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NEGÓCIOS

O mundinho da moda e o montão da grana
Por Carlos Alberto Dória

Aquisição de grifes por fundos privados de capital indica a passagem do artesanato ao business

Incrível, mas o futuro chegou. Muita gente do mundo da moda trabalhou duro a vida toda, sonhando que, um dia, bateria à porta um comprador para o seu negócio.

As confecções “de grife” brasileiras fizeram-se na raça, como empreendimentos clássicos, schumpeterianos, imaginando um dia ingressar no mundo do grande capital. Voltadas para o público de elite, assimilaram os valores capitalistas desta elite: “Small is not beautiful”...

Também nada parecido com o nacionalismo que movia a moda de Dener que, claro, acabará sendo convertido em “pai fundador”, na medida em que é preciso reinventar a história quando se chega ao seu fim. A era do pioneirismo acabou.

Portanto, nada mais natural que Renato Kerlakian, tendo vendido sua Zoomp para o grupo I’M, ostentasse na São Paulo Fashion Week um colete preto com a logomarca da holding, como um novo piloto da escuderia. Segundo um jornal, novos estilistas brincavam que iriam à São Paulo Fashion Week com a camiseta: “Eu também quero ser comprado pela I’M”.

Como pontificou no mesmo evento a estilista Vivienne Westwood, lembrando uma Margaret Thacher da moda, “é hipócrita que as pessoas ricas pareçam (ou se vistam) como pobres”.

Há uma torcida muito grande na mídia pelo estilismo nacional, pelas grifes que chegam ao podium da São Paulo Fashion Week –talvez só equivalente à torcida pelo cinema nacional e sua esperada premiação pelo Oscar. Amamos tanto a nossa camisa, a nossa calça velha e desbotada, nosso filme cult, que estamos dispostos a conceder aos modernos movimentos do capital um caráter redentor.

É claro que todos apreciam o diálogo das linguagens estilísticas da indústria da vestimenta com a cultura de um povo ou de uma época. Idealmente gostaríamos até que houvesse mais modelos negros, refletindo o melting pot brasileiro (e estilistas negros? Bem, Wilson Ranieri, considerado um gênio, chegou lá...). Mas nunca se pode esquecer, como diz Marc Jacobs, o mago da Louis Vuitton, que as artes plásticas, que tanto aprecia e coleciona, estão infinitos patamares acima da vulgada em que se convertem, ao serem citadas em peças de vestir. Negócio é negócio, arte é outra coisa. Inclusão social, uma terceira ainda.

Ora, assim como a qualidade da indústria do cinema pouco depende da genialidade dos nossos melhores diretores, pouco da indústria das confecções depende do estilo que ostentam na passarela. Sua dinâmica é dada pela economia, não só pelo gosto ou preferências dos estilistas.

Por trás do glamour, são quase todas pequenas e médias empresas, surgidas nos anos 1970 e 1980, com feição nítida de empresas familiares cuja marca distintiva é a fusão, na mesma pessoa, do estilista e do administrador. Já agora, 20 anos depois, pequenos herdeiros são improvisados em estilistas, indicando um caminho que parece inexorável. Outros, cursaram administração de empresas, mostrando a maleabilidade do empreendimento familiar para durar através de gerações.

Mas é uma aberração. É como se o escritor precisasse cuidar da impressão do livro, ou o compositor da prensagem e distribuição dos discos; um bom escritor ou compositor preparasse o seu filho para seguir no oficio... Some-se a isso que, por trás de uma grife, existe um exército de pequenas oficinas de corte e costura para as quais são terceirizadas muitas das operações industriais, como se vivêssemos ainda os primórdios da Revolução Industrial, quando a produção era paga “por peça”.

Em geral, a modernização recente limitou-se à reunião dessa produção dispersa em galpões, em linhas de produção de tipo “fordista”, mas com um certo ar anacrônico, no momento em que, no mundo todo, o fordismo acabou e a produção competitiva é feita em redes que abarcam vários países, como a China, a Coréia, a Índia, partindo-se de matérias-primas de alta tecnologia, originadas no Japão ou na Europa.

De fato, em poucas situações se viu a separação exitosa entre o estilismo e o confeccionismo; entre a direção de estilo e a direção industrial, até mesmo porque a acumulação virtuosa da marca em geral se dá em torno da pessoa que se ocupa do estilo, e não da atividade industrial. Chanel é Chanel, assim como cada estilista é um proto-Chanel. A marca tem cara, não é uma coisa abstrata, e sua “cara” parece perpetuar o artesanato como forma.

Este intangível que é a marca precisa ter por trás de si uma gestão condizente com o momento da indústria. Processos mais racionais, economia de escala, trabalho em rede, complementaridade entre os elos da produção e, no caso do Brasil, ganhar o máximo de distância possível do mercado informal, o que –é bom que se diga– aumenta custos e preços finais de produtos.

Para ingressar no mundo do trança-trança internacional é essencial, mas não basta, fazer um estilismo valorizado pelo público nacional. É preciso também, no jargão dos economistas e administradores, “profissionalismo”, isto é, reconhecer que o capitalismo penetra nos poros mais profundos do tecido produtivo, impondo sua racionalidade para quem quer continuar jogando.

Por isso os estilistas se apressam a esclarecer que, no tocante à liberdade de criação, “nada mudará” com a mudança. É pagar para ver; e eles, em vez de pagar, receberam para ver como se dá o salto do artesanato para a indústria.

Esse universo empresarial gosta de olhar para o fenômeno Louis Vuitton e vê-lo como o seu espelho. O grupo Louis Vuitton Moët Hennessy (LVMH), um conglomerado de marcas comerciais como Moët Chandon, Givenchy, Loewe, TAG Heuer e, bem recentemente, a fábrica inglesa de automóveis Aston Martin, adquirida por 800 milhões de euros, reúne cerca de 30 empresas, com um capital global estimado em 20,2 bilhões de euros.

O conglomerado se formou a partir dos anos 1990, e a única coisa que as suas empresas têm em comum é estarem elas inteiramente voltadas para o mercado do luxo. Assim, é interessante notar que, enquanto nos ocupamos no Brasil com a questão das confecções, o grupo LVMH mexe seus pauzinhos desde 2005 na Argentina para expandir e dominar o mercado das vodkas premium. As vodkas, que por décadas se vangloriaram de “não deixar bafo”, agora serão substituídas por aquelas que deixam bafo perfumado...

Destilados, vinhos, couros, perfumes, cosméticos, relógios, jóias, varejo, dutty-free, além da revista “Connaissance des Arts’’, compõem o portfólio do grupo Louis Vuitton. Todos os produtos que possuem a propriedade mágica de incluir os seus consumidores, ao menos simbolicamente, no grupo “exclusivo” dos ricos.

É essa força moderna que move negócios como esses que se esboçam no Brasil. Se, antes, o desejo difuso era ser francês ou europeu, hoje é ser ou parecer rico internacionalizado. Haja vista a freqüência com que as grifes internacionais são alvo da pirataria.

Tudo parece voltado para resolver o problema da criação de uma comunidade de sentido de uma classe que, com a internacionalização da economia, se desenraizou. Marcas e estilos de vida internacionalizados são uma nova espécie de “você-sabe-com-quem-está-falando?”. É possível botar banca em qualquer parte do mundo que, do alto de um Gucci, todo mundo saberá que está falando com alguém de grana.

Por essa mesma razão, montar grupos de grifes, comprar empresas estruturadas em torno de marcas de luxo, tornou-se um comércio mundial e não se trata apenas do “momento brasileiro”. Massimo Carraro, CEO do grupo joalheiro Morellato & Sector, acaba de fechar acordo com o estilista Roberto Cavalli. Como diz Carraro, “o foco é desenvolver produtos de qualidade atrelados a nomes fortes”. Sua empresa, que possui uma rede de 360 lojas no mundo, cresceu 25% em 2007. Em 2009 abrirá uma loja no Brasil.

Na bolsa de Londres, 73% dos analistas acham que a marca corporativa responde por 80% do valor de um grande número de companhias. Esse valor se define pelo custo de inversão (marketing e capital investido), a fatia de mercado que ocupa (condições comerciais, canais de distribuição, estratégia de produção e volume de vendas), a posição nesse mercado, medida pela “fortaleza” da marca, a proteção de que dispõe, suas aplicações, os conflitos que a envolvem, as franquias, os licenciamentos.

Nesse mundo simbólico, é a marca, o marketing, que “agrega valor”, e o estilo, entendido como características únicas, faz parte desse universo moderno que se expressa em moeda, de sorte que o “intangível” é sonante.

A última década assistiu a uma explosão das grifes de alto luxo. O faturamento de marcas como Prada, Armani e Versace fixou-se, durante vários anos, em torno de US$ 1 bilhão. Mas, como em todo mercado, também há crises, concentração de empresas, fusões, supressão de superposições, constante revisão estratégica, enfim. E o Brasil passou a entrar nesses cálculos.

O negócio funciona mais ou menos assim: um grupo investidor arranja dinheiro entre bancos, capitalistas individuais, fundos de “private equity”, a partir de um plano de negócios que pareça viável, e sai comprando empresas de um setor qualquer. Depois que reúne uma certa quantidade, com um valor expressivo, abre o capital da empresa e, através da venda de ações na Bolsa de Valores, “alavanca” mais dinheiro. Se tinha x, passa a ter x+y sob seu controle.

Essa valorização é obtida pela mudança de mãos do capital inicial, pela sua “reformatação”, e pode atingir, em muitos casos, mais de 500%. No Brasil, a I’M (grupo financeiro HLDC) que comprou a Zoomp e a Herchovitch, pretende adquirir uma dúzia de marcas, investindo cerca de R$ 1 bilhão, para, em seguida, abrir o capital.

Outras holdings, como a InBrands, de gente vinda do Banco Pontual, ou o grupo apoiado no fundo Tarpon All Equities, ensaiam o mesmo caminho. É a “corrida” pelas grifes brasileiras, ou o momento em que, talvez, alcancem o seu maior preço de mercado.

É claro, a Bolsa de Valores exige “governança corporativa”, transparência, respeito ao meio ambiente etc. Tudo isso custa, mas é o preço da “alavancagem”. Na verdade, o que esse serviço adiciona é escala de produção e comercialização e, também, um estilo de gestão ao gosto do tal “mercado”, permitindo aos empresários tradicionais –aqueles que deram duro e sobreviveram até este capítulo da novela- irem para casa com um bom dinheiro no bolso ou ficarem fazendo “apenas” aquilo que sempre quiseram fazer: estilismo.

Meios de comunicação, universidades, mercado imobiliário, indústrias de alimentação, indústria farmacêutica, grifes de luxo, editoras, gráficas, doses de vodka, nada escapa a este movimento concentracionista do capital e, como dizia um irônico Marx, para o capitalista “é indiferente ter uma fábrica de ensino ou uma fábrica de salsichas”.

Mas, por que, agora, querem adquirir e concentrar as confecções brasileiras –as “grifes”?

Naturalmente, os estilistas acham que são muito bons, padrão internacional, e, finalmente, o mundo teve que se curvar diante deles. Vender-se é ser reconhecido. Comprar é reconhecer. Mas essa é uma explicação para auto-consumo, embora não seja fácil descartá-la. O que de fato conta é um conjunto de circunstâncias que constituem o ambiente do capital.

Em primeiro lugar, o reconhecimento de que o Brasil está produzindo mais ricos do que antes. Segundo cálculos sobre a distribuição da renda no país, os milionários eram, em 2006, 130 mil. Hoje são 190 mil, ou seja, um ano produziu 60 mil milionários. Gente que controla quase US$ 700 bilhões, ou quase metade do PIB brasileiro.

Uma estrutura de apropriação de riqueza extremamente concentrada, sem mecanismos eficazes de redistribuição, é o que cospe milionários na outra ponta. Ela se move à custa de juros altos, bem remunerando a poupança mundial, e, claro, uma extrema liquidez internacional. Em síntese, sobra dinheiro no Brasil. Ano passado mais de US$ 40 bilhões entraram na Bovespa. Dinheiro ávido por negócios.

O mercado brasileiro de luxo movimenta cerca de US$ 14 bilhões. No último ano, ele cresceu 17%. Portanto, reestruturar o setor de grifes é um negócio atrativo para os fundos de capital, onde os private banks que administram fortunas têm um rendimento de 55%, contra os 29% que conseguem nos Estados Unidos. Comprar confecções, vender helicópteros, é tudo exatamente a mesma coisa -“negócios da China” aqui mesmo.

Um risco confortável. A Bovespa foi a bolsa que maior rentabilidade ofereceu. Isso fica ainda mais patente quando se constata que os fundos de renda fixa, que já reuniram 96,8% do conjunto de aplicações financeiras 15 anos atrás, hoje estão reduzidos a modestos 30%. Juntar cacife para entrar no jogo da Bovespa é a estratégia dos fundos que se aproximam das grifes brasileiras.

 
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