2

Leyla: A discussão do “cânone ocidental” me parece equivocada na base, porque o conceito de cânone é sempre ocidental. A reivindicação de “lugares de honra” no cânone é, a meu ver, um erro dos “excluídos”, porque os critérios valorativos do cânone só podem ser ocidentais, e não há ainda novos critérios suficientemente abrangentes para a formação de um cânone universal. Assim como ainda não existem princípios comuns para o estabelecimento de um Direito Internacional, o que é mais importante na prática política do que um cânone literário.

Além disso, o fato do cânone ocidental ter-se tornado hegemônico é uma questão histórica cada vez menos atual. Hoje em dia, a “canonização” de um escritor não passa mais por instituições acadêmicas ou educacionais, mas pela ação de grandes editoras, de agentes literários, de prêmios, da publicidade. Isso não é “cânone”, é visibilidade, “celebridade”, no sentido midiático. Somente com o passar do tempo se poderá ver que escritores, do Ocidente ou não, permanecerão na estima dos leitores, que são os únicos legítimos eleitores do cânone futuro. Por ter como critério básico a duração no tempo, o cânone sempre se apóia no passado, e está em lenta, mas permanente mutação.


E por que Said seria “um intelectual fora de lugar”?

Leyla: “Fora do lugar” é uma expressão do próprio Said, que intitulou sua autobiografia “Out of Place”. Embora ele tenha feito seus estudos nos Estados Unidos e fosse cidadão norte-americano, era considerado lá como palestino e estrangeiro. Em sentido inverso, os árabes o criticavam por achá-lo muito americano. Entretanto, o olhar de um “fora do lugar” é muitas vezes mais lúcido do que o do “lugar”, como era o caso de Said.


A sra. dedica um ensaio a Isidore Ducasse e Cortázar, escritores latino-americanos que viveram parte da vida em Paris. Por seu caráter desenraizado, a escrita deles prefigura as escritas deslocalizadas do século XXI. Tendo-os por referência, como a sra. vê autores desenraizados como James Joyce, Samuel Beckett, Ernest Hemingway, Saul Bellow, Cabrera Infante e, porque não, nossos João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes?

Leyla: Meu livro é uma coletânea de ensaios, não pretende dar um panorama geral das escritas deslocalizadas. O que, diga-se de passagem, é um belo tema para um estudo mais sistemático. Além desses que você cita, há muitos outros casos ilustres: Conrad, Cioran, Kadaré, Danilo Kis. Mas não eu não incluiria João Cabral e Murilo Mendes na mesma categoria. A simples experiência da vida no exterior e a presença de temas de outros lugares não basta para que se considere um escritor “desenraizado”.


Professora de literatura francesa, em “Vira e Mexe, Nacionalismo”, a sra. trata da “galofilia” e da “galofobia” na cultura brasileira. Hoje talvez possamos falar em “anglofilia” e “anglofobia”. Por que os intelectuais hoje não tomam Nova York como referência da mesma forma que os do início do século passado tomavam Paris?

Leyla: Fiz minha carreira universitária como professora da literatura francesa, mas nunca me dediquei a ela de modo exclusivo. Hoje, posso dizer que sou uma “generalista” literária, ou uma “comparatista”, termo já antigo que não me agrada muito porque estudar várias literaturas nem sempre implica em comparação.

Atualmente não há mais um Centro cultural, há vários centros, e isso é bom. Paris ainda é um centro somente no sentido nostálgico, museológico. Nova York já foi um centro cultural mais importante do que é hoje, em meados do século XX. Tóquio é mais inovador, hoje, do que esses antigos centros. O prestígio da Rive Gauche, para os intelectuais brasileiros, é um resíduo de nosso passado cultural. Quanto à anglofilia ou à anglofobia, as razões são mais econômicas do que culturais. Mas qualquer “fobia”, em termos culturais, é nociva ou inútil.


Tendo por referência Jacques Derrida, no ensaio sobre “estudos culturais” a sra. observa que há “uma chance e um perigo”: ao mesmo tempo em que estes abrem novos horizontes para os estudos literários, podem se tornar tão ideológicos quanto os discursos ideológicos que pretendem criticar. Mas, ao se “desideologizar” os estudos literários, não se corre o risco de uma falsa neutralidade?

Leyla: Não se trata de desideologizar os estudos literários, porque tratar de obras literárias é sempre lidar com ideologia, a do autor e a do leitor. Mas não apenas. O perigo dos “estudos culturais” é a atenção dada às obras apenas em função do tema: feminismo, homoerotismo, pós-colonialismo, correção política... Tudo isso pode estar presente na obra literária, que é enciclopédica, mas não é o tema que a justifica como obra de arte. E, se não avaliarmos as obras com base em critérios estéticos, seremos militantes de determinadas causas, mas não críticos literários.


Publicado em 18/12/2007

.

Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
2