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O formato da resenha envelheceu? Há ainda interesse em ler resenhas ou crítica jornalística?

Leda: Eu acho que, assim como o comentário talmúdico, a resenha de obras é infinita. No limite, o problema não é a resenha, mas o resenhista. Uma coisa é o Borges resenhando literatura fantástica para a revista “El Hogar”, onde ele começou, ou o Ricardo Piglia comentando o Borges em “Respiração Artificial”. Sem querer endossar a tese do atraso brasileiro fundamental nem invocar a periferia do capitalismo, outra coisa também são as resenhas do “New York Review of Books”. As que encontramos na “Entrelivros” seguiam este modelo nobre... E veja o que acaba de acontecer: a “Entrelivros” está fechando, eu li isso nos jornais. O problema é a recensão transformada em serviço, a literatura posta no patamar do show de variedades, o que é muito a nossa realidade jornalística atual.


Que perspectivas você vê para a crítica jornalística e para a difusão da literatura (também por meio de blogues, sites, rádio, TV e assim por diante)?

Leda: Eu acho que a internet está se transformando num lugar interessantíssimo para as revistas literárias eletrônicas, que florescem hoje nesse ambiente, muitas vezes com enorme qualidade, gozando do diferencial de uma liberdade total de edição e de palavra e suprindo a falta de uma crítica sofisticada nos jornais.

Pessoalmente, eu aposto mais nessas revistas ou nessa cibercrítica do que na criação literária que se faz agora no meio digital, na assim chamada ciberliteratura ou webarte. Por achar que em literatura e, de maneira geral, em artes, o diferencial não é a máquina, mas o artista, e que os artistas, como sempre, são raros, em qualquer meio. Além disso, me irrita um pouco a aposta que alguns estão fazendo agora nas promessas das novas tecnologias, todo esse papo de poesia no celular, de arte nômade, de interatividade... Porque isso me parece tão velho quanto as fetichizações das máquinas pelas utopias futuristas.

Em seu livro “Arte e Mídia”, Arlindo Machado chama a atenção para o marketing camuflado, quando não aberto, de aparelhos eletrônicos nos eventos da área (!). E Alberto Manguel, esse historiador maravilhoso do livro, diz que, embora possamos pensar que o computador e a rede estão desencadeando uma nova Renascença, fica difícil acreditar que dessa Renascença sairá algum Shakespeare, algum Cervantes... A prova é que a infopoesia mais refinada que temos é a do Augusto de Campos, e a de um seguidor do Augusto como o André Vallias, e a do Alkmar Luiz dos Santos, que é um scholar-poeta de Santa Catarina, todos criadores eruditos e humanistas, que não estão só na mão do computador!


Publicado em 18/12/2007

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Heidi Strecker

É crítica literária, autora de "Análise de Texto" (ed. Atual) e "Cinema: Emoções em Movimento" (ed. Melhoramentos).



 
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