1
entrevista
BRONCO

No mundo dos bebezões
Por Rafael Vogt Maia Rosa

“Para se tornar humorista, o mais importante é ser sentimental”, diz Golias, morto há dois anos, em depoimento inédito

Ronald Golias concedeu, ao que parece, poucas entrevistas. Depoimentos de amigos contam sobre a atitude reservada do humorista, avessa à reivindicação de um reconhecimento maior de sua importância para a formação da televisão no Brasil.

A entrevista a seguir, inédita, foi realizada no dia 28 de setembro de 1998, como parte de um trabalho feito para a imprensa sobre o humor brasileiro na TV, que não chegou a ser publicado.

Naquele espaço de tempo, a imagem de Golias havia passado por um processo que envolvia desde remakes nem sempre felizes com seus tipos mais festejados até a exibição de originais dos anos 60 e 70 de suas aparições heróicas como Bronco, nas gravações que sobreviveram aos incêndios na TV Record.

A entrevista representa um documento que permite delinear uma personalidade devotada a um tipo de humor que se contrapõe à função consagrada de sátira social, ao mesmo tempo em que abre mão de qualquer ironia.

Nesse sentido, em que pesem as limitações do texto, que reduzem dramaticamente dois elementos fundamentais do virtuosismo das performances do humorista diante das câmeras da televisão, a prosódia e o gestual, outros fatores podem ser ressaltados em relação à concepção de comicidade do entrevistado: a adesão a um humorismo que sempre burlou o roteiro, aderindo ao “caco” e ao improviso, uma ligação com universo infantil e com as “coisas verídicas que se tornam engraçadas”.

Diante de perguntas que buscaram registrar algum tipo de crítica, surgiram respostas às vezes desconcertantes pelo imprevisto, mas que conheciam a dinâmica do prosaico como mais significativa e engraçada do que as pautas e perspectivas “políticas”. Por outro lado, a publicação da entrevista, dois anos depois da morte de Golias (a 27 de setembro de 2005, aos 76 anos), permite homenagear este que foi um dos maiores comediantes brasileiros, mas que dizia não acreditar em calendários.

A seguir, Golias diz que ser sentimental é o fator mais importante para se tornar um bom humorista, e dá a sua fórmula para a felicidade coletiva: “Se nós, na rua, em todos os lugares que formos, olharmos o nosso semelhante como um bebezão, e o beijarmos como quando ele era bebezinho, o mundo vai ser bem melhor”.

*

Quando foi que você percebeu que iria trabalhar como humorista?

Ronald Golias: Eu acho que a vida segue seu rumo normal e acredito que a natureza já propõe para você um determinado destino. Eu era saltador de plataforma em piscinas, militante do Clube de Regatas Tietê. Depois, comecei a fazer o Show Aquático, convidado pelo Bob Knapp. Fazia o Aqualouco: despencava lá, com aqueles maiôs listrados. Mas me parece que os americanos só saltavam de forma engraçada, mas não falavam nada. E eu, durante o percurso do salto, da queda, eu falava coisas e o pessoal ria... Aí os colegas todos perguntaram: “Você nunca fez rádio, cinema?”. Eu acabei me entusiasmando pelo negócio e fui para a Rádio Cultura de São Paulo, onde eu comecei.


Quantos anos você tinha nessa época?

Golias: Olha, eu não acredito em calendário, então eu não guardo datas. Mas, faz bastante tempo, não é? Depois, a convite do Vitor Costa, eu fui para a Rádio Nacional. Aí o Manoel de Nóbrega também me convidou para fazer o programa dele. Era um programa de duas horas, na Rádio Nacional de São Paulo, ouvidíssimo! Uma novelinha muito engraçada chamada “A Fera do Mar”.


Qual que era a história?

Golias: O Águia Negra era um herói, e o Caçador ficava sempre com ele nas jogadas. Era uma história de herói, tipo Superman, Batman, coisas assim.


Mas era uma paródia?

Golias: Era engraçado. Era muito engraçado! (atuando) “Cuidado eles vêm vindo aí! Pule pra cá! Rasgou a calça...”. Eu fazia o papel de Caçador, e o Carlos Alberto (de Nóbrega), de Águia Negra. A gente também fazia shows, peças em circo. Eu pertencia a dois grupos, a Companhia de Artistas de Rádio Unidas, a Caru, uma coisa assim, e também ia na Caravana do Peru que Fala, que era o Sílvio Santos. Porque a força do rádio era muito grande. Daí veio a televisão: TV Rio, Organizações Vitor Costa, TV Paulista, TV Record, TV Tupi na Urca. E, mais tarde, então, eu passei a fazer aqui na Record o teatro televisado, ao vivo, a “Família Trapo”. Cinco anos, uma peça por semana.


Escritas por Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega?

Golias: Isso. E eu improvisava muito porque tenho preguiça de escrever. E em todos os quadros que eu faço gosto de improvisar. Eu me entusiasmo pelo texto e vou enxertando as coisas. Na “Família Trapo”, eu não me continha, não é? Eu me soltava, e o elenco já estava acostumado comigo.


Quem criou o Bronco, o seu personagem na “Família Trapo”?

Golias: Os meus tipos, eu criei todos.


Tinha uma coisa italiana neles...

Golias: Sem dúvida. As peças tinham um humor muito puxado para o humor italiano que eu admiro profundamente. E, ali, era o tipo de humor que eu gosto de fazer: o humor do cotidiano. Das coisas verídicas que se tornam engraçadas.


Você acha a vida engraçada?

Golias: Eu acho que o humorismo é uma explosão de recalque. Você muitas vezes faz humorismo com coisas sérias. O sujeito leva um tombo. É engraçado. O cotidiano, as dificuldades, às vezes, do camarada pagar as contas. E depois vem a intimação! Eu tinha um quadro que era um escritório de advocacia. E eram muito engraçadas as coisas que levavam para os advogados resolverem. Eu gosto muito mais de situações verdadeiras do que de piada. Gosto de contar piada ligada a um assunto que pode ser verdade. Coisas verídicas que também se tornaram piada. “Ora, isso que aconteceu com você é uma piada!”, entendeu?


E na sua família, como era?

Golias: Principalmente o pessoal da minha mãe, todos italianos. Então tinha aqueles negócios (atuando): “Olha, ela tá chegando! Precisa matar mais uma galinha!”, “É, o armoço tem que ser maior!”, não é? “Eu num vô, eu num vô!” Até em dia de Finados, no cemitério, alguns se sentavam de costas, um para o outro, porque não se falavam. (retomando) “Olha, o Vô comeu muita macarronada. Ele tá passando mal lá em baixo!” “Eu tava vendo que tinha uma travessa vazia!” “Não! Tava cheia, ele comeu tudo!”


Você tem algum projeto em vista, para a televisão?

Golias: Não. Eles acontecem. Na vida tudo acontece e nada vem por acaso. Agora, o que deu certo fica. O personagem, ele é sempre igual, em qualquer situação, em uma comédia, dentro de um banco... A gente pode ir aperfeiçoando. Ele começa a soltar mais coisas que são do feitio dele. Por exemplo, o Bronco, de repente começou a falar que tinha uma fazenda “sete por quatro”. Sete metros por quatro metros. E ele falava de tal maneira que conseguia convencer as pessoas mais pobres, os ricos, os milionários, de que ele realmente tinha uma fazenda. Ele falava com uma convicção absoluta: “Agora eu não sei, eu mandei cercar, por enquanto, porque talvez eu vá arrendar para um amigo meu, japonês, que vai fazer um prantio. Mas, eu tô querendo dividir: metade prantio, outra metade eu sorto o gado”. Entendeu? “Só reservo uma área para fazer a sede”, “Mas quantas cabeças?”, “Ah, umas mil cabeças!”, “Mas como mil cabeças?”, “Vaca em beliche, porco no porão”. E isso ia ficando nos que conviviam, convivem com o Bronco.


Você acha que o humorismo é uma idéia utópica do mundo, como essa fazenda que não existe, mas você cria na sua cabeça?

Golias: Eu vou te falar uma coisa, as pessoas humildes riam e gostavam porque o humorismo pode levar ao otimismo. Com toda a certeza para você. Porque uma pessoa que está sorrindo, que está alegre, é uma pessoa sempre bem-vinda no convívio. Porque o Bronco, com ou sem dinheiro, está sempre feliz.


Ele era um agregado.

Golias: Não. O Bronco é um tipo assim: você convida ele para uma festa, ele aceita, diz que vai, é o primeiro a chegar, o último a sair, conversa com todo mundo e não critica ninguém. Ele é uma alma boa, uma alma pura.


Mas ele é malandro também.

Golias: Ele é convicto de que sabe tudo. Ele liga para o banco para ver o saldo: “Eu pedi dez talões e mandaram um só”, “É... mas você não precisa de mais”, “Isso é probrema meu.” “Por exemplo, hoje fiquei atrapalhado porque eu tinha que fazer cinco cheques de 2 reais e 47 centavos. E, agora, como é que eu vou fazer? Porque eu tenho que contabilizar isso aqui.”


Qual foi momento mais feliz da sua carreira?

Golias: Sempre pode acontecer um fato novo para você. O que eu não posso deixar de citar é o carinho que eu sempre recebi. Foi uma missão que foi dada a mim. Uma força, digamos, da natureza, espiritual.


Você é religioso?

Golias: Eu acredito muito na beleza da formação do universo. Por exemplo, nós estamos aqui conversando: nós temos mãe. A mulher, a criança, a formação de um bebê, o sol, a chuva, o crescimento, o sentimentalismo, as dificuldades. Tudo da vida faz parte de uma beleza global. Eu vejo a vida assim. Eu não me apoio em religião. Respeito todas elas. Eu gosto de criar as coisas, eu gosto de eu criar. Você veja, uma coisa até que eu quero lançar: de que forma poderia ser melhor o mundo? Lance! Eu gostaria que você colocasse isso: quando as pessoas são bebezinhas, todo mundo acaricia, beija, abraça: “Olha que bonitinho, que graça, o nenezinho, cadê nenê?!”. E brincam com a criança, e as reações da criança são gostosas, e esse bebezinho cresce, ele vai crescendo. Então ele fica um bebezão. E por que nós não continuamos a beijar o bebê? Ele cresceu, ele ficou um bebezão. Se nós, na rua, em todos os lugares que formos, olharmos o nosso semelhante como um bebezão e o beijarmos como quando ele era bebezinho, o mundo vai ser bem melhor.


Que conselho você daria para uma pessoa que quer ser humorista?

Golias: Para se tornar humorista, um fator muito importante: precisa ser sentimental. Uma pessoa quando tem bons sentimentos pode se tornar um grande humorista. Você tem que ser perseverante, enfrentar os momentos difíceis, duros, os momentos de sacrifício, e vamos aprendendo... Eu recomendo a todos também que assistam os colegas no teatro. É muito importante a gente freqüentar o teatro. Assim como ler. Leitura.


Ocorre algum nome da literatura que você gosta?

Golias: De um modo geral, um escritor tem uma determinada linha. Eu admiro a especialidade, o pensamento principal de cada um. Existem aqueles que têm um leque maior, são versáteis na maneira de escrever. Escrevem, por exemplo, um livro sobre a selva, sobre a vida dos animais e, de repente, escrevem um livro que é uma história fantástica de amor. Por exemplo, o escritor que fez “ET”. Não me recordo agora o nome...


Spielberg?

Golias: Não. O que escreveu. Agora, o Spielberg é um colosso.


Você achou engraçada a história de “ET”?

Golias: Eu achei engraçado e tremendamente sentimental. O final, por exemplo. Você vê que, quando ele vai embora, fala para o menino: “Come with me... Venha, venha comigo, vamos lá pra casa”. E o menino diz: “Eu não posso ir com você”. Mas ele fala: “Eu vou, eu vou embora”. E a única coisa que levou daqui foi um vasinho com uma flor, não é? Uma florzinha. Pô, aí eu... eu despenquei! Chorei… O gravador tá pegando?


Espero que sim.

Golias: Porque uma vez eu falei três horas e tive que gravar tudo de novo... Cada ser humano, eu tenho certeza absoluta, o que existe dentro dele, talvez ele não tenha descoberto ainda, mas toda a pessoa tem um potencial. Em todas as pessoas.


Você teve um “estalo”, um dia?

Golias: Eu fui me entusiasmando com a reação e com o incentivo das pessoas.


Mas lá no princípio...

Golias: Eu gostava de andar como anda o Pacífico (um dos seus personagens). Eu gostava de andar como anda o Bronco e, de repente, nasceram o Bronco e o Pacífico. Eu começava a andar de uma determinada maneira e me entusiasmava com aquilo. Aí eu fazia na televisão e dava certo.


Você chegou a usar o humor para seduzir alguém de quem gostava?

 
1