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audiovisual
CULT

O alquimista Jodorowsky
Por Fernando Masini


Cena do filme "Fando e Lis", de Alejandro Jodorowsky
Reprodução

O cineasta chileno tem seus primeiros filmes, como "Fando e Lis", relançados em DVD na Grã-Bretanha

Conhecido por seu cinema de transgressão e por mesclar símbolos místicos com imagens surreais, o diretor e dramaturgo Alejandro Jodorowsky (nascido em 1929) faz parte de uma leva de artistas pouco preocupados em agradar o público e fazer concessões.

Suas obras não poupam banhos de sangue, estão carregadas de personagens mutilados e provocações profanas. Ele se autodefine como “ateu místico”. Um poeta visual de sensibilidade esotérica, capaz de enfiar no mesmo caldeirão cartas de tarô, ensinamentos budistas e influências católicas. E que faz da mistura seu caminho próprio para alcançar o nirvana.

Até pouco tempo atrás, era praticamente impossível ver os filmes de Jodorowsky. Por conta de um litígio envolvendo o diretor e seu produtor, Allen Klein, suas duas obras-primas, “El Topo” (O Topo, 1970) e “The Holy Mountain” (A Montanha Sagrada, 1973), foram retiradas de circulação e ameaçadas de serem queimadas por Klein.

Nesse longo intervalo entre 1974 e 2004, a única maneira de exibir as películas era por meio ilícito. O próprio Jodorowsky, irritado com a atitude de seu produtor, passou a incentivar publicamente a cópia ilegal dos filmes e a distribuição por vias alternativas.

O desentendimento terminou quando o filho de Klein ligou para Jodorowsky sugerindo um encontro e uma reconciliação. Isso há três anos. Houve a partir de então a liberação das cópias e um relançamento de seus filmes. “Fando e Lis” (1968) e “El Topo” foram exibidos no Festival de Cannes de 2006, após passarem por um processo de restauração.

O resultado está agora disponível em DVD na coleção lançada em Londres pela Tartan Vídeo. São seis discos contendo os três primeiros filmes de Jodorowsky –“Fando e Lis”, “El Topo” e “The Holy Mountain”-, o curta-metragem “La Cravate” (de 1957), um documentário de Louis Mouchet, com entrevistas e comentários de amigos e parceiros de trabalho do diretor, além da trilha sonora disponível em CD.


Um começo tumultuado

A estréia de Jodorowsky no cinema não poderia ter sido mais conturbada. Em 1968, quando foi apresentado o filme “Fando e Lis” aos mexicanos no Festival de Acapulco, houve vaias e quebra-quebra durante a sessão.

Os espectadores, na maioria jovens, ficaram inconformados com a violência aparentemente gratuita exibida na tela. No término da exibição, Jodorowsky teve de deixar o teatro pelas portas do fundo, escoltado até entrar no carro e debandar dali. Após a tumultuada noite, o filme foi banido em território mexicano.

Apesar de o enredo por si só gerar suficiente polêmica e dar margem a controvérsias, o contexto no México era bastante delicado e pode aventar, em certa medida, a fúria da platéia. O ano de 1968 foi marcado por intensos confrontos entre estudantes e tropas da polícia mexicana, lideradas pelo governo linha-dura de Gustavo Días Ordaz. No dia 2 de outubro, na praça de Três Culturas, aconteceu um extermínio em massa perpetrado pela polícia e por grupos paramilitares contra os estudantes que protestavam ocupando o local.

A ação de choque foi batizada de “massacre de Tlatelolco”, em referência aos conjuntos habitacionais da região. Talvez por julgar o teor da obra como um ato alienado diante do calor do momento, a verdade é que o filme teve sua repercussão prejudicada.

Antes de ser adaptado para as telas, Jodorowsky e o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal encenaram, por um ano, a peça “Fando e Lis”. Entusiasmado com o efeito conquistado no palco, Jodorowsky resolveu transpô-la para o cinema. “Eu adoro a peça de Arrabal porque tem uma espécie de pureza infantil num mundo sadomasoquista”, disse.

A história do filme tem pequenas alterações em comparação ao texto original escrito por Arrabal. Jodorowsky optou por uma adaptação sem roteiro, confiando apenas nas recordações que tinha da peça. Fez desse processo uma nova obra, com elementos surreais introduzidos na jornada do casal de adolescentes.

Fando mantém uma relação de dependência com Lis, uma garota indefesa e traumatizada por fantasmas da infância. Os dois caminham pelo deserto, atrás de uma terra imaginária, representada como um ideal inalcançável, chamada Tar.

Alternam-se no caminho solitário traçado pelo casal, situações insólitas, como uma passeata de travestis e a voracidade de velhas burguesas sedentas pelo corpo de um jovem rapaz. À medida que Fando tenta se libertar de Lis, ele percebe como se tornou impossível seguir o caminho sozinho.

De fato, aparece em um dos letreiros do filme: “Trata-se de um único corpo com duas cabeças”. Jodorowsky faz da obra uma viagem psicológica e espiritual rumo aos antepassados, com a difícil missão de romper os laços e seguir em frente.

“Fando maltrata a desamparada Lis como se ela fosse um brinquedo, batendo e ameaçando deixá-la, embora isso o deixe amargurado; ele deve destruí-la para perceber o quanto ele na verdade a amou”, diz David Church em artigo para a revista “Senses of Cinema”.

A fábula apresentada em “Fando e Lis” guarda uma aparência primitiva, de um mundo remoto, com referências ao convívio de Adão e Eva nos primórdios da vida; e carrega também traços barrocos ao estilo de Glauber Rocha –uma influência confessada pelo diretor–, além de flertar com a atitude iconoclasta de Buñuel.


”El Topo” e o “midnight movie”

O filme seguinte de Jodorowsky, “El Topo”, partiu da mesma premissa: seria uma viagem espiritual em busca da transcendência. É importante ressaltar que em ambos os filmes o que está em jogo é uma revolução em termos de indivíduo, bem longe de ser um panfleto com o objetivo de transformação social. Com “El Topo”, ele fez uma paródia ao western norte-americano e foi responsável pelo nascimento de um novo conceito em termos de marketing do filme underground, que deu impulso à formação do público “cult”.

“El Topo” começa com uma passagem repetida várias vezes por Jodorowsky: a necessidade de abolir tudo o que remete ao passado para poder avançar no seu próprio caminho. Um pistoleiro ordena ao filho nu que ele enterre na areia do deserto a fotografia da mãe e um brinquedo. Os dois seguem a uma aldeia onde acabou de ocorrer um massacre. El Topo, o pistoleiro, sai em busca dos culpados pela tragédia. Mata e castra o mandante do crime, Colonel, e executa seus comparsas.

Na aldeia, resgata uma mulher e resolve abandonar o filho e fugir com ela. Ao deixar a vila, proclama que é Deus e goza do seu poder fazendo milagres no deserto, como prover alimento para seu sustento e criar fontes de água. Como prova de seu amor pela garota, promete-lhe matar os quatro grandes mestres do deserto e assim se tornar o maior pistoleiro do local.

Jodorowsky resumiu o filme como “a história de um homem em busca da espiritualidade, em busca da paz”. A verdade é que várias cenas têm uma relação direta com a própria vida do diretor, cuja ligação com o pai sempre foi bastante melindrosa. “Certo dia, eu era uma criança de seis anos e fui com meu pai à praia. O carro quebrou e meu pai teve de me carregar por uns quatro quilômetros até o mar. Acho que esse foi o único contato de pele que tive com ele”, diz, em entrevista no documentário que acompanha a coleção.

“El Topo” estreou sem alarde nos EUA no dia 18 de dezembro de 1970, numa sessão programada para a uma da madrugada, no teatro The Elgin. E só conseguiu ser exibido graças aos esforços do distribuidor Ben Barenholtz.

Um fato inusitado, porém, garantiu a sua repercussão imediata. John Lennon e sua esposa Yoko Ono assistiram ao filme e ficaram fascinados com o que viram. O músico ajudou a divulgá-lo entre os críticos e fãs, além de entrar em contato com seu manager a fim de apoiar Jodorowsky no seu próximo projeto.

Com tamanha credibilidade, e difundido pelos cantos no boca-a-boca, “El Topo” conseguiu uma expressiva bilheteria e ficou marcado como o primeiro “midnight movie”, expressão usada pelos americanos para classificar filmes de baixo orçamento e de “conteúdo proibido” que eram encaixados nos últimos horários dos cinemas.

“O êxito de ‘El Topo’ mudou para sempre a maneira como filmes underground eram promovidos: o fenômeno ‘midnight movie’ tinha nascido. Jovens cineastas como John Waters e David Lynch ficariam famosos aproveitando a onda. Foi propagada uma cultura de projeção que privilegiou filmes marginais, como o gângster ‘The Harder They Come’, além de renovar o interesse em autores negligenciados, como Tod Browning (‘Freaks’) e Ed Wood (‘Glen or Glenda?’)”, analisa Ben Cobb, autor do livro “Anarchy and Alchemy: The Films of Alejandro Jodorowsky”.


Odisséia espiritual

Três anos após o sucesso de “El Topo”, Jodorowsky embarcou em mais uma odisséia espiritual com “The Holy Mountain”, inspirada na expedição a uma montanha mágica descrita por René Daumal em “Mount Analogue”. O próprio diretor interpreta um alquimista que convoca um grupo de pessoas para alcançar o pico de uma colina na região de Lotus Island, onde se encontram sacerdotes imortais. A missão é chegar até lá e desvendar o segredo da eternidade.

Quase todos os convocados são típicos burgueses que passaram a vida com a única ambição de acumular fortuna. Antes de iniciar o périplo rumo à montanha, eles são obrigados a abdicar do dinheiro e deixar de lado a individualidade em nome do grupo. É como se fosse um processo de purificação ordenado pelo alquimista. Ao alcançarem o topo, são surpreendidos pela presença de bonecos de pano, vestidos como se fossem os sacerdotes imortais.

Todos começam a dar risada e a câmera afasta-se num “zoom out”, revelando o microfone, o homem da claquete, as luzes e toda a equipe de filmagem. O segredo da imortalidade não é desvendado, e Jodorowsky mostra-nos como a experiência cinematográfica é uma ferramenta limitada para se alcançar a transcendência.

“Quebrar a ilusão do filme é necessário porque a vida real nos espera, ele diz, sugerindo que o filme como uma experiência espiritual tem limites. E os espectadores devem ultrapassá-los para uma verdadeira transformação nas suas vidas”, afirma David Church.


O Movimento Pânico

Jodorowsky vive atualmente na França e passa seu tempo organizando encontros de leitura voluntários. Toda quarta-feira, reúne interessados e discípulos para ler trechos de obras na maioria das vezes espirituais. Há 14 anos, cumpre essa mesma rotina, segundo o próprio, sem cobrar nada, apenas juntando contribuições para quitar o aluguel da casa onde leciona. Atua como um líder espiritual, interpretando com gestos cada palavra e buscando investigar a alma humana.

“Há um tempo eu comecei a tratar das doenças emocionais do ser humano”, diz o diretor no documentário “La Constellation Jodorowsky” (1994), parte integrante da coleção. Por prestar-se a diversas atividades, como o teatro, a literatura, a história em quadrinhos e a psicologia, Jodorowsky não pôde concentrar seus esforços unicamente na carreira cinematográfica. Fez até o momento sete longas-metragens, uma produção considerada pelo próprio cineasta como diminuta.

Foi no teatro, no entanto, que a predileção artística de Jodorowsky irrompeu. Apesar de ter nascido em fevereiro de 1929 numa pequena cidade litorânea do Chile, chamada Iquique, iniciou sua carreira como mímico e ator em um circo na capital Santiago. Aos 23 anos, abriu sua própria academia de teatro com 50 atores.

Ao notar o espaço restrito para aceitação do seu trabalho, resolveu mudar-se para a França, onde se juntou à trupe de Etienne Decroux, ator e diretor francês, para estudar expressão corporal e técnicas de imitação. Com Marcel Marceau, um dos pupilos de Decroux, escreveu várias peças. Nos anos 50, transferiu sua produção teatral para os palcos do México. Participou de mais de 100 peças, entre elas, uma adaptação escandalosa de “Fim de Partida”, do irlandês Samuel Beckett.

Graças a seus encontros com o escritor francês e principal teórico do surrealismo, André Breton, Jodorowsky passou a incorporar elementos oníricos à sua obra, embora não compactuasse com certos preceitos do movimento. Tendia mais a buscar referências na cultura popular. Em 1962, uniu-se ao dramaturgo espanhol Fernando Arrabal e ao pintor francês Roland Topor para fundar o Movimento Pânico, uma corrente de pensamento e expressão artística concebida em homenagem ao deus grego Pan.

A partir de três elementos básicos –terror, humor e simultaneidade-, o movimento postulava transcender os limites impostos pela sociedade e buscava rechaçar a seriedade artística com uma explosão criativa sem regras. Nas palavras de Fernando Arrabal: “O pânico é a crítica da razão pura, é o convívio sem leis e sem mando, é a ode ao talento louco, é o antimovimento, é a arte de viver (que leva em conta a confusão e o azar)”. Peças como “Cabaret Trágico” foram inspiradas nos mandamentos preconizados pelo movimento.

 
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