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dossiê
CRÍTICA LITERÁRIA

Mais humor e menos “madeleines”
Por Heidi Strecker

Em “Proust: A Violência Sutil do Riso”, a crítica Leda Tenório da Motta tira o escritor francês da moldura solene e religiosa em que a tradição o enquadrou e examina a força de seu gênio cômico

Marcel Proust é um observador mordaz e espirituoso de sua época, bastante atento à mascarada social do mundo que descreve em sua obra máxima “Em Busca do Tempo Perdido”. Pouca gente, no entanto, se atém a esta característica do escritor francês, de tal modo a crítica proustiana emoldurou a sua obra com aspectos graves e até religiosos.

Em seu novo livro, a crítica e ensaísta literária Leda Tenório da Motta enfrenta a tarefa de desmontar a obra de Proust para apontar os seus momentos cômicos e analisar a função do humor neste escritor central do século XX. “Proust: A Violência Sutil do Riso” (ed. Perspectiva, R$ 46) é resultado de uma tese de doutorado defendida pela crítica na Universidade de Paris VII e orientada pela lingüista Julia Kristeva.

No livro, Leda Tenório, que é também professora da pós-graduação da PUC-SP, comenta as várias gradações do humor presente em “Em Busca do Tempo Perdido” e explica como em Proust judaísmo e homossexualidade estão entrecruzados e se dão a ver nas tramas do riso.

Na entrevista a seguir, ela fala da gênese de sua pesquisa, dos escritos de Freud e Baudelaire sobre o cômico e de como o “clichê da madeleine” imobiliza os intérpretes de Proust. “O que surpreende é que não se tenha desconstruído ainda, devidamente, uma fortuna crítica proustiana que repisa palavras tão religiosas quanto ‘revelação’ (do tempo perdido), ‘eternidade’ (dos instantes) e ‘reconversão’ (à arte)”, diz ela.

“Proust: A Violência Sutil do Riso” representa um marco nos estudos proustianos no Brasil.

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Com o seu livro ficamos conhecendo um Proust cômico, sarcástico, risonho, burlesco, bufo, grotesco, autor de chistes, gracejos, paródias, pastiches e farsas. Qual dessas faces mais surpreende?

Leda Tenório da Motta: O que mais surpreende é que haja tudo isso e mais alguma coisa, em matéria de subgêneros cômicos, num autor que nos acostumamos a pôr no mais alto patamar da gravidade. O que surpreende é que não se tenha desconstruído ainda, devidamente, uma fortuna crítica proustiana que repisa palavras tão religiosas quanto “revelação” (do tempo perdido), “eternidade” (dos instantes) e “reconversão” (à arte), todas devedoras de uma leitura católica à la Mauriac, graças à qual Proust pôde se fazer aceitar, no começo do século XX, para depois cair outra vez sob censura, até a chegada do grupo Tel Quel e da “nouvelle critique”.

No romance proustiano, até pelo que a observação da vida de salão envolve de denúncia da mascarada social, mas não só por isso, porque temos que considerar ainda o atavismo do humor judaico, aí em plena ação, temos todas as variantes, todas as gradações do riso.Vamos do cômico verbal produzido pelos ditos graciosos característicos do “esprit Guermantes” a um cômico de situação ligado às gafes e aos atos falhos dos homossexuais e dos esnobes que se negam e denegam, passando pela melancolia do narrador que se auto-consola de tudo o que vê, tomando a distância sábia do humor, que é o cômico interiorizado.

Na verdade, diante de tudo isso, mais surpreendente ainda é que continuemos a trabalhar com o “clichê da madeleine”, como diz Julia Kristeva, referindo-se àquele episódio do chá com bolinho que faz voltar o passado e à insistência dos comentários proustianos na deflagração da memória afetiva e no milagre da recordação.


Como surgiu a idéia de pesquisar o riso em Proust? O que a levou a enveredar por este viés quase inexplorado nas leituras críticas de Proust?

Leda: Em pleno curso de Julia Kristeva, justamente, na Universidade de Paris VII, nos anos 80. Como freqüentadora de Lacan, Kristeva estava então tirando do limbo em que o haviam posto as sociedades de psicanálise um dos primeiros livros do Freud, este anedotário delicioso e recheado de piadas de judeu que é “Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente”.

Trata-se de um Freud que estava interessando, nessas alturas, à nova crítica francesa, porque a demonstração da operação do inconsciente está aí apoiada numa arte da palavra, que é o que rende a descarga liberadora das tiradas espirituosas, ou o que abre a possibilidade de se dizer tudo o que é proibido, desde que com estilo, através de um trocadilho, de um duplo sentido, de uma alusão...

Muitos lingüistas e semiólogos ligados ao grupo de Kristeva -Émile Benveniste, por exemplo- vinham mostrando como nessa obra de 1905, que se sucede a “A Interpretação dos Sonhos”, Freud tinha abandonado o papel do detetive que interpreta a linguagem cifrada do sonho para fazer o papel do retoricista que examina o lado gracioso do desrecalque. Bom, foi autorizada assim pela nata da nova crítica francesa, não apenas a mexer com a psicanálise do cômico, mas a associar chiste e poesia, que eu ousei perceber que havia um imenso repositório poético de piadas me aguardando em Proust.


O distanciamento, possibilitado tanto pela condição de observador quanto pelo riso, permite a Proust (homossexual e judeu por parte de mãe) atingir em cheio a questão da homofobia e do anti-semitismo. Como isso se dá?

Leda: Em primeiro lugar, isso se dá junto, judaísmo e homossexualidade estão entrecruzados em Proust, um não é pensado sem o outro, até porque ambos são objetos, no mesmo momento, do mesmo veto, a fobia contra o gay e a fobia racial, que cresce à época do caso Dreyfus, alinham tudo.

De resto, a psicanálise mostra que toda fobia, no fundo, é sexual. Fora isso, em Proust, homofobia e anti-semitismo se dão a ver nas tramas do riso, justamente. Porque são mazelas, são manchas que se escondem, e quanto mais se escondem mais se mostram. O fato de se ser judeu, quer dizer, traidor da pátria, e o fato de se ser um invertido sexual -ou “um dos que”, na expressão do narrador proustiano, que distingue brincalhonamente entre “ser” e “ser” (“être” e “en être”)- tornam-se explosivos na cena social dos salões finisseculares, que é o mundo do Proust, e escapam, o tempo todo, como confissões involuntárias, sob a pressão do olhar do outro.

É assim, pelo buraco da fechadura, que adquirem direito de cidade. Sem que Proust apele para as tomadas de posição políticas pró-Dreyfus à maneira de Zola, ou para as defesas abertas da causa gay à maneira engajada do André Gide, que, aliás, por isso mesmo, não entendeu nada do que estava se passando.... As coisas são tão retorcidas quanto. Isso é Proust!


Em que medida perceber essa disposição para o riso é fundamental para a compreensão do gênio de Proust?

Leda: Essa é uma pergunta interessante porque o “gênio” não é nada francês. O gênio é um estado de alma nórdico, é a palavra que os românticos usaram para Shakespeare. Tudo isso é estranho ao mundo francês até os hugolianos, que são românticos tardios, como se sabe, e principalmente até o Baudelaire, que é quem muda realmente a direção da literatura francesa.

Os proustianos que giram em torno do “clichê da madeleine” freqüentemente referem Proust a Baudelaire. Por saberem que, antes mesmo da memória afetiva proustiana entrar em cena, Baudelaire já desenterrava pedaços fragmentários do passado das ondas de sensações, o que é proustianísimo. Mas o Baudelaire que mais marca Proust, como eu tento mostrar no meu livro, é o autor de um texto fundamental, tão corrosivo quanto desconhecido, principalmente aqui no Brasil, o ensaio intitulado “Da Essência do Riso”.

É nesse ensaio que o Baudelaire vai dizer que o riso vem do fato de sermos seres duplos e que ele é o mais claro signo satânico do homem. Há aí toda uma demonstração fantástica das vantagens da duplicidade e da gargalhada para a literatura.

Baudelaire começa comparando o espírito clássico nacional, que é por definição refratário ao desequilíbrio emocional, à alma perturbada dos alemães e dos ingleses, a começar por Shakespeare, continua fazendo uma opção pelos estrangeiros, em cujos abismos interiores vê um “cômico absoluto”, e termina reivindicando esse tipo de quadro humoral para a literatura francesa. O texto passa uma linha clara de demarcação entre o “espírito”, que é sensato, e o “gênio”, que é desenfreado. Para mim, é nessa linha de tradição que Proust tem que ser posto, e é isso, principalmente, que permite associar o gênio proustiano ao humor.


No Brasil a obra de Proust tem boas traduções e uma crítica bastante interessada. Pode-se falar de uma certa afinidade entre o leitor brasileiro e a obra proustiana? Ou não? Como você vê o impacto de Proust na nossa literatura?

Leda: Não, ao contrário! Eu acho que, embora possamos nos gabar de uma dupla tradução de “Em Busca do tempo perdido”, e ressalvando que tanto a edição da Globo quanto a da Ediouro, ainda que heróicas, deixam em francês a maior parte das dificuldades técnicas de Proust, o que é a antitradução, nem por isso temos entre nós uma cultura proustiana.

O que existe aqui são proustianos isolados, tão parados no tempo que até hoje exibimos como credencial o famoso Proust do Ruy Coelho para a revista “Clima”, que é do começo dos anos 40, e nos perguntamos admirados como Jorge de Lima pode ter sabido de Proust tão cedo, por volta de 1920. Hoje em dia, temos um proustiano na Unesp de São José do Rio Preto, Agnaldo Gonçalves, outro na USP, Philippe Willemart, outro na PUC, que sou eu mesma... E, curiosamente, muito do que temos acontece fora das letras.

Há entre nós, por exemplo, uma certa remissão à obra proustiana que é caudatária de Walter Benjamin. Benjamin traduziu e comentou Proust, associou Proust e a Paris de Proust à sua reflexão sobre a modernidade. Então, temos os benjaminianos que são proustianos. Eles, aliás, são ótimos. Mas raramente temos livros inteiros dedicados a Proust, assim como não temos um centro ou centros de estudos proustianos, nem colóquios proustianos, nem celebrações como a do Bloomsday para Joyce. Só agora as coisas começam a mudar.

Há um celeiro de jovens e talentosos pesquisadores sendo formado atualmente na USP em torno de Willemart. É um trabalho interessantíssimo porque esses estudantes vão aos manuscritos proustianos, se deslocam até Paris para trabalhar diretamente com os rascunhos de “Em Busca do Tempo Perdido”, dentro de uma linha genética que é muito refinada e tem parte com a hermenêutica psicanalítica. Até onde eu chego, em termos de cultura, é só!


Como você vê a crítica literária hoje?

Leda: Vejo-a declinando a olhos vistos em tamanho e em nível de dignidade nos jornais, onde se reduz hoje à glosa (como diriam os “novos críticos” unicampineiros, como gosto de chamar Alcir Pécora e Paulo Franchetti), à administração do mainstream editorial, à promoção da pequena querela, rápida e fácil, e até mesmo ao colunismo social, se pararmos para pensar em tudo o que cerca a festa na floresta que é a Flip.

Vejo-a também resistindo nas revistas literárias, a mídia dos rebeldes, que para aí se transferiram desde quando a literatura liquidou suas relações com o jornal, no final do século XIX. Continuando seu caminho na universidade, em que os professores raramente escrevem com estilo e em que a literatura se deixa eclipsar pelas parafernálias técnicas dos métodos críticos. E sendo como sempre excelente no seu melhor lugar, principalmente desde a modernidade, quando as artes se tornaram auto-referentes: nos próprios laboratórios da criação, aí incluídos, sem nenhuma repartição monótona, como disse João Alexandre Barbosa a propósito da crítica de Haroldo de Campos, a poesia e a tradução, que são formas imanentes de crítica.


Como você avalia a cobertura jornalística da literatura?

Leda: Como uma contradição de termos, pensando bem! No sentido de que não há mais lugar nos jornais para o “timing”, o nonsense, os choques, os delírios, as experimentações, os hermetismos e até mesmo para o mal (a levar em conta a clássica conexão feita por Bataille em “A Literatura e o Mal”) que são próprios da literatura.

Já era assim no século da cooptação da literatura pelo jornal, o XIX. Se você abrir “O Spleen de Paris”, de Baudelaire, vai ver que ele pragueja o tempo todo contra os jornalistas, no mesmo momento em que envia aos jornais as suas peças literárias, que são aí rejeitadas ou censuradas. As marcas desse conflito estão até hoje no “Spleen”, nas reticências que se introduziram por toda parte, no lugar dos palavrões e das blasfêmias que foram cortadas e que os editores póstumos não puderam restaurar. Na “Monografia da Imprensa Parisiense”, de Balzac, isso fica ainda mais evidente.

Bom... isso não significa que não haja nos jornais lugar para uma crítica cultural da literatura, dirigida ao leitor comum, que pode ajudar a formar massa crítica para ela, assim como fazem as literaturas médias, que servem de preparatório para a boa literatura... O cara começa lendo Cronin, pega gosto e pode acabar em… Philip Roth.

 
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