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Já Mário, não recebeu passivamente a chegada da indústria cultural no país, ao contrário, quando passou uma temporada mais longa no Rio de Janeiro, e presenciou os primeiros concursos de escolha dos sambas que iriam acompanhar os desfiles, afirmou: “O que aparece nestes concursos, não é samba do morro, não é coisa nativa nem muito menos instintiva. Trata-se exatamente de uma sub-música, carne para alimento de rádios e discos, elemento de namoro e interesse comercial, com que fábricas, empresas e cantores se sustentam, atucanando a sensualidade fácil de um público em via de transe. Se é certo que, vez por outra, mesmo nesta sub-música, ocasionalmente ou por conservação de maior pureza inesperada, aparecem coisas lindas ou tecnicamente notáveis, noventa por cento desta produção é chata, plagiaria, falsa como as canções americanas de cinema, os tangos argentinos ou fadinhos portugas de importação”.

Se Mário faz ver para além de Adorno, é porque visualizou a música popular como um documento da identidade do povo, depositária de elementos históricos e emocionais; e via, como mostra o poema citado, que o Brasil é bem maior do que muitos de nós o imaginam a partir do, ainda em uso, olhar-sudeste. No ensaio “A Evolução Social da Música no Brasil”, de 1939, ele afirma que: “Ela (a música brasileira) terá que se elevar ainda um dia à fase que chamarei de Cultural, livremente estética, e sempre se entendendo que não pode haver cultura que não reflita as realidades profundas da terra em que se realiza”.

Esse ocultamento de um Brasil desconhecido remete a uma afirmação clássica de Adorno: “A música atual, em sua totalidade, é dominada pela característica de mercadoria: os últimos resíduos pré-capitalistas foram eliminados”; sua descrição ainda hoje destoa fortemente de nossa realidade. Existem centenas de cidades brasileiras onde não há sequer luz elétrica, e esses lugares sobrevivem no nosso imaginário estético como um lugar romântico de onde se vêem mais estrelas no céu que nas capitais degradadas pelo progresso. É ali que nasce parte da música instintiva e essencial do país. Só que muita gente não ouve, pois não sabe onde fica esse Brasil.

Ainda no texto fortemente melancólico que Mário escreveu depois da passagem pelo Rio, ele relembra um testemunho que o aproxima licenciosamente de um outro frankfurtiano célebre; o trecho diz o seguinte: “Nunca me esqueci daquela esplêndida resposta dada a Paul Laforgue por um cantador popular: ‘Como não sei ler nem escrever, para guardar a história tive que fazer uma cantiga com ela’”.

O valor mnemônico da canção, diz Mário, é questão pacífica que ninguém mais lembra de discutir. "Ora, toda uma população religiosamente atenta, a decorar textos raramente estúpidos, mas em que se faz da tara, flor de ostentação, não deixa de preocupar seu bocado. É sempre trágico imaginar que, à maneira do cantador de Paul Laforgue, se estejam fazendo tais canções (a dos concursos) para não esquecer tais histórias...”.

A memória musical do cantador popular como um documento da história perdida. Que imagem melhor nós poderíamos sugerir num momento onde esquecer é uma função inseparável do ouvir música? Se a música popular como esse documento vivo do imaginário brasileiro ainda resistirá ao impacto avassalador da tecnologia de produção sonora é um mistério para o qual ainda não há resposta satisfatória. Mas não resta dúvida de que uma filosofia da música popular não só é possível como é fundamental para que não se apaguem os últimos vestígios de nossa lírica cantada.


Este artigo é dedicado a meu conterrâneo Walter Freitas, por seus sons inauditos


Agradeço à professora Flávia Toni, do IEB/USP, pelas longas e agradáveis conversas sobre Mário de Andrade.

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

1 - Andrade, Mário de. “Música Popular” (“Estado de S. Paulo”, 15/1/1939). Em: “Musica, Doce Música”. São Paulo: Ed. Martins, págs. 280-1.


2 - Andrade, Mário de. “Ensaio Sobre a Música Brasileira”. São Paulo: Ed. Martins, 1962, pág. 26.


3 - “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição”, pág. 172.


4 - Andrade, Mário de. “Música Popular” (“Estado de S. Paulo”, 15/1/1939). Em: “Musica, Doce Música”. São Paulo: ed. Martins, pág. 280.

 
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