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Os membros do cartel de drogas de Juárez exibem até nas tatuagens a proteção da Virgem de Guadalupe e da Santa Morte. Esta última é um culto popular mexicano que não pede sacrifícios humanos, em compensação outros rituais de proteção pedem esses sacrifícios.

O nível de violência que a fronteira com os Estados Unidos pode estabelecer é socialmente incomensurável. A prostituição é o mercado mais visível (mas não o maior), cobiçado por americanos que atravessam as pontes principalmente nos finais de semana para se alcoolizarem, se drogarem e se divertirem na vida noturna de Juárez.

Numa palestra, o escritor Luis Arturo Ramos, de Veracruz e radicado em El Paso, compara o Halloween dos americanos com o Dia dos Mortos no México. No segundo, ele nos diz, dialoga-se com a morte, e a imagem dela é o esqueleto que todos levamos dentro. Já o Halloween dramatiza o horror por tudo que vem do além, o Outro visto como perigoso, seja o espectro, o monstro, o ilegal. Os gringos, eu penso, vêm a Juárez para conhecer o lado menos limpo deles mesmos, e voltam a atravessar a ponte, tarde da noite, para retomarem suas vidas de cidadãos honestos e ordeiros, de aparência limpa. “Clean”, dizem.


A vida narco

Os cartéis da droga criaram toda uma estética do excesso, do dinheiro fácil, uma “narcoestética” que naturalmente dialoga com o machismo da região. No que diz respeito à música, por exemplo, existem os “narcocorridos”. Fui num Sanborn, esses grandes magazines, para comprar um CD desse gênero musical. Pedi ao vendedor sem rodeios: “Que discos de ‘narcocorridos’ você tem?”. A resposta voltou direta: ele tinha “Los tucanes de Tijuana” e “Los tigres del Norte”.

Os “corridos” são um tipo de música “nortenha”, cujas letras narram uma aventura, às vezes épica, eventualmente histórica (por exemplo, Pancho Villa e suas “adelitas”, ou seu cavalo). Os “narcocorridos” são um inesperado aggiornamento desse gênero: contam aventuras de jovens que aderiram ao narcotráfico, às vezes falam apenas de emigrantes “ilegais”.

A narcoestética inclui também esses homens com chapéu, cinto e botas de couro, por exemplo de crocodilo, e às vezes cor-de-rosa. Impressiona vê-los andar pela avenida Juárez. Ao escritor Rodolfo Häsler, esse personagem (ou narcopersonagem) inspirou um poema memorável, justamente chamado “Ciudad Juárez”. São o “new-macho” da fronteira.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 resultaram catastróficos também para Cidade Juárez. Os controles alfandegários acirraram-se, e o narcotráfico, impossibilitado de transportar a droga até o território americano, seu destino habitual, teve de baixar os preços e distribuí-la em território mexicano. Foi um desastre para os jovens da fronteira, que se viram seduzidos pela droga e pelo narcotráfico.

Na narcoestética podem entrar os códigos implícitos nas tatuagens. Contam os juarenses que o número de lágrimas tatuadas à direita do corpo corresponde ao de pessoas que o tatuado já matou, e as lágrimas tatuadas à esquerda do próprio corpo são contas ainda não pagas. Jesus me fala do assassinato de um primo seu: “O setor desses bares elegantes é mais perigoso que o centro. De vez em quando há tiroteios entre os traficantes. Não existe nenhuma família em Juárez que não tenha sofrido algum tipo de violência devida ao tráfico”. Juárez e Rio de Janeiro. Penso nas duas cidades com um misto de amor e de amargura.

O que me trouxe à Cidade Juárez? Além do encontro de escritores, a homenagem que fizemos ao grande poeta mexicano José Emilio Pacheco. Como uruguaio, coube a mim recordar a anedota de quando ele esteve em Montevidéu. O presidente era então Jorge Pacheco Areco, e o poeta se encontrou numa cidade coberta de graffitis que diziam: “Pacheco ladrón y asesino”, “Abajo Pacheco”. E o pobre José Emilio tinha ido justamente à procura da cidade onde moraram seus avós.

Histórias de desencontros, que em Juárez nos fizeram sorrir. Elena Poniatowska, a grande jornalista e escritora, que tinha ido a Juárez para dar uma palestra e defender o “governo legítimo” de Andrés Manuel López Obrador -outra história de desencontros-, me disse no hotel: “Meus uruguaios inesquecíveis são o general Líber Seregni e Idea Vilariño”. “Pois a partir de hoje meus mexicanos inesquecíveis são todos os juarenses”, respondi.

Ficou olhando-me intrigada, talvez porque Juárez tem má fama, mas eu não dei mais explicações. E confesso que, uma semana depois, fui embora um pouco triste e um pouco aliviado. Chihuahua me esperava, isto é, uma cidade, e não um “passo”, sem uma fronteira como uma navalhada, uma cidade com seus palácios, seus bairros, e não “setores”, com sua história épica, tanto de Benito Juárez como de Pancho Villa. Mas um dia voltarei a Cidade Juárez, eu sei, e quando me perguntarem o que me traz ali, direi: “Os juarenses, ainda tenho saudades deles”.


Publicado em 4/12/2007

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Alfredo Fressia

É poeta e crítico literário uruguaio. Desde 1976 reside em São Paulo, onde é correspondente cultural do jornal "El País", de Montevidéu. É professor de língua e literatura francesa. Publicou, entre outros livros de poesia, "Un esqueleto azul y otra agonía" (Ediciones de la Banda Oriental, 1973), "Frontera móvil" (Ediciones Aymara, 1997) e "Veloz eternidad" (Vintén Editor, 1999), os três ganhadores do Prêmio MEC (Uruguai). É também autor de "Chéjov - Sobre su narrativa y teatro" (em co-autoria com Gustavo Martínez e Roberto Appratto, 1974), entre outros livros de ensaio.



 
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