CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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livros
LANÇAMENTO

Família em desalinho
Por Heidi Strecker

“Antonio’’, novo romance de Beatriz Bracher, faz desconstrução corrosiva da classe média alta paulista

À primeira vista, “Antonio”, de Beatriz Bracher (Ed. 34, 184 págs.), é um romance discreto, a começar pelo título. A história é singela. Benjamin ouve relatos sobre a vida de seu pai e de sua mãe, às vésperas de ter o primeiro filho, Antonio. (“Vai se chamar Antonio? Eu gosto, é sério e aberto.”)

Para fazer esses relatos revezam-se três narradores: Raul, Isabel e Haroldo. A estrutura tem certo engenho, porque forma um livro de narrativas curtas, de duas ou três páginas, que dão muita liberdade ao leitor: podem ser lidas em seqüência ou não, saltadas, aquilo de sempre.

A despretensão é apenas aparente. Esses relatos, na verdade, reconstituem uma pequena epopéia –a vida de uma família paulistana de classe média alta desde a década de 1950 até hoje.

A história vem em linha mais ou menos reta: o patriarca, o editor e jornalista Xavier Kremz, a matriarca, a professora universitária Isabel, seus quatro filhos e netos.

A linearidade é quebrada pela intervenção de dois –como dizer?– bastardos: o primeiro Benjamin, filho que Xavier teve antes do casamento, e o segundo Benjamin, filho de Teodoro, o caçula hippie e desgarrado do clã dos Kremz. Ambos são filhos da mesma mãe, Elenir, cuja identidade permanece misteriosa.

Trata-se de um relato minucioso e bem feito, com personagens vigorosos, situações reveladoras e um realismo refinado, que lembra o cinema. O casarão da família ancora a saga de “Antonio”:

“Eles moravam no Butantã, em uma casa que tinha sido do pai de Xavier, do teu bisavô médico. Tinha jardins com árvores, salas altas e luz do sol. Os móveis que quebravam não eram consertados, sumiam, o vazio aumentava e o interior da casa cresceu com os anos. Construíamos fazendas e cidades no chão de tacos e elas duravam meses sem ninguém reclamar o lugar, alguns tacos soltavam-se e serviam de muros e pontes, transformávamos seus vãos de piche e serragem em despenhadeiros. Depois veio o tempo de montar monstros de plástico e aviõezinhos de madeira, do cheiro de cola e tinta. O campo de futebol de botão deve ter ficado lá até a demolição da casa. Mais tarde apareceram uns almofadões em que ficávamos deitados horas conversando, tocando violão, vendo televisão sem som e comendo casquinha de pão sueco com requeijão”.

A narradora retrata, com minúcia e não sem certa dose de corrosão, as convicções de classe, os vieses ideológicos e também sua desconstrução, passo a passo:

“Na casa do Teo todos tinham opinião sobre tudo, às vezes a discussão acabava em gritaria, outras, em consultas a enciclopédias, dicionários e livros e, muitas vezes, com alguma conclusão inusitada do Xavier que ninguém entendia muito, mas já estávamos cansados demais para prosseguir. Tuas tias Flora e Leonor eram as meninas mais modernas que eu conhecia. Acho que foi a primeira casa onde namorados e namoradas passavam a noite juntos e a gente podia fumar o que fosse numa boa. Havia a violência das idéias, uma obrigação de estar aberto ao mundo, de submeter tudo à análise, à curiosidade e ao gosto. Com toda essa carga de cultura e liberdade, eu gostava de ser apenas um agregado e ter minha casa fechada e mobiliada para onde ir”.

Apesar de dissimulada em diferentes vozes, a narradora desenrola um novelo único, envolvente e progressivo, em que tudo acaba ou em desastre ou em nada.

Na verdade, a história poderia prescindir dos diferentes narradores para ser contada. Também não precisaria ser projetada na segunda pessoa. Esses recursos, no entanto, dão uma sensação de obliqüidade, isenção e polifonia ao leitor.

Que esperança! O que escondem é um pulso firme e compromissado.

O ponto forte do livro da paulista Beatriz Bracher é justamente a reconstituição excelente de uma certa fatia da sociedade brasileira, que a autora tem o olho fino para retratar.

Publicado em 23/2/2008

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Heidi Strecker

É crítica literária, autora de "Análise de Texto" (ed. Atual) e "Cinema: Emoções em Movimento" (ed. Melhoramentos).



 
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