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dossiê
CULTURA BRASILEIRA

Lúcio Cardoso, Ipanema e solidão
Por Wilson Bueno

O autor de “Dias Perdidos” disturbou a cena provinciana do Rio de Janeiro do início dos 50 com uma graça profética e corajosa

Não conheci Lúcio Cardoso, mas foi como se o conhecesse.

Convivi e freqüentei Maria Helena Cardoso, praticamente até sua morte, aos 94 anos, em 1997, ela, a “irmã sempre”, de Lúcio, que era como Clarice Lispector, também íntima dos Cardoso, chamava a eterna Lelena.

Sob seu fascínio e sabedoria ancoraram meus vint’anos atordoados, nos loucos anos 70 -o mar de Ipanema, um mar de birita e naufrágios. Nem um pouco divertido. O Horror Médici e outros horrores lá fora a rugir... Lelena era então best seller nacional com um livro humaníssimo e singelo, “Por Onde Andou Meu Coração”.

Ouço na noite grande o assovio de Inácio, na novela espantosa de mesmo nome, publicada por Lúcio em 1946. Bato com ele os pequenos caminhos de terra de Mangaratiba, na leonina desolação dos fins-de-semana aterrados que o “Diário Completo”, a sua ópera prima -vida e viés- nos conta com um luxo melancolicamente suicida.

Príncipe lúgubre, por mais de 40 anos, na Ipanema encharcada de álcool e anfetamina, ele foi o vampiro cândido e de grandes olhos expectantes. Ah, já adivinho os seus olhos, que eram como se barcos bêbados em meio à agonia de viver buscando Deus em cada esquina. Terrível o destino de quem se vê a buscar Deus, dia e noite, em cada esquina.

As novas gerações talvez nunca tenham ouvido falar de Lúcio Cardoso (1913-1968), como pouco ou nada ouviram falar de Cornélio Pena (1896-1958), de Otávio de Faria (1908-1980), que se pretendeu um Balzac brasileiro com as milhares de páginas de sua “Tragédia Burguesa”, ou do poeta Marcos Konder Reis (1922-2001) a buscar o Deus da Ressurreição, ainda que lanhado a chicote e sal. Identificados todos com o melhor do pensamento cristão de seu tempo, sobretudo o que tinha no filósofo francês Jacques Maritain seu epígono.

Recomponho, viajo, desenho: aos trapos, o saltitante amor adolescil de Clarice e Lúcio, como dois meninos, a andar a Copacabana de outrora, debruada de edifícios art nouveaux, cantando, quem sabe, uma ária de Puccini. Sei que se amaram do mais fulgurante amor -ela, a menina-escritora; ele, o jovem mestre, belo como um Deus ígneo, acuado ante o espanto de viver. O que conversavam? Do que ria a sua juventude exaltada? De que amor o amor no amor?

Lúcio foi mais, bem mais que um escritor. Disturbou a cena provinciana da Ipanema do início dos 50 com uma graça profética e corajosa. Talvez ele tenha sido o primeiro hippie brasileiro, muito antes dos hippies e do “make love not war”.

Era um ser devotado a uma revolução pessoal que nele tinha ainda mais charme porque revolução secreta, íntima, uma “reviragem” pessoal que marcava o tônus dos dias e mudava as coisas de lugar. Mas isso nele era tão profundamente particular, que o fazia assim como se um personagem de si mesmo. Andava descalço pelas ruas; bêbado, desvestia a camisa para com ela abrigar um outro bêbado em sua ruína provisória na grama da praça.

Imagino Lúcio, súbita “Pietá”, a amparar nos braços um menino morto; imagino Lúcio consolando alguém que a vida nocauteou a sangue e lágrimas; imagino Lúcio abraçando-se ao último poste da madrugada, sob a névoa dos junhos do Rio de Janeiro.

Sim, senhores, Lúcio Cardoso não foi só o autor de “Crônica da Casa Assassinada”, desolado painel de sangue, veludo e solidão, o amor sufocado e mesquinho; só ali onde o Amor pode ser mesquinho -nas casas coloniais da Minas decadentosa, a manter, ainda que a pão e água, a sua arrogante aristocracia. Nem queiram saber o que transita nos corredores dessas casas mortas e nem jamais ousem tocar na taça de vinho sobre o piano, cuidado!, pode que seja uma taça de veneno.

Timóteo, personagem marcante do livro, gordo e travestido de mulher, encerra-se num dos quartos, o idiota da família. Nem Fellini para imaginar, em 1959, esses seres de augúrio e pesadelo, a contar o raconto soturno do debaixo dos ouros das Minas Gerais.

Foi homem de recolher à casa dos pais, mesmo sob os mais enérgicos protestos da família, qualquer poeta recém-chegado da província, perdido no Rio, mas capaz de guardar dentro o poema feito um acinte, e isto era o que Lúcio melhor adivinhava, posto que esta era a sua maior urgência de viver. Fez isso, sobretudo, com Walmir Ayala. Mas o fez, também, com poetas cujo segredo a sua lenda guardava feito uma esmeralda viva no bolso do velho paletó.

O AVC que o emparedou em vida durante sete anos, interditando-lhe um dos lados do corpo, fez com que brotasse da até então quase inútil mão esquerda, pinturas de uma beleza trágica e alguma vez corrosiva. Anjos de asa quebrada, viajante a cavalo num Carnaval de matizes com que a mão, que lhe sobrara do incêndio, pintava, ora oligofrênica, ora nervosa feito a mão de uma criança com medo e, por vezes, tocada pelo gênio da cor e do evanescimento.

Não chegou a ser pintor à altura do que escreveu. Gritou, contudo, desde o seu silêncio acossado, numa explosão de guaches, de óleos e aquarelas. Já que não falava nem escrevia mais, interpelou Deus de frente, e não teve medo de Suas às vezes sinistras sentenças. Nem sempre o Deus do amor, este Deus cheio de ódio, que agora o escorraçava sem dó. E o enjaulava em si mesmo.

Desde sempre, antes da doença, escrevia a intervalos “existenciais” muitas vezes grosseiros -cinco, seis meses sem abrir o caderno por onde, quando se recompunha de suas quedas e precipícios, deslizava o lápis miúdo. Ainda uma vez, outro homem, a hinar a manhãs, movido pela fé na reconstrução dos dias derruídos. Lúcio nunca perdeu as esperanças. Um dia se salvaria de si mesmo. E então, saibam todos, não beberia mais e nem faria das noites desarvoradas o sagrado altar de sua melancolia.

O estilo de Lúcio traz, em suas melhores obras, a medida exata do cáustico, sem esquecer as ferezas e o abandono brasileiro das cidades perdidas e decadentes, afundadas em vales e grotões; tanto quanto, de seus habitantes, põe a nu as mazelas de amor. Incestos, adultérios, o desejo anda e anda, violáceo, igual que os longínquos horizontes de Minas, se é o poente, o demorado poente dessas aldeias sem Deus. O revôo dos tiés-sangue a prenunciar o infortúnio.

Seja em “Crônica da Casa Assassinada” ou no inconcluso, mas ainda assim sublime, “O Viajante”; seja nas novelas que, num misto de Hoffmann e Bernanos, perguntam pela vida detrás da morte, só a Morte parece vigorar com um luxo imperial e obsedante.

Dedicou-se ao cinema e à dramaturgia, mas o que existiu de fato foi, senhores, sem erro, o melhor dele, isto é, ele mesmo. Não sem razão o “Diário Completo” é o seu canto de cisne. Secreto “serial lover” a pisar macio as noites de Ipanema. Quasímodo ou lobisomem, aquele tempo em que dançavam no escuro os pirilampos na praia quase selvagem da Vieira Souto.

Embora a sua solidão fosse a de um homem e seu quarto, a de um homem e o encontro anônimo nas dobras da madrugada; ainda que a sua solidão fosse a de um pedinte da Beleza baldia, freqüentou e foi freqüentado pelo que havia de mais fino naquele Rio de Janeiro de antigamente. De Manuel Bandeira a Drummond, de Clarice a Tom Jobim, de Vinícius a Rachel de Queiroz, de Otto Lara Resende a Murilo Mendes, de Alceu Amoroso Lima a Roberto Burle Marx.

Em seu último dia de hospital, Clarice Lispector que, de todas as mulheres do mundo foi a que ele mais amou, relata, num quase ganido de dor que, ao entrar no quarto, vira o Cristo morto. O rosto esverdeado de um El Greco. E agora, por mais que ela gritasse, ele não a ouviria jamais. Antes, mudo ou grunhindo, ainda assim ele era o prodigioso Lúcio de sua juventude apaixonada. Agora ele não a ouvia mais.

E é justamente ele, Lúcio Cardoso, quem melhor explicita o personagem que dedicadamente construiu em 57 anos de vida, ou seja, ele mesmo -o personagem Lúcio Cardoso. O “Diário Completo” que o diga.

Desde o já longínquo 17 de outubro de 1962, derradeira anotação, grafa a lápis naqueles seus cadernos de solidão, com caligrafia quase bailarina, de uma regularidade espantosa para o que nele era tormento e desesperança, pouco antes do AVC que lhe quebraria em dois, o que me parece a sua suma e também uma cerimônia de adeus:

“Aquela mesma angústia fria, aquela dor sem doer que se espalha pelo corpo inteiro, arrumo, desarrumo, faço, e refaço. Ah, como é difícil ser calmo. Encho-me de remédios, vou à janela: é a noite, a noite dos homens, a minha noite. Ruídos de carros que passam na escuridão. Rádios abertos. Vultos que transitam em apartamentos acesos. E eu, eu? Onde vou, que faço?

Ouço a voz de Cornélio Pena -naquele tempo- ‘o seu sofrimento é um sofrimento bom, de permanecer à margem’. Não há, Cornélio, pior sofrimento do que permanecer à margem. Não tenho temperamento para isto. Quero amar, viajar, esquecer -quero terrivelmente a vida, porque não creio que exista nada de mais belo e nem de mais terrível do que a vida. E aqui estou: tudo que amo não me ouve mais, e eu passo com a minha lenda, forte sem o ser, príncipe, mas esfarrapado”.

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Wilson Bueno
É escritor, autor de "A Copista de Kafka" (ed. Planeta), entre outros títulos.

 
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