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prosa.poesia
Koans Oito histórias búdicas em solidariedade aos monges que resistem ao regime ditatorial de Mianmar Koans são microestórias búdicas, antiparábolas nas quais, através de esquivas “lições” iluminantes, o Zen se faz. Feito um jarro que, ao se espatifar no chão, ainda assim é um jarro inteiro desenhado no ar. Aqui, oito dessas torções de espírito, em solidariedade aos monges resistentes de Mianmar (antiga Birmânia).
– Mestre, para que servem as chuvas que alagam e arruínam os arrozais? – Para que se mostrem chuvas em sua inteireza, meu jovem. – Mas que inteireza, mestre, se elas acabam com o que temos de mais precioso – o nosso principal alimento... – Justamente por isso, por serem o nosso principal alimento. – Não entendo, Mestre. – Só entenderá quando você mesmo chover sobre os arrozais.
O monge chegou a tal estado de devota mendicância que não desejou mais ter voz. Quando necessitasse dela a mendigaria ao primeiro passante. E assim permaneceu quase duas semanas. Para tudo, usava as mãos e os gestos. Houve, contudo, o dia em que o monge-mendigo precisou da fala para recitar um antigo mantra búdico, e que só podia ser rezado de viva voz. Não hesitou e acercando-se de um velhinho que passava pela rua, com a mão na garganta fez entender que precisava falar. – Falar?... – titubeou o ancião, a voz fraquíssima. – Sim, falar, meu mestre ... – pediu o destituído monge-mendigo – a voz própria, forte e tonitruante. Sem nada entender, o ancião encerrou a conversa: – Mas pra quê, meu filho, se tens voz de sobra? – Eu não tenho voz, mestre. Eu só tenho é um som forte e arrogante que me sai do fundo da garganta. – Acredito... – assentiu, confuso, o velhinho, desguiando, claudicante, para o outro lado da calçada.
O jovem monge anda 70 quilômetros para ter com um mestre cuja fama já ultrapassou há muito as muralhas da cidade. Exausto e os pés feridos pelo íngreme caminho que leva à árvore sob a qual o monge vive e medita no alto de uma montanha, o noviço, ao deparar com a magérrima figura, não perde tempo. Vai logo perguntando: – Mestre, andei 70 quilômetros até aqui, pois fui informado de que és o único monge, em todo o Tibet, que sabe o que é o Zen. Levantando-se com dificuldade, o velho monge apanha ao seu lado um vaso onde guarda a água da chuva. Ergue-o o mais alto que pode e deixa que caia ao chão. Estrépito, a argila a estilhaçar-se, a água entornada à terra. – Então isto é o Zen, mestre? E o mestre que até então não dissera uma só palavra, responde, quase solene: – Não, meu filho. Isto não é o Zen.
O discípulo, flagrado em grave crise espiritual, tenta, do Mestre, esconder as lágrimas. – Há coisas, Mestre, que nos fazem chorar de rir... E todo se sacudia num pranto convulsivo, incontrolável, num inconvincente esgar de riso, tentando administrar, ao menos frente ao Mestre, o férreo orgulho. Olhando-o firme, dentro dos olhos, o Mestre, sem esforço verte abundante lágrima, ausente dele, como é comum no Tibet, o mínimo crispar de um só músculo do rosto. – Mestre, estás chorando? – Estou, estou sim. – Mas de quê, Mestre? – De vosso riso tão extraordinariamente copioso...
Correu por todo o Kinpur a notícia de que um iluminado hindu se encontrava em “estado de orgasmo” ininterruptamente há mais de duas semanas, num mosteiro zen próximo a Ayantavar, no sul da Índia. Benien, jovem monge recém-admitido entre os andarilhos-pedintes -uma espécie de “ordem” tão rigorosa que era incapaz de aceitar até mesmo os mais famosos Mestres, justamente porque eram famosos e isto, segundo eles, constítua sério empecilho-, pois o jovem pediu permissão para uma viagem a Ayantavar, com o exclusivo propósito de conhecer o monge em gozo orgásmico há duas semanas seguidas. – Seguirei anônimo e voltarei ainda mais anônimo – comunicou ao Mestre, acrescentando que, desse modo, provavelmente arrrancaria do iluminado monge o segredo de seu espantoso orgasmo. – E para que aspiras a tamanho orgasmo, Benien? – perguntou-lhe o superior, com um rir de olhos que era pura malícia e ainda mais pura sabedoria. – Ora, Mestre, e alguém por acaso não o desejaria? – Benien, o sábio de Ayantavar, precisamente ele já não o deseja mais... – Como assim? – perguntou o jovem. – Há mais de três dias que o iluminado hindu faleceu para esta encarnação, Benien. – Morreu? De quê? – De sede, Benien. Ninguém fica duas semanas sem beber água...
– Mestre, por que o Avatar Supremo permite a morte, muitas vezes horrível, das crianças da Terra? – Porque não é o Avatar Supremo que a autoriza. – Quem autoriza, então? – A morte só mora onde reina a sombra do coração humano. – E então, por isso, o Avatar Supremo está isento de culpa, Mestre? – Culpa Ele tem, mas só uma -a de haver criado o coração humano.
Nos intervalos dos exercícios com o arco-e-flecha, o Mestre treina o discípulo num jogo mágico: – Eis nova revoada de pombos. Fixe-os bem na memória e depois feche os olhos. – Fixei, Mestre e já estou com os olhos fechados! Quanto tempo devo permanecer assim? Depois de esperar alguns minutos, apressa em pedir que o discípulo abra os olhos novamente. – Agora, me diga, quantos pombos havia no céu? – Quinze, Mestre! Se não erro, quinze! – Estes são os teus quinze pombos porque os meus são trinta. – E quem de nós está certo, Mestre? – Certamente nenhum de nós. Cada qual contou os pombos que lhe interessavam...
O jovem monge procura por todo o Tibet uma estátua do Buda que, sendo oca, abriga dentro um diamante azul. Menos por seu valor comercial do que, claro, pelo que possa representar de inédita e absoluta descoberta mística, o jovem monge decide se dedicar a esta busca quase como um projeto de vida. Guarda consigo a certeza de que, encontrando o diamante azul no interior do Buda, terá encontrado junto a resposta a todas as suas indagações, a serenidade no fundo do poço de toda angústia, um sol que seja na furiosa tormenta. Muitos anos se passam até o dia em que o jovem monge, não mais tão jovem assim, topa com o velhíssimo Nguyo Ling, poeta viageiro, Mestre de haicai e zen, que, por sua vez, também procura o Buda oco com o diamante azul. – Há quanto tempo o jovem procura pela “resposta”? – Há uns vinte anos, se não erro o tempo das nevascas quando não sabemos se dia ou noite e nos enganamos na contagem das horas. – Pois eu, meu filho, procuro o Buda oco com o diamante azul há mais de meio século evitando sempre as montanhas geladas de nosso país, pois poderia perder nelas a contagem das horas... – E o que tem isso com encontrar ou não encontrar o Buda? – pergunta o discípulo. – Tem que o Buda oco com o diamante azul só se revelará a quem o busca, de modo surpreso e repentino – responde o Mestre. – Então, nesse caso, melhor esquecer as horas... – Não, meu jovem, não. Quem esquece as horas, e não sabe se dia ou noite, nunca será surpreendido... – Não entendo. Não é justamente o contrário? – A surpresa é irmã siamesa da rotina. Sem a viagem comum dos dias, nunca jamais o de repente, o súbito e o inaudito. Só quem se dedica a viver o prosaico estará sempre descobrindo o sublime. – E então por que o Mestre não encontrou, até agora, o Buda oco com o diamante azul? – Ora, ora, meu jovem... Então você não sabe que o Buda oco com o diamante azul nunca existiu?
. Wilson Bueno
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