CINEMA
Livro resgata o radical grupo Zanzibar, por Carlos Adriano
1
livros
POESIA

Bomba antimonotonia
Por Fabiano Calixto

Dois livros permitem reavaliar a poesia da contracultura: "Belvedere", de Chacal, e a antologia "Nuvem Cigana"

Em “Nuvem Cigana – Poesia e Delírio no Rio dos Anos 70” (Azougue Editorial, 2007), o editor e poeta Sérgio Cohn contribui com um trabalho de muita competência para a reavaliação da produção poética da chamada contracultura brasileira.

  O livro, com um bom material iconográfico e uma pequena antologia, contém ainda depoimentos dos principais protagonistas do grupo da poesia marginal carioca dos anos 70, uma prosa com poetas, como Chacal, Charles, Ronaldo Santos, Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, entre outros.

Cohn extrai a atmosfera daquele período em que jovens que amavam a vida, a poesia, os Beatles e Bob Dylan, em seu QG no o píer de Ipanema, oásis antiditadura, nas famosas dunas da Gal (por onde passavam as pessoas de “língua alada”), armavam seu plano de resistência poética, pois, para eles, a única e verdadeira arma contra a ditadura era a poesia, essa bomba antimonotonia.

Marcada pela brutalidade do período militar e pela loucura do período pós-hippie, essa geração deu uma forte contribuição ao panorama da cultura brasileira do período e também do momento seguinte -como bem observa o organizador.

Além da invenção da poesia moderna falada no Brasil (na expressão feliz de Chacal: “poesia propriamente dita”), influenciou, na música popular, os grupos de rock dos anos 80, para onde alguns migraram como letristas, e, no teatro de besteirol, com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trambone.

Tentou-se, por um longo período, desabonar a poesia desta geração, acusando-a, como se acusa até hoje Oswald de Andrade, de brincalhona e sem seriedade.

Na verdade, creio que essa poesia era realmente lúdica e divertida. E não tinha mesmo a seriedade, que vestia muito melhor os generais e a repressão do que uma juventude sufocada e repleta de sonhos -não de um mundo ideal, mas de um mundo melhor. A poesia marginal foi entendida pelo avesso errado. Ou não foi entendida.

Mas o que realmente importa é a reavaliação por que passa hoje. É poder notar como ela é feita de muitas boas idéias poéticas, de irreverência, de provocação, de jogo, além de manifestar com tanto vigor a “doença da época", como diria Chacal: a doença de querer, mais que escrever, viver a poesia.


O fauno de calça Lee

“aqui/ o amanhecer/ vai me encontrar/ agora”, diz um dos poemas de “A Vida É Curta Pra Ser Pequena”, um dos livros contidos neste “Belvedere”, reunião da poesia completa de Chacal, escrita entre 1971 e 2007 (ed. CosacNaify/ 7Letras). O livro é uma boa oportunidade para o leitor ir ao encontro do amanhecer sempre novo desse poeta ligado à geração da chamada poesia marginal, que proporcionou outras cores para a literatura brasileira naquele momento nublado da ditadura militar e dotou a poesia de uma liberdade incrível.

São 13 livros, de “Muito Prazer, Ricardo” a “Belvedere”, em que se nota que a poesia de Chacal, bem feita, livre e leve, também chega à beira dos 40 anos com um gosto extremamente jovial.

Acertadamente o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima chama a atenção para a sinceridade contida na trajetória do poeta. Entendo essa sinceridade como um modo de perceber o mundo sem colocá-lo dentro de perspectivas pasteurizadas, falsas, mas que, ao contrário, mantém um caráter de cumplicidade entre autor, obra e leitor.

Uma sinceridade que há mais de três décadas vem assobiando, chupando cana e fazendo poesia. O que, sem dúvida nenhuma, é muito difícil manter sem cair numa espécie de fraqueza, num autofuzilamento.

Os poemas de Chacal também são divertidos. E a diversão de seus poemas está no modo como ele opera a linguagem, na sua imaginação melodiosa e, em muitos momentos, nonsense, como no hilário “Modificado”: “eu hoje acordei modificado/ nasceu um rabo no meu suvaco/ não sei se foi o cu que eu comi ontem/ tava escuro e eu tava com fome (...)” .

A herança oswaldiana é declarada e aberta. Sem crise, ou angústia, como preferem alguns. Porém, esse diálogo é aberto, jamais fechado, o que, se assim fosse, o tornaria um epígono, coisa que passa longe de ser verdade. Tanto é que a alegria da composição que havia na obra de Oswald aparece aqui, só que bronzeada, com camisa florida e chinelas de dedo:

“nasci pra ser calígrafo mas de tanto dar topada me transformei num topógrafo até topar com o Topogígio minha sorte então mudou penetrei a poesia conheci o que é o amor hoje sou feliz pra tutuca”

A experimentação de Chacal tem partes com a vida, não só com a poesia. Isso é um elemento importante para a longevidade de sua obra. Um “antropofágico pagão”, “fauno de calça lee”, “orfeu fudido", se apaixonando e se embriagando ao som de Neil Sedaka para apagar a solidão de poeta na idade do rock, mas ainda em busca da palavra gaiata e gostosa, sempre no limite entre a loucura e a razão e, no sufoco, como dizem os poemas de seu melhor livro, “América”, de 1975. A experimentação que ultrapassa o limite das páginas do livro e cai de corpo e alma na vida.

É um gesto muito importante recolocar em circulação a obra de Chacal, que não tinha uma obra em grande circulação há décadas. As novas gerações de leitores podem assim desfrutar da visão deste "Belvedere". Uma visão de mundo. Dentro do mundo.


ANTOLOGIA MÍNIMA


CHACAL

Prezado cidadão

colabore com a Lei.
colabore com a Light.
mantenha luz própria.


Poema para ser transfigurado

quem somos
o que queremos
logo logo saberemos

por enquanto
sabemos
que um gesto
uma palavra
podem transformar o mundo

qual deles
qual delas
saberemos já já

essa a missão do artista:
experimentar

por isso somos preciso
por dar nossas vidas
pelo que – ainda não – é
pelo que – quem sabe – será

o que somos
o que queremos
saberemos juntos
já já


RONALDO SANTOS

copacabana
princesinha traída
currada
aída cury despencada num trigésimo andar de alumínio e mármore
estatelada no calçadão gélido destes tempos modernos
sem que uma só mariposa ronde o cadáver de tuas luzes de mercúrio
do teu jeito falso de classe média
de todos os cafajestes
de tua imensa sinceridade

*

um lance de dados jamais abolirá os doidos
um lance de doidos jamais abolirá os dados


CHARLES PEIXOTO

Diário de bagos

quando você se abaixa pra pegar um disco
com seu vestido curtinho
delicioso
aparece a calcinha no rego moreno da bunda
curto muito
meu olhar derrete de prazer
não há como enganar a evidência
desculpe o volume do lado esquerdo da calça sem cueca
com tesão não se trinca
antes todos entendessem e se dedicassem de corpo e
cama

obs.: meu pau esquecidamente duro
cai no esquecimento


Drama familiar

mais um berro histérico
e mato um


BERNARDO VILHENA

Vida bandida

Chutou a cara do cara caído
traiu o melhor amigo
corrente soco-inglês e canivete
o jornal não poupou elogios
sangue & porrada na madrugada
É preciso viver malandro
não dá pra segurar
a cana tá brava a vida tá dura
mas um tiro só não dá pra derrubar
correr com lágrimas nos olhos
não é pra qualquer um
mas o riso corre fácil
quando a grana corre solta
precisa ver os olhos da mina
na subida da barra
aí é só brincadeira
ainda não inventaram dinheiro
que eu não pudesse ganhar


Revanche

eu sei que já faz muito tempo
que a gente volta aos princípios
tentando acertar o passo
usando mil artifícios
mas sempre alguém tenta um salto
e a gente é que paga por isso

fugimos pras grandes cidades
bichos da mato em busca do mito
de uma nova sociedade
escravos de um novo rito
mas se tudo deu errado,
quem é que vai pagar por isso?

a favela é a nova senzala
correntes da velha tribo
e a sala é a nova cela
prisioneiros nas grades do vídeo
e se o sol ainda nasce quadrado
quem é que vai pagar por isso?

o café, um cigarro, um trago,
tudo isso não é vício
são companheiros da solidão,
mas isso só foi no início
hoje em dia somos todos escravos
e quem é que vai pagar por isso

eu não quero mais nenhuma chance
eu não quero mais revanche


GUILHERME MANDARO

que não seja o medo da loucura
que nos obrigue a baixar
a bandeira da imaginação

*

quando a escolhi por companheira
habitava um quarto de hotel
e fazia mágica por correspondência


Publicado em 31/12/2007

.

Fabiano Calixto
É poeta, crítico e tradutor, autor de "Música Possível" (CosacNaify/7 Letras, 2006) e "Sangüínea" (a sair), entre outros.

 



 
1