do luxo do qual participam também as coisas locais. Vide Daslu... A conjuntura do capitalismo internacional faz desses mercados periféricos uma “oportunidade”, na qual, associados, grifes e fundos de capital pertendem se dar bem. Assim gira o mundinho da moda, em torno do montão de capital.

Mas a dinâmica toda da moda não se resume à dinâmica do capital na fase de concentração. Ela transborda as rígidas fronteiras do dinheiro, ganha as ruas, é copiada, adaptada, transformada e, inclusive, “criada” de modo original, de tal sorte que tudo que é sólido se descostura e se refaz. Daslu vira Daspu, e assim por diante. Outros proto-empresários, como aqueles sonhadores de 30 anos atrás, estão incessantemente surgindo nas garagens mais obscuras das grandes metrópoles. Algumas vingarão, e virão à luz para, talvez, colherem também o seu momento I’M...


Publicado em 23/2/2008

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e "Os Federais da Cultura", entre outros livros. Acaba de publicar "Estrelas no Céu da Boca - Escritos Sobre Culinária e Gastronomia" (ed. Senac).

 
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