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dossiê
CRÍTICA LITERÁRIA

A literatura contra a ideologia
Por Humberto Pereira da Silva

Para a crítica Leyla Perrone-Moisés, que lança “Vira e Mexe, Nacionalismo”, os parâmetros do MEC sobre ensino literário são confusos e fazem o elogio de um multiculturalismo “que não corresponde à nossa vivência e não nos convém”

As limitações e os paradoxos das análises literárias de viés nacionalista e ideológico são o objeto principal de “Vira e Mexe, Nacionalismo”, o novo livro de Leyla Perrone-Moisés, uma das principais críticas de literatura do país.

. O livro reúne ensaios, conferências e artigos nos quais a autora analisa a cultura literária na América Latina, desde o Romantismo até o Modernismo, a partir do tema do nacionalismo. A obra avança também sobre questões contemporâneas, como o multiculturalismo e os estudos culturais, e analisa o trabalho de autores atuais, como J.M. Coetzee e Edward Said.

Refratária a perspectivas que situam o valor de uma obra literária primariamente pela perspectiva ideológica, Perrone-Moisés rebate os estudos centrados no feminismo, no homoerotismo e na correção política. “Se não avaliarmos as obras com base em critérios estéticos, seremos militantes de determinadas causas, mas não críticos literários”, diz ela.

Professora de literatura francesa na Universidade de São Paulo, onde também é responsável pelo núcleo de Pesquisa Brasil-França do Instituto de Estudos Avançados, além de ter atuado recentemente como professora na Sorbonne e na Maison des Sciences de l´Homme, em Paris, Perrone-Moisés é autora de importantes obras de crítica literária no país.

Entre seus livros, destacam-se “Falência da Crítica - Um Caso Limite: Lautréamont”, “Texto, Crítica e Escritura”, “Fernando Pessoa, Aquém do Eu, Além do Outro”, “Vinte luas – Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil – 1503-1505”, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti, e “Altas literaturas”, no qual já havia atacado o relativismo cultural de nossa época.

Na entrevista a seguir, ela sustenta que “o paradoxo da busca de uma identidade original e própria é maior, no caso dos países americanos, porque a América é uma invenção européia”. Segundo ela, a literatura sempre foi transnacional, “em sua concepção tanto quanto em sua difusão”. Perrone-Moisés também critica as tentativas de introduzir o multiculturalismo no Brasil. Na sua opinião, os parâmetros nacionais do MEC são “confusos e contraditórios” quanto ao ensino da literatura. “Por influência norte-americana, elogiam o multiculturalismo, que não corresponde à nossa vivência e não nos convém”, afirma. Para ela, “querer introduzir, no Brasil, o conceito de multiculturalismo como existência de culturas estanques, é um retrocesso histórico”.

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Começo com o subtítulo do livro, “Paradoxos do Nacionalismo Literário”. Em que consiste tal paradoxo? A partir de que momento, no contexto literário latino-americano, se pode falar em “paradoxos do nacionalismo literário”?

Leyla Perrone-Moisés: Os nacionalismos literários latino-americanos são paradoxais desde o começo de nossa história. São paradoxais porque, em virtude da colonização, nossas línguas são européias e nossas culturas letradas se desenvolveram segundo os modelos estrangeiros. O paradoxo consiste no fato de que o “outro” europeu de que desejamos nos libertar já é parte constituinte de nós mesmos, assim como o índio e o africano.

Nenhuma cultura é pura, todas são resultantes de contatos e empréstimos, inclusive as européias. O paradoxo da busca de uma identidade original e própria é maior, no caso dos países americanos, porque a América é uma invenção européia. Antes dos europeus chegarem, ela era composta de inúmeras culturas que ignoravam pertencerem ao mesmo continente, aquele que os europeus chamaram de América.


No último ensaio do livro –“‘Macunaíma’ e a Entidade Nacional Brasileira”-, a sra. observa que, neste livro, Mario de Andrade não cai nas armadilhas da “identidade” e fala em “entidade nacional”. Com isso, entre nossos escritores, o “nacionalista” Mario de Andrade escaparia ao paradoxo do nacionalismo literário?

Leyla: Mario de Andrade, como todos os modernistas, defendia a cultura brasileira, mas nunca foi um nacionalista estreito, um “nacionalista de estandarte”, como dizia ele. Como brasileiro, via as deficiências de nosso “caráter”, e como escritor, era universalista. Meu livro traz inúmeras citações dele nesse sentido.


Quando se contrapõe Mario de Andrade e Oswald de Andrade, a sra. entende que Oswald -com a metáfora da antropofagia, que propõe justamente a incorporação deliberada das influências estrangeiras- é o que menos escapa ao paradoxo do nacionalismo literário?

Leyla: Oswald de Andrade continua sendo um escritor polêmico, mais contestado do que apreciado. Só isso já prova sua importância. Mario e Oswald são muito diferentes, e cada um à sua maneira escapou ao paradoxo do nacionalismo literário. Mario escapou dele ao evitar a expressão “identidade nacional”, substituindo-a por “entidade nacional”, expressão que exclui as idéias de origem e fixidez.

Quanto a Oswald, a antropofagia é apenas uma metáfora, mas uma metáfora inspiradora e produtiva. A assimilação crítica do alheio era, para ele, uma forma de se fortalecer como cultura: “Transformar o tabu em totem”. No modernismo brasileiro, os que foram nacionalistas, no sentido estrito e restrito, eram os integralistas chefiados por Plínio Salgado.


A sra. pondera que Mario de Andrade tinha consciência de que, em determinados momentos, como o do modernismo, o nacionalismo seria oportuno, mas que ele não aceitava o nacionalismo ufanista e xenófobo. O que separa uma postura nacionalista de uma ufanista e xenófoba? É possível pensar num nacionalismo “puro”?

Leyla: O nacionalismo é uma necessidade quando se trata de constituir uma “nação”, isto é, uma coletividade de cidadãos com uma cultura e um projeto comuns. Ele se torna uma ilusão quando essa coletividade se auto-exalta sem auto-crítica (ufanismo), e um perigo quando ele recusa tudo o que é diferente (xenofobia). Não existe nacionalismo “puro” porque a nação, como a identidade, é uma construção imaginária, necessária para existir e agir, mas que deve estar sempre em re-construção.

Um nacionalismo “puro” seria apenas uma patriotada sentimental, como ocorre entre nós com relação ao futebol. Mario de Andrade é exemplar porque não era nem ufanista, nem xenófobo. “Macunaíma” é uma obra muito crítica com relação ao brasileiro, sua falta de caráter e de organização. Essa última palavra –organização- é muito importante no livro e nas cartas do escritor.


Darcy Ribeiro conservou a visão eufórica de um povo mestiço, para o qual apenas os índios e os negros teriam contribuído com valores positivos. A ssra. o caracterizaria como ufanista e xenófobo?

Leyla: Acho, sim, que Darcy Ribeiro, em seu grande amor ao povo brasileiro, exagerou por vezes no elogio aos componentes indígenas e negros de nossa cultura. Mas, como estratégia política, esses exageros tiveram a função positiva de valorizar aqueles componentes que a maioria dos brasileiros menosprezava. É pena que, para tanto, ele tenha deixado algumas formulações antieuropéias, ou demasiadamente otimistas quanto à nossa alegria essencial. Isso não invalida, entretanto, a grande contribuição de Darcy Ribeiro à nossa cultura.


Sobre o multiculturalismo, a sra. repara que esse termo é usado em países hegemônicos, como os Estados Unidos, mas que, “felizmente”, ele não cabe à nossa vivência de países latino-americanos. Aqui, ao contrário de multiculturalismo, há mestiçagem, recriação cultural permanente, transculturação. O multiculturalismo seria negativo em si ou seu uso é apenas impróprio para caracterizar nossa vivência?

Leyla: O multiculturalismo, tal como é entendido e praticado nos países do hemisfério Norte, não corresponde à nossa vivência porque aqui, “felizmente”, ainda não temos comunidades culturais fechadas e conflitantes. O comunitarismo, que a princípio parecia um respeito às diferenças, acabou sendo o que é hoje: um enorme problema nos países de imigração, onde o relativismo resultou em guetos, impossibilitando o pacto social, o projeto comum e a justiça unificada que constituem uma “nação”.

O grande problema atual é a rapidez e a superficialidade dos contatos culturais, assim como o aumento brutal das migrações humanas, porque a transculturação exige tempo. Na América Latina, exigiu cinco séculos. Querer introduzir, no Brasil, o conceito de multiculturalismo como existência de culturas estanques, é um retrocesso histórico.


Apesar do “felizmente”, hoje no Brasil os Parâmetros Curriculares Nacionais introduzem entre os temas transversais de ensino a “pluralidade cultural”. Essa perspectiva se reflete no ensino da literatura. A sra. entende que essa iniciativa é tributária de uma visão que assimila um modelo de ensino americano, mas que distorce a compreensão de nossa realidade no plano da literatura?

Leyla: Os parâmetros nacionais do MEC são confusos e contraditórios no que se refere ao ensino da literatura. Por influência norte-americana, elogiam o multiculturalismo que, como eu disse antes, não corresponde à nossa vivência e não nos convém.

Ao mesmo tempo, valorizam o “nacional” em detrimento do estrangeiro, a ponto de avaliar os escritores não em função de sua qualidade estética, mas em função de seu valor como documentaristas da “realidade nacional”. As diferentes culturas que se mesclaram e continuam se mesclando para constituir uma cultura brasileira devem, sim, ser estudadas, mas não de modo a privilegiar uma em detrimento de outras.


Com a globalização, vivemos num tempo de valorização do “local” concomitante -devido ao influxo das traduções das mais diversas línguas- à presença de literaturas estrangeiras. No que se refere à literatura, como a sra. aproxima as palavras “multiculturalismo” e “globalização”?

Leyla: A globalização é econômica e informacional, não é cultural, no melhor sentido da palavra. Nessa imensa conversa de surdos, a literatura continua tendo um papel essencial. Tal como a concebemos no Ocidente -e o conceito de “literatura” é ocidental-, a literatura sempre foi transnacional, em sua concepção tanto quanto em sua difusão.

A literatura ocidental nunca reconheceu fronteiras nacionais, na escolha de temas ou de procedimentos. O “intertexto” sempre foi nela utilizado. Além disso, a boa literatura trabalha com temas universais, e por isso permite o entendimento entre homens de diferentes culturas. Goethe e Marx reconheciam essa capacidade da literatura, e muito antes da globalização sonhavam com uma “literatura mundial”.

Os relativistas pós-modernos contestam o uso da palavra “universal”, mas o universalismo da literatura pode ser comprovado na prática. Nunca se traduziu tanto como nos dias de hoje, e nunca as obras produzidas em culturas diferentes tiveram tanta procura, em todos os países. Esse fenômeno das traduções literárias é um efeito positivo da informatização e da globalização, um fenômeno que ainda não tem sido devidamente avaliado.


“À Espera dos Bárbaros”, romance do sul-africano J. M. Coetzee, para a sra. ficará como um dos maiores romances do século XX. Nele tem-se a conflituosa relação entre homem e cultura -com ele, Coetzee prefiguraria a “guerra de civilizações” pela qual estaríamos passando. Ao fazermos uso da expressão “guerra de civilizações”, não se corre o risco de uma separação entre “civilizados” e “bárbaros”?

Leyla: O romance de Coetzee, ao encenar uma “guerra de civilizações”, mostra exatamente que não existem “civilizados” e “bárbaros”, que os segundos são uma invenção dos primeiros e que os limites entre uma civilização idealizada e uma prática bárbara são ilusórios.

Em “À Espera dos Bárbaros”, os “civilizados” se tornam cada vez mais desumanos no tratamento que dão àqueles que chamam de “bárbaros”, e até mesmo aos “civilizados” que não aceitam essa distinção, como o juiz protagonista da história. A grandeza do romance está justamente em questionar, na base, essa oposição. A história se passa em local e tempo indefinidos, mas nos leva a pensar naqueles que, hoje, a suposta civilização chama de bárbaros: os islamitas, os emigrantes, os favelados, os sem-terra etc.


Para a sra., Edward Said foi “um intelectual fora de lugar”. Ele estudou autores ocidentais como Conrad, Kipling, Defoe, e não-ocidentais, como Mahfouz, Naipaul... Seu projeto não é exaltar obras ou autores particulares, reivindicando, para os excluídos, lugares de honra no cânone hegemônico. Mas, ao lermos as obras de Conrad, de Mahfouz, não o fazemos da perspectiva do Ocidente?

 
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