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a.r.t.e.
HOMENAGEM

Stockhausen é a além-música
Por Flo Menezes


Os músicos Karlheinz Stockhausen (à dir.) e Flo Menezes
Acervo pessoal

Compositor alemão, que morreu no dia 5, foi um ícone de radicalidade em meio ao conservadorismo e à avassaladora mediocridade

Consta que Otto Maria Carpeaux teria proferido a interessante frase sobre a grandeza de Bach: “Mozart é O músico! Beethoven é O músico! Bach é A música!!!”.

Karlheinz Stockhausen, que nos deixou no último dia 5 de dezembro, conseguiu superar essa relação de igualdade entre compositor/música e nos faz pensar na extensão de tal comparação: Stockhausen é a além-música. A cada obra sua, intrincadas elaborações, meticulosas formulações e inovações surpreendentes aliavam-se, sempre, a um incomensurável potencial extra-humano, de índole cosmológica.

A música, em Stockhausen, sempre significou mais que ela mesma, sem deixar jamais de se fazer valer de todos os seus recursos propriamente musicais. Mais como nenhuma outra obra ao longo de toda a história da música, técnica musical e sentido extra-musical, em Stockhausen, demonstram-se como sendo faces de uma mesma moeda.

Desde as suas primeiras obras, Stockhausen sempre significou o que havia e há de mais atual na arte da composição, brindando-nos a cada nova composição com inusitadas formulações, proposições, elaborações, invenções. Com a morte de Stockhausen, a música perdeu seu grande ícone de radicalidade. Dentre os grandes da Nova Música restam vivos apenas Pierre Boulez e Henri Pousseur. Todos os demais já se foram...

Sou, no Brasil, a única pessoa com quem Stockhausen mantinha contato próximo e assíduo. Perdi um parente próximo. Um tio e um mestre. Esta é a sensação. A notícia de seu desaparecimento, que me chegara antes mesmo que a imprensa local tivesse tido dela qualquer informação, impactou-me como um golpe do TEMPO, que mais uma vez se mostrou mais forte que qualquer um de nós, dobrando até mesmo a aparente inesgotável energia criativa de Stockhausen.

Foi a música de Stockhausen, aliada à minha paixão juvenil por Schumann e meu respeito por Marx, que me levou a estudar alemão ainda quando tinha apenas 13 anos, visando ao estudo de música eletroacústica na cidade-berço do gênero, Colônia, na Alemanha, a cidade de Stockhausen. Segui conseqüentemente meus propósitos e por lá vivi por cerca de cinco anos na década de 1980.

Curiosamente, no entanto, foi apenas bem mais tarde que me aproximei de Stockhausen em pessoa: em 1998, ministrei um denso curso de três meses sobre sua obra no Studio PANaroma de Música Eletroacústica, da Unesp (que funcionava, naqueles anos, junto à Faculdade Santa Marcelina em São Paulo, com a qual mantínhamos um intercâmbio), em homenagem aos seus 70 anos. Neste mesmo ano, fui seu aluno no primeiro de seus “Cursos Internacionais Stockhausen” que ele então inaugurava em Kürten, nos arredores de Colônia, onde vivia desde a década de 1960 e onde veio a falecer. Informando-se sobre o conteúdo de meu curso, Stockhausen convidou-me imediatamente a ser o professor de análise de suas obras neste evento anual.

Foi assim que, em 1999, adentrei o rol de seus íntimos colaboradores, ministrando análises de suas obras para mais de 70 músicos de todo o mundo durante toda uma semana. Nessa época, participei da “cozinha” do mestre, e inúmeros episódios dariam para escrever um livro. Boas e más impressões, sempre regadas, contudo, pelas águas de uma profunda admiração por sua Obra!

Em 2000, conflitos de datas entre o curso alemão e meus próprios concertos impossibilitaram-me de dele participar. Em carta de 4 de setembro de 2000, Stockhausen escrevera-me sobre minha ausência em Kürten: “Caro Flo Menezes, você de fato fez muita falta aqui nos cursos: sua alegre alma, sua sabedoria musical, sua amabilidade!”.

Consegui, em 2001, ministrar a seu pedido mais uma vez o curso, mas preferi, por diversas razões, retirar-me de seu círculo a partir de 2002, tendo sido substituído por um grande musicólogo, Richard Toop, seu ex-assistente na década de 1960. Continuei amigo de Stockhausen e defensor incondicional de sua obra, propagando-a no Brasil, o que atestam as mais de 70 partituras e CDs que Stockhausen me presenteou, sempre com amáveis dedicatórias.

A personalidade de Stockhausen era difícil. Ensimesmado em máxima potência e ato, seu ego descomunal despertava mais sentimentos avessos que solidários à sua empreitada como grande inovador da linguagem musical. Mas sempre foi preciso, para cada um de nós que desfrutávamos e desfrutaremos de sua música, ser maior que a mesquinhez para entender que atrás de sua postura intransigente e auto-centrada delineava-se uma das figuras mais íntegras que as artes conheceram.

Vivia com suas duas mulheres –Suzane Stephens e Kathinka Pasveer, ambas excepcionais musicistas–, tinha sua própria editora, dona de belíssimas edições de suas partituras e CDs, constituiu em volta de si a Bayreuth que Wagner imaginara para sua música.

Desde 1970, quando compôs “Mantra” para dois pianos e moduladores em anel, influenciado por sua viagem ao Oriente, decidiu vestir exclusivamente roupas brancas: uma camisa bordada de origem mexicana, com a qual não só aparecia publicamente, mas também no íntimo de seu habitat, em sua própria casa, que ele mesmo desenhou e que, de concreto, vidro e madeira, esconde-se em meio a um bosque em Kürten, nos arredores de Colônia, bosque este que Stockhausen semeou desde a década de 1960.

Certa vez, em 2001, conversando com Stockhausen em sua bela cozinha por mais de quatro horas, durante as quais olhou atentamente, por cerca de 40 minutos, página por página de minha obra “A Dialética da Praia” (1993) para dois percussionistas e sons eletroacústicos, perguntei-lhe, olhando para toda aquela mata, se a informação que eu havia lido em uma de suas biografias era verdade: a de que ele teria plantado todas aquelas árvores.

Ele virou-se para a mata, vista através da grande janela de vidro em frente à mesa, sobre a qual repousavam bombons Mozart, apontou para uma única árvore em meio a tudo aquilo, que sabia distinguir sem qualquer dificuldade naquele emaranhado de verde, e me disse: “Não! Aquela ali já estava lá quando vim construir minha morada aqui!”.

Este episódio, significativo, é exemplo cabal da Integridade a que me refiro. Por certo que, durante essas quatro horas, falou mal de toda a cultura humana, de músicos e não-músicos: Mozart era “jogo de criança”; Boulez só saberia “escrever por blocos e blocos”; Mondrian, este, era naiv; Berio teria imitado seu “Zyklus” (1959) ao compor “Circles” (1960)...

Em todos esses comentários, que transluziam uma postura avessa a tudo que não provinha de si mesmo, Stockhausen sempre tinha, no entanto, certa parcela razão, por mínima que fosse. Ouvir suas palavras não significava, portanto, concordar integralmente com elas, mas saber ouvir os pronunciamentos de um grande Mestre, de um Guru, em volta do qual todos se juntavam em seus cursos internacionais de verão, como num grande culto religioso.

Quando, nesta ocasião, falou sobre essa obra de Berio, perguntou-me com ares inocentes: “Você certamente conhece aquela obra de Berio à qual me refiro...? Como se chama mesmo...?”. Ao que respondi, com ares igualmente “inocentes”: “Claro! Trata-se de ‘Circles’’. Stockhausen sabia que eu sempre fui um “beriano de carteirinha”, e certamente não lhe escapava o título desta obra-prima do compositor italiano. Queria, ali, apenas me “agulhar”, com seu inesgotável e imponderável senso provocativo. Recebi aquilo com o gosto de quem participa de um jogo de adultos, de quem também provoca e “agulha”, como todo criador permanentemente insatisfeito, exatamente tal como devemos ser nós, compositores.

Dividida em três grandes fases – a música serial integral dos anos 1950; a música intuitiva dos anos 1960; e a música por “fórmulas”, que amalgamou aspectos do serialismo com a intuição quase religiosa e que se estendeu até sua morte –, sua obra cunhou grandes inovações que fizeram de Stockhausen o grande pioneiro de importantes idéias e procedimentos da composição musical, particularmente no que se refere à espacialidade dos sons, à especulação em torno da vida interna dos espectros sonoros e às intrincadas elaborações formais da arquitetura musical.

Mas, por diversas vezes, apropriou-se de idéias de outros e fez delas algo seu, desprezando, por certo, a origem de tais concepções. E eu mesmo fui, se devo dizer, vítima parcial deste tipo de atitude: entre 1998-2000, compus “Pulsares” para pianista solista, pequena orquestra e sons eletroacústicos, fazendo uso, ainda que ínfimo, de uma mínima figura de seu “Klavierstück IX” (peça célebre para piano que escrevera ao final da década de 1950 e início dos anos 1960).

Escrita nos anos em que me tornei parte de seu círculo mais íntimo, minha obra rende homenagem explícita a Stockhausen, a quem presenteei com um exemplar do DVD que contém tanto meus “Pulsares” quanto outra obra de grande porte, “labORAtorio" (1991-2003).

Em “Pulsares”, uma peculiaridade chama a atenção: todos os sons eletroacústicos são rotativos, perfazendo trajetórias circulares em volta do público, como numa grande Harmonia das Esferas. Pouco antes de morrer, Stockhausen compõe, para minha surpresa, “Cosmic Pulses”, obra eletroacústica na qual todos os sons... rodam no espaço! Admitiria Stockhausen ter se apropriado, mesmo que inconscientemente, da concepção de meus “Pulsares”, que bem conhecia? Se tivesse eu tido tempo para lhe enviar uma questão como esta, Stockhausen certamente teria se rebelado contra qualquer interpretação nesse sentido.

Fato é, contudo, que a similaridade de ambos os projetos é tão evidente quanto assustadora, algo que ao mesmo tempo me alegra e entristece. Mas fato é também que nada disso minimiza a grandiosidade de sua obra –aliás, muito diversa da minha–, o que apenas vem demonstrar o óbvio: que todos nascem de tudo o que já existe, e que nada é absolutamente novo embaixo deste Sol, mas que nem por isso tudo já está dito!

É nessa aparente contradição entre o já e sempre existente e a permanente re-significação das coisas que consiste cada ato de Criação. O Novo, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, não reside na invenção a partir do zero, mas antes justamente na capacidade em re-significar as coisas desse mundo!

Os que se aproveitam de cada mísera chance para apedrejar a vanguarda certamente falarão, como sempre o fazem, de meu suposto “ego inflamado” ao relatar tais acontecimentos. Fato é, contudo, que Stockhausen nutria, pessoalmente, um grande apreço pela minha pessoa, indo ao encontro de meu profundo sentimento de respeito por sua integridade musical. Via em mim a chance de sua música ser um pouco mais entendida no Brasil.

Nadamos, entretanto, contra a corrente de um mar tempestuoso, povoado por uma avassaladora mediocridade e pelo conservadorismo. Quando Stockhausen esteve por aqui pela primeira vez, em 1998, a “Folha de S. Paulo” chegou a divulgar o seu nome como “avô dos DJs”. Nada mais falso, enganoso e mediano que um comentário como esse! A obra de Stockhausen passa a anos-luz do limitado universo (se é que podemos falar de “universo”) da música comercial dita “eletrônica”, que hoje habita o parco cérebro até mesmo de alguns artistas de outras áreas, os quais se deleitam ao som mecanizado, catatônico, enjaulado -em uma palavra: medíocre- dos DJs.

A música de Stockhausen, ao contrário, significa a VANGUARDA. Sim, VANGUARDA! Esta palavra que, ao contrário do que muitos dizem, não perdeu absolutamente o sentido, porque, se assim o fosse, seria o mesmo dizer que estar à frente da mediocridade perderia o sentido.

No presente momento, eu elaborava uma longa lista de questões para uma significativa entrevista que eu faria com Stockhausen em homenagem aos seus 80 anos, no ano que vem. Desta vez, ficaremos sem essa...

Em uma de minhas recentes cartas em meio à longa missiva com o mestre alemão, escrevi a Stockhausen (em 9 de abril deste ano): “Espero que esteja bem com sua inesgotável energia!”. Ao que Stockhausen me respondeu em 22 de abril de 2007: “Obrigado também no que diz respeito à minha ‘energia’”.

Mas a energia corporal de Stockhausen esgotou-se. Foi vencida pelo TEMPO, entidade abstrata e quase inexistente que se revela, a cada passo, mais forte que qualquer coisa mundana.

Sua obra, no entanto, certamente resistirá aos séculos, com a de um Bach, de um Mozart ou de um Beethoven, tão mal compreendida como a de seus parceiros nesse seleto time dos gênios!


Publicado em 10/12/2007

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Flo Menezes
É compositor e ensaísta, autor de “Música Maximalista: Ensaios Sobre a Música Radical e Especulativa” (ed. Unesp) e “Apoteose de Schoenberg” (Ateliê Editorial), entre outros.

 
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