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Rancière: Nas primeiras páginas de “Peau de Chagrin”, Balzac opõe dois poetas, isto é, dois tipos de poetas. De um lado há Byron, o poeta que traduz em palavras os problemas das almas. De outro lado, há Cuvier, que não tem nada de um “poeta”, segundo a distribuição normal das artes e das ocupações: é um naturalista. Cuvier é, para Balzac, o verdadeiro poeta dos tempos modernos, porque ele procede como os arqueólogos que reconstituem um mundo a partir de algumas ruínas. Ele reconstitui uma raça desaparecida a partir de um osso ou florestas perdidas a partir de marcas fossilizadas na pedra.

A literatura está pendurada nesse deslocamento do conceito do poema que é também uma passagem de um regime de sentido a outro. A linguagem que serve de modelo a partir de agora não é a que traduz em signos linguísticos os pensamentos ou sentimentos. Não é mais aquele que quer expressar, mas aquele que expressa sem saber: a linguagem que é escrita nas pedras como a marca dos acontecimentos, como sua escritura. Essa linguagem se identifica à própria história das coisas escritas diretamento sobre seu corpo.

É isto que o romance com Balzac, Hugo ou Zola quer fazer falar: a história de um modo de vida, público e íntimo, escrito na fachada de uma casa; a história de um destino, de um tipo social, de uma geração, escrita numa roupa; o quadro de uma civilização apresentada por um esgoto ou por uma vitrine de tecidos ou de queijos.

A literatura se constitui explicitamente como esta arqueologia do mobiliário social pelo qual os historiadores, fixados ainda nos grandes acontecimentos e nos grandes personagens, não se interessam. Nesse sentido ela precede a revolução “científica” da história e cria suas condições de possibilidades. Ela tende, ao mesmo tempo, a opor à política que se desenrola sobre o espaço público e aos discursos dos oradores do povo uma viagem às profundezas secretas que sustentam esse espaço. Ela se constitui como uma metapolítica, que decifra os vestígios, os signos e os sintomas que dão testemunho da verdade de uma sociedade melhor que as palavras sonoras e os atos espetaculares da política.


A literatura é, na sua análise, “a vida verdadeira que nos cura dos malentendidos da ficção amorosa bem como da ficção política”. Por quê?

Rancière: Não é uma afirmação pessoal. É uma frase que tenta resumir a “política da literatura”. Num primeiro nível, é um comentário de Proust e de sua afirmação de que a literatura é a “vida realmente vivida”: o trabalho do escritor é apresentado como o inverso do “trabalho” pelo qual o narrador tinha construído seu amor por Albertine.

Na origem desta construção, há uma aparição numa praia, uma mancha móvel impessoal feita pelo grupo de moças. O erro do personagem, o erro que traz o sofrimento, é o de querer individualizar essa mancha, na pessoa do ser amado único. É o erro da individualização. A literatura faz o caminho oposto: ela dissolve as falsas individualidades em benefício de um mundo de singularidades pré-individuais, em benefício de um mundo do impessoal. Ela se apropria dos momentos sensíveis que escapam aos esquemas do hábito e às interpretações do amor. Ela constrói o tecido sensível próprio a acolher e a encadear numa nova vida esses momentos sensíveis puros.

Num segundo nível, isso define a distância entre a política da literatura e a política. Ao longo do século XIX, a literatura desenvolveu-se como uma encenação da realidade que questiona as ilusões da subjetividade, que muda de nível e de escala, recolocando os acontecimentos sensíveis que os produzem no contexto das sensações pré-individuais e da vida coletiva impessoal.

A narrativa de “Madame Bovary” nos mostra como na origem de cada um dos amores de Emma há simplesmente um conjunto de elementos sensíveis impessoais: um turbilhão de poeira, um raio de sol em gotas de água... O erro de Emma é querer transformar esses acontecimentos da sensação em qualidades de seres amantes e amados. A frase de Flaubert dá a esses micro-acontecimentos a qualidade sensível que faz deles causas de alegria e não de sofrimento. Esta distância da ficção amorosa a literatura também tomou em relação à ficção política.

A narrativa de “Os Miseráveis” nos faz passar bruscamente da morte heróica dos combatentes republicanos nas barricadas ao mergulho no esgoto que recolhe a verdade escondida da vida coletiva sob as aparências da sociedade. Tolstói opõe às pretensões dos estrategistas o entrelaçamento da multidão de pequenas ações que constituem a vida de um povo e que decidem também as batalhas.

Mais tarde, Conrad levará os missionários da racionalidade européia civilizadora até o ponto em que seus projetos civilizadores se perdem no murmúrio inquietante de uma natureza ininterpretável e de um universo de superstição impessoal. Há evidentemente dois tipos de cura. Há cura nihilista, a renúncia ao querer-viver ou a declaração do nonsense que impregna fortemente a literatura européia no fim do século XIX. E há a cura positiva, a constituição da cadeia dourada dos momentos sensíveis puros que Proust apresenta como a cura desse nihilismo.


Emma Bovary, por excesso de imaginação, confunde a literatura e a vida real. O que significa confundir a literatura e a vida?

Rancière: Na realidade, isso não quer dizer muita coisa. Só cito essa confusão entre literatura e vida para frisar o equívoco que ela contém. Há, na realidade, duas maneiras de compreender o caso Emma Bovary. Há a acusação tradicional que faz de Emma uma das numerosas vítimas da ilusão fatal que leva a confundir o imaginário e o real. Mas Emma não confunde nada.

Ela sabe bem demais que a vida dos camponeses não tem nada a ver com os idílios campestres dos poetas. Ela não confunde a literatura com a vida por inadvertência. Ela faz algo de muito mais perigoso. Ela exige que a vida seja como a literatura. Ela reclama o direito para uma filha de camponês -o direito para qualquer um- de viver seus ideais e as paixões que os poetas reservam às almas delicadas e bem nascidas. É isso que é escandaloso aos olhos dos contemporâneos, que se assustam com essa “excitação nervosa” que toma conta dos espíritos populares.

O que é comum a Emma Bovary e aos operários emancipados que são seus contemporâneos é romper a separação que deixa aos filhos do povo as sólidas realidades e reserva aos que fizeram estudos e aos que não têm necessidade de ganhar a vida as delicadezas da sensação e da linguagem ou o cuidado de se ocupar dos negócios da comunidade.

Os contemporâneos de Flaubert denunciam a cumplicidade do autor com esta promoção de apetites novos no povo. E é bem verdade, num certo sentido, que a ilusão de Emma não é senão a outra face da operação da literatura que declara que toda vida é agora digna de ser tema de romance. Há cumplicidade entre o romancista e o seu personagem, mas todo o esforço do romancista é de tirar proveito dela, colocando a unidade da vida e do livro apenas no livro, enquanto seu personagem quer pô-la na vida empírica.

Por trás do problema ficcional da relação da heroína com a literatura, há o problema estrutural da relação entre literatura e democracia. Num certo sentido, a literatura é cúmplice dessa apropriação de novas formas de vida por homens e mulheres antes voltados para a vida repetitiva. Mas, ao mesmo tempo, ela tenta romper esse laço, separar a verdade sensível de que ele dá conta das interpretações e ilusões de seus personagens.


Publicado em 18/12/2007

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Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

 
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