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A passagem do casal Buergel e Noack pelo mundo ajudou a soltar das gavetas muitos fantasmas inconformados. Sem ser feminista, a mostra exibe nomes de mulheres cuja proeminência vinha sendo relegada em segundo plano: Grete Stern, Tanaka Atsuko, Bela Kolarova, Mira Schendel, Graciela Carnevale, Lee Lozano, Nasreen Mohamedi, Martha Rosler, Lotty Rosenfeld -e algumas outras cujo talento é uma invenção curatorial. Os líderes, entretanto, ainda são homens: Peter Friedl, John McCracken, Kerry James Marshall, Jan Davila e James Coleman.

Na categoria de coletivos históricos, Tucumán Arde não foi engolido pelas paredes coloridas e se mantém não somente resistente à institucionalização museológica, mas também como um arquivo ainda a ser desbravado.

Cabe notar que o continente latino-americano talvez seja o mais prejudicado, a despeito de presenças de peso como Mira Schendel, Luis Sacilotto e León Ferrari. A participação de Sacilotto -artista que, como poucos, deixou efetivamente uma obra- está reduzida a uma escultura de ferro de 36,8 cm x 51,4 cm x 20,3 cm. Sua história entre os concretistas foi apagada, sobrando apenas o gonzo para articular a geometria construtiva com as máscaras africanas.

Quer goste ou não das obras, Buergel tem um projeto. Em vários momentos, foi reaberta a ferida da separação da Europa entre Leste e Ocidente. O arquivo de Nedro Solakov, “Top Secret” (1989), é um dos momentos-chave: projeta-nos entre a ficção e a história ao desenrolar uma biografia ambígua em relação ao regime secreto da Bulgária. Tanto esse processo histórico como a própria modernidade ainda precisam ser descobertos...

Mas, embora o projeto tenha prescindido de uma relação com o discurso, não conseguiu se ver livre da questão do limite a partir do qual as obras se tornam fantoches a serviço de um objetivo alheio. Toda vez que um curador quiser retirar uma obra de seu contexto, a Documenta 12 deverá ser lembrada.

O partido da modernidade como projeto “inacabado, que pede para ser moldado e interpretado” correspondia a um necessário retorno do recalcado, uma vontade da forma após anos de práticas experimentais colocadas sob suspeitas por terem esvaziado o sentido do processo. Buergel garante sua marca na história da emblemática mostra que, de cinco em cinco anos, celebra indiretamente a reconstrução da Alemanha ocidental.


O gênio no banco dos réus

Estamos ainda na Neue Galerie. Aparecem desenhos de Peter Friedl de 1968, feitos quando tinha oito anos de idade. É um dos poucos casos em que há uma legenda no espaço. A origem anônima da arte estaria em jogo e Buergel se apóia no mito não resolvido de Picasso. É um outro recurso para evocar o espírito da primeira documenta, após tantas exposições baseadas em outros gurus, como Beuys ou Broodthaers.

Mas, ao lado dessa sala, há uma outra e vê-se na seqüência os desenhos do artista Nedro Solakov. A proximidade com grafismos, cuja importância só existe pela chancela do nome de Friedl, vem desfigurar um trabalho conceitual. Aqui, a sobreposição formal se impõe mais que um conceito e entrega o caráter da Documenta 12, ou seja, a indiferenciação entre o que é arte e o que é a construção de um futuro mito.

No catálogo, o curador lembra que Picasso ensinou a ver o mundo como uma criança. Desconheço sua fonte, mas há uma frase sabidamente atribuída a Matisse: “É preciso olhar toda a vida como quando se era criança; e a perda dessa possibilidade vos retira a possibilidade de expressar-se de modo original, ou seja, pessoal”. Logo Matisse, que não foi conhecido como “gênio” da história da arte, muito mais próximo da emoção artística do que de uma teoria da arte.

“Angelus Novus” poderia ter sido abordado na revista “Modernity”, sem precisar ser exposta, não fosse a ambição da Documenta 12 ser conhecida como a Documenta-das-Documentas, uma meta-Documenta.

O “grande” quadro, afinal, é um “pequeno” Gerhard Richter, que domina a rede de articulações. A tela intitulada “Betty” (1977), entre o retrato e a natureza-morta, mostra uma menina deitada, vista apenas do pescoço para cima, com o rosto voltado para os visitantes.

Sabe-se que uma criança é também imagem do anjo. A metade de seu rosto fica na sombra, deixando um olho bem aberto no centro dessa pintura que foi realizada a partir de uma fotografia da filha do artista. Kaja Silverman escreve que não há como resistir à vontade de encontrar este olhar e, para fazê-lo, dobramos o pescoço de lado, oferecendo-o para a guilhotina.

Benjamin sabia que não há contemplação sem horror: “Não há documento da civilização que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie”. Ninguém duvida que Buergel saiba o quanto de vida nua concentrada há numa criança.

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Lisette Lagnado
Foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo. É crítica de arte e editora de Trópico e da seção "em obras" desta revista. Foi coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural). Publicou "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA), entre outros.

1 - O catálogo traz duas informações curiosas. O arquivo está apresentado como “grupo de artistas de vanguarda” e a data se estende até 2007.


2 - Essas palavras se referem à Documenta 12. Op. cit., p. 219.


3 - Cf. H. Matisse, op. cit.


4 - Cf. “Catálogo”, Documenta 12, p. 104. Kassel, 2007.

 
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