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prosa.poesia
LENDA
Pra lá do Marrakech Ao cantar os rituais de um velho bordel masculino, Juan Carlos Bautista criou um livro mítico da poesia mexicana Durante muito tempo o “Cantar del Marrakech”, de Juan Carlos Bautista (Tonalá, México, 1964) foi quase uma lenda dentro de certos círculos literários. Quem o lera no tempo da sua aparição recomendava às novas gerações essa leitura que se julgava imprescindível. Contudo, por ter sido aquele livro publicado por uma editora oficial, a difusão tinha-se limitado bastante e foi por isso que os jovens só conseguíamos ler em versões xerografadas ou em algum exemplar emprestado nos anos mais recentes. Acresce que Bautista se retirou por algum tempo do ambiente das letras e esse seu ocultamento também contribuíra para firmar a história oral e quase mítica em torno do livro. O Marrakech, ao qual as travestis “chamavam alegremente:/ O Garra/ O Garrakech ou o Marranech”, era um bordel masculino situado numa rua atrás do Palácio de Belas Artes, no chamado centro histórico da Cidade do México. Funcionou do fim dos anos 70 até 1985, quando o grande terremoto de 19 de setembro sacudiu a cidade e devastou boa parte das construções históricas desse centro, entre elas, claro, o local do Marrakech. Até hoje não voltou a surgir um lugar tão emblemático nas noites mexicanas -porém longas e intensas-, pois com a “normalização” da vida gay esse tipo de estabelecimento, com toda a adrenalina que continha, já não mais parece necessário. Embora esteja estruturado sobre poemas onde cada um aborda personagens daquele antro (as “loucas”, os “michês”, os “bofes”, “Diabla la Grande”, Hugo, ou “Jana de la noche”) e conte uma história acontecida entre as paredes do local, o fato é que o texto, como conjunto, pode ser lido como um só e único poema, certamente esse “cântico” mencionado no título, e sem que por isso a potência lírica diminua. Foi reeditado em 2005 (também por uma editora estatal em co-edição com uma pequena editora já desaparecida), e a leitura do poema ganhou uma aura que veio confirmar seu lugar, merecido, diga-se, nas antologias e nos estudos dos últimos anos, elaborados por críticos e poetas bastante diferentes. Assim, unanimemente consagrado pela crítica e pelos poetas, o “Cantar del Marrakech” descreve um ritual exacerbado, em particular no que se refere à paisagem sexual. De fato, pode-se dizer que o gay imprime ao conjunto um tom de ritual: o cerimonial como característica intrínseca das minorias sexuais, neste caso o travestismo e o universo “macho” que cede ao encanto do homoerotismo, num gesto bem reconhecível do homem latino-americano. Quando escrevo isto ocorrem-me muitas imagens, mas sou tomado por uma em particular, do “Diário de um Ladrão”, de Jean Genet: quando um grupo de Carolinas desce uma das “ramblas” barcelonesas para depositar um mijadouro que fora arrancado pouco antes da parede, onde milhares de marinheiros urinaram ao longo dos anos. “Quando se constatou sua morte definitiva, com mantos, com rendas, com vestidos de seda, com jaquetas apertadas, as Carolinas -nem todas, mas uma delegação solenemente escolhida- vieram ao terreno depositar um buquê de rosas vermelhas cercado de um véu de crepom”, escreve o francês. Também como Genet, Bautista atribui um estatuto seráfico aos “bofes” e aos “michês”, esses anjos rilkeanos “de morena brutalidade”, caídos em Sodoma esquina com Gomorra. Beatifica os travestis, santifica os “recos” e os soldados, leva até os máximos altares a Pica, santa patrona do Marrakech: “Catedral afundada no sonho/ entre onírias espreitando”. Ali, onde nascem as relações apaixonadas de uma noite, e também onde convivem as desgraças amorosas. No sono e no sonho letárgico da noite e seus excessos, onde surge o sexo potenciado pelo álcool, pode-se ver que “há um homem que se ajoelha frente a uma pica como frente a uma cruz” e, por seu lado, nos oratórios “as loucas começavam a rezar”. De tal maneira que este bem poderia ser o pós-moderno “Cântico dos Cânticos” dos homossexuais e dos travestis. Certamente Bautista começou a escrever seu livro depois que o Marrakech desapareceu (no fim descreve-se um peregrinar pela Alameda Central, esse conhecido lugar de pegação próximo ao local onde se situava o bordel -na falta do santuário de antes, quase como na procissão das Carolinas narrada por Genet), e o autor foi trabalhando o poema, “à pena lenta” durante algum tempo, até que em 1993 o texto conheceu sua primeira edição. O primeiro livro de poemas de Bautista, “Lenguas en Erección” (1990) é muito diferente do “Cantar”: o futuro tom passa nele quase despercebido e apenas alguns poemas de uma seção daquele livrinho anunciam a voz inconfundível do seguinte. Em “Bestial”, o livro de poemas de 2003, pode-se reconhecer só em parte a estética daquele “Marrakech”. Numa leitura muito contemporânea, o “Cantar del Marrakech” exibe uma surpreendente correspondência literária com as crônicas extraordinárias do chileno Pedro Lemebel. Em “Loco Afán” (1998), por exemplo, também balançam as ancas fictícias dos travestis nas ruas noturnas de Santiago, onde os militares procuram saciar a sede de sexo. Há, além disso, a prosa barroca, a linguagem literária enriquecida pela gíria, o tom corrosivo, o ambiente sórdido e ao mesmo tempo alegre, as imagens kitsch, o insulto a flor de lábios saindo dessas bocas viperinas, tudo acontecendo nessa “Capela Sixtina da sodomia” (Lemebel). Bautista inscreve-se na estirpe de poetas homossexuais das letras mexicanas, ao lado de nomes como Xavier Villaurrutia, Guillermo Fernández, Baudelio Lara, mas especialmente junto de Salvador Novo e sua “Sátira”, e da fortaleza da linguagem lúdica de Abigael Bohórquez, o escritor de Sonora (Norte do México). Aparentemente Bautista tem sido sempre um “habitué” de certos lugares gays. Agora pode ser visto no El Viena ou no El Oasis, duas cantinas contíguas, também no centro da cidade, freqüentadas pela mesma fauna urbana que comparece, como outrora no Marrakech, para cantar “rancheras” ou baladas de divas fugazes ao calor da tequila e da cerveja, e onde surge, como no “Cantar”, “um bando de picas” que no poema gritavam “cuir! cuir! cuir!”
I Atrás de cortinas de nervos e tonturas, Os caça-níqueis punham seus corvos para voar As bagunceiras, as meigas, No Marrakech eram soberanas, Elas, e a sede Iam ao Marrakech exalando cheiro de portos Rainhas de melancólico fumar Iam ao Marrakech e o chamavam alegremente: —Vamos ao Garra, querida. E as nádegas se enchiam.
Com a fuça inclinada sobre o peito, Anjos suntuosos, Rebentos do Senhor e da Satanasa, Obeliscos que se alçavam contra a ruína da noite, Na penumbra do Marrakech
I Tras cortinas de nervios y mareos, Las rocolas echaban a volar sus cuervos Las liosas, las dulces, En el Marrakech eran soberanas, Ellas, y la sed, Iban al Marrakech exhalando olor de puertos Reinas de melancólico fumar Iban al Marrakech y lo llamaban alegremente —Vamos al Garra, querida. Y las nalgas se inflaban.
Con la jeta reclinada en el pecho, Ángeles suntuosos, Retoños del Señor y satanasa, |