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Photoshop

A bunda de Simone de Beauvoir
Por Paula Sibilia

Uma foto da escritora feminista nua, com alguns traços retocados digitalmente, causa polêmica em Paris

A despeito de sua esmagadora insistência em tecnicolor, o romance entre o presidente Nicolas Sarkozy e a cantora Carla Bruni não é o tema exclusivo das conversas e das agendas midiáticas neste inverno francês. Outro pequeno escândalo ameaça lhe fazer alguma sombra: nas comemorações pelos cem anos do nascimento de Simone de Beauvoir, verdadeiro totem da intelectualidade local, a bunda dessa escritora também acende calorosas discussões.

O furacão se desatou com a primeira edição de 2008 da revista "Le Nouvel Observateur". O tradicional semanário da “esquerda bem-pensante” estampou em sua capa uma imagem que alguns celebraram pela ousadia e muitos condenaram por sua canalhice. Sob uma manchete que gritava seu nome em vermelho e já errava um pouco no tom ao qualificá-la como "A escandalosa", aparecia uma foto da autora que em 1949 fundou um novo gênero com seu ensaio "O Segundo Sexo". Aqui, porém, a filósofa que morreu há mais de duas décadas (em 1986) mostra um de seus ângulos menos conhecidos: de costas, nua, arrumando o cabelo no espelho após sair da banheira.

O autor desse instantâneo atípico é o norte-americano Art Shay, amigo do escritor Nelson Algren, um dos amantes mais famosos da eterna companheira de Jean-Paul Sartre. Sua história remonta à longínqua Chicago dos anos 50. “Em sentido estrito, sim, esta fotografia foi ‘roubada’”, confessa agora o autor do clique, convocado para somar sua voz aos debates despertados pela súbita fama de sua velha obra, cujos negativos só foram resgatados após uma inundação em sua casa no Illinois quando a retratada já tinha morrido. Mas Shay esclarece que a imagem teria sido obtida de maneira ilícita apenas “no sentido em que as feministas o entendem”.

Era 1952, e Simone tinha 44 anos de idade. Como o apartamento alugado pelo boêmio Algren não possuía nem sequer um chuveiro, o jovem fotógrafo foi o encarregado de emprestar um lugar onde a convidada pudesse tomar um banho. Na época, ele trabalhava como estagiário na revista "Life" e não desgrudava de sua fiel câmera Leica; ainda mais naquela ocasião, pois o romancista tinha lhe advertido que sua amante francesa raramente fechava a porta do banheiro. Parece que ela ouviu os cliques, virou-se e chegou a exclamar, com ar despreocupado e até mesmo achando graça: “Garoto levado!”. Mas não fechou a porta, de acordo com o relato do aludido rapaz, e nem pediu para parar ou coisa parecida.

È claro que nenhum dos dois poderia ter imaginado, nem de longe, o bafafá que 66 anos mais tarde envolveria essas imagens furtadas desse modo quase inocente. Na época, elas não tinham “valor de mercado”, esclarece seu perpetrador, que portanto logo as esquecera e até chegou a acreditá-las perdidas durante cinco décadas.

Agora, o velho fotógrafo só se arrepende de uma coisa: seu amigo continuou a convidá-lo para passar os finais de semana em sua casa da praia, onde Madame costumava visitá-lo ao longo dos 20 anos de seu relacionamento. “Talvez teria podido fotografar os dois juntos, nus”, imagina com certa nostalgia o único sobrevivente dos três. Por isso, considerando o insólito valor que seus modestos cliques de folga atingiram neste novo século, e parafraseando uma cantora amiga de sua modelo involuntária, o artista americano debocha em francês: “Oui, je regrette” (sim, eu lamento).

Em seu favor, porém, avisa que não é nenhum improvisado. Adverte, inclusive, que seu nome cintila no âmbito do fotojornalismo por ter sido “o primeiro paparazzo a fotografar a máfia”. E mais: diz que sua filha advogada é “uma ardente feminista”, co-autora de um livro intitulado " Guia dos Direitos Legais para as Mulheres". Mesmo com esse digno currículo em seu haver, a primogênita de Art Shay não pensa que seu pai deva se desculpar por nada -e ele tampouco, é claro.

A verdade é que este fotógrafo de 86 anos comemora um sucesso considerável: sua obra reluz em dezenas de livros e museus. Entre esse vasto acervo, orgulha-se da imagem escolhida pelo semanário parisiense, que seria “uma das favoritas dos colecionadores”. Shay termina seu depoimento à imprensa francesa convidando para a sua retrospectiva, que será inaugurada daqui a três meses em uma galeria de Paris -e incluirá, "bien sûr", o mais célebre de seus retratos.

Mas qual é o problema, então? Por que tanto alvoroço? A foto já era conhecida, vêm sendo exposta em diversos meios desde o ano 2000. Além disso, a imagem é bonita pelo enquadramento, pela luminosidade de seus tons cinza, pelo clima de época que sugere e pela espontaneidade na captura do instante. E mostra uma Simone de Beauvoir inusitadamente bela, corpórea, viva, sensual. Contudo, há algo neste episódio que gera um mal-estar difícil de silenciar.

Tanto em vida como após a morte de ambos, o casal que encarna o existencialismo já freqüentou as páginas desta revista: não apenas com seus próprios artigos, entrevistas e manifestos, mas também nas profusas citações motivadas pelas contendas das últimas décadas. Entretanto, pelo menos até hoje, sempre o fizeram pudicamente vestidos, e a bunda de Sartre jamais foi estampada na capa.

Mesmo neste confuso século XXI, no qual os costumes e os moralismos enrijecessem sem evitar (e nem contradizer) uma expansão dos códigos pornográficos, ainda é inconcebível que isso venha a acontecer algum dia. Por mais bonitas que fossem a foto e a bunda do filósofo em questão, dificilmente iriam ilustrar a capa desta publicação -ou mesmo de qualquer outra. Isso é válido para Jean-Paul Sartre, mas também para qualquer outro escritor ou pensador que conjugue seu nome em masculino.

Essa constatação evidencia, aos gritos, uma verdade que teima em ser ignorada: as lutas feministas pela igualdade não ficaram tão obsoletas como pode parecer, e a obra de Simone de Beauvoir talvez não deveria estar tão fora de moda como insinua o vulgar recurso à sua bunda nas comemorações do seu centenário. No canto superior direito da famigerada capa de janeiro, inclusive, o rosto de uma Benazir Bhutto muito bem vestida ilustra outra manchete de máxima atualidade: "Paquistão: o país de todos os perigos".

“Eu posso entender a utilização do PhotoShop para corrigir a forma das pernas”, escreveu Art Shay no site da revista francesa. O fotógrafo reconhecia, assim, “a necessidade de retocar as imagens para publicá-las em uma capa”, embora não deixasse de frisar que “isso nada acrescenta à graça do original, muito pelo contrário”.

Muitos concordam: a foto era mais bonita antes dos retoques. Porém, a intervenção digital não teria nada de extraordinário; hoje é muito habitual, faz parte das regras básicas da mídia e decorre, provavelmente, da influência publicitária que permeia todas as imagens e todos os discursos. Além, é claro, do tácito dever de adaptar os corpos femininos aos estritos padrões de beleza que vigoram na atualidade: afinando as silhuetas, suavizando os contornos, alisando as rugosidades e polindo todas as “impurezas”.

O bisturi digital é colocado ao serviço de um pudor "clean" e "cool", que parece temer o realismo da matéria sem negar suas filiações com as estéticas edulcoradas (lisas e hipócritas) da publicidade e da pornografia.

Eis alguns dos procedimentos aos quais a foto foi submetida, de acordo com um especialista: aclaramento da parte superior do corpo, sobretudo dos braços, para torná-los “mais fluidos”.

Além disso, foram eliminadas “as rugas nas costas e umas manchas que parecem ser sardas”. Já o alisamento da textura e a iluminação da parte inferior do corpo não teriam permitido apenas torná-lo mais visível, mas também “mitigar um pouco a abundância dos quadris, das coxas e das pernas”. Ademais, a borracha digital ajudou a aprimorar o visual do banheiro carente de luxos, acrescentando brilho às paredes e eliminando detalhes pouco nobres como o vaso sanitário e o rolo de papel higiênico.

“Se a mesma fotografia não tivesse sido retocada, dir-se-ia que é degradante para Simone de Beauvoir”, desafia uma das vozes do debate. “Mais do que o retoque, é a impudicícia da foto o que choca”, diz outro, remetendo ao fato de o clique não ter sido consentido, e muito menos a sua publicação. O que mais se questionou, porém, foi a tática miserável de mostrar o traseiro de uma filósofa feminista para avivar as discussões a respeito da sua obra -nem que seja de forma marcadamente tangencial, como está sendo o caso.

Cada época tem suas próprias misérias, e provavelmente também tenha os debates que merece. Alguns lembram, por exemplo, que três anos atrás, nas comemorações do centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre, foi ele quem sofreu as censuras do PhotoShop. É claro que, neste caso, os imperativos do apagamento não visaram os eventuais relevos pouco harmoniosos do corpo nu do filósofo, porém outro atributo igualmente perturbador para a moral contemporânea: seu cigarro.

A fim de promover uma exposição dedicada ao escritor, a Biblioteca Nacional de Paris ornou seu prédio e o catálogo da mostra com uma bela foto de 1946, na qual Sartre aparecia fumando -como sempre, aliás. Mas os programadores visuais não resistiram, e resolveram aplicar as boas lições do “sanitariamente correto” e da atmosfera higienista dos tempos pós-modernos, eliminando o cigarro e deslanchando as polêmicas de rigor.

Ainda sobre o clima de época e a sutil tarefa de revisionismo histórico que tecem as mídias, um leitor dizia a respeito do artigo do "Nouvel Observateur" que “não ensina nada a quem já conhece Simone de Beauvoir; e para aqueles que não a conhecem, ela fica reduzida a uma sorte de Paris Hilton dos anos 50”. Em definitiva, tanto o nu da capa como a opção de focalizar “revelações escandalosas” sobre a vida da escritora na hora de homenageá-la, em vez de sublinhar sua obra e suas ações políticas, foi visto como uma estratégia de marketing à qual não faltaram os típicos ingredientes patriarcais.

Pois é impossível não fazer a referência: esta senhora cuja nudez conseguiu se destacar nas bancas de jornais saturadas de corpos femininos em exposição e à venda, é tida como uma relíquia do século XX, uma espécie de fóssil do feminismo em sua época de glória. Ainda hoje, tanto sua extensa obra escrita como a agitada militância que marcaram sua vida, fazem parte de qualquer história dos combates pela “liberação da mulher”.

Se na década de 1940 ela bramava contra o mandato da maternidade como uma forma sinistra de “subordinação à espécie”, o que teria pensado da exibição de sua própria bunda retocada nos palcos midiáticos do terceiro milênio?

Na contramão das críticas, uma jornalista canadense celebrava a eleição da imagem como “uma mistura das vaporosas ninfas pré-púberes de David Hamilton e as recentes publicidades da Dove”, aliando um efeito esfumaçado ao “realismo sem PhotoShop”. Mesmo se logo se soube que essa falta de truques digitais era apenas ilusória, é possível retomar o fio da questão: porque não mostrar o corpo (belo e real) de uma mulher que consagrou boa parte de sua obra e sua vida a libertar a feminilidade de todas suas amarras?

A inesperada voluptuosidade da foto teria colaborado nessa pugna histórica, soprando uma brisa cálida na imagem que consagrou Madame de Beauvoir como uma intelectual fria e áspera, pura inteligência incorpórea e severidade ideológica encasquetada em um turbante. O argumento parece válido, especialmente no meio do circo-Sarko que concentra as atenções da irradiação midiática e não deixa muito espaço para outros rebuliços.

A comparação pode ser frutífera, pois a ex-modelo com a qual o presidente francês não cessa de se mostrar também é bela e quase quarentona, e a imprensa tem publicado várias imagens de seu corpo desprovido de roupas. Contudo, há pelo menos uma diferença importante: todas essas fotos foram consentidas, claramente posadas e orquestradas, e muito, muito bem pagas por empresas como Guess, Armani e Vogue.

Eis uma das arestas mais instigantes do caso, pois é claro que todas essas fotografias também foram convenientemente retocadas pelos melhores especialistas do ramo, antes de serem divulgadas em capas de revistas e vitrines afins.

A bunda de Carla Bruni é uma de suas principais e mais reconhecidas virtudes, e como tal já foi fartamente clicada de diversos ângulos e nas mais variadas posições. Ela própria se ocupou de explorá-la de modo profissional, e tais empreendimentos lhe renderam bons lucros, além da celebridade nas passarelas da moda, nas páginas mais brilhosas dos jornais e nas telas da televisão. Pelo menos, antes de correr o riso de “ter que precisar do PhotoShop” e se dedicar, com idêntico sucesso, ao mercado musical -e, logo depois, aos affaires presidenciais.

 
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