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Janine: Como você pergunta minha opinião, direi que sempre defendi a avaliação e o juízo de qualidade e mérito nas matérias intelectuais. Entre quem concorda comigo, mas diz banalidades, e quem discorda, mas tem brilho e gênio, sempre preferi ler o segundo. Intelectualmente, devemos sempre apostar nos lados opostos, para melhor emulação acadêmica. Ora, isso é estar à esquerda ou à direita? A nossa esquerda, nas universidades, manifestou-se muitas vezes contra a avaliação, contra o provão, contra o Enad, que é o provão do governo atual... Mas não ver quais são os cursos melhores e os piores é um desserviço à sociedade, e em especial aos mais pobres e menos informados, que não dispõem de elementos suficientes para eles próprios fazerem suas escolhas. Então, se esquerda quer dizer preocupação com justiça social, ser contra os critérios de mérito é ser o quê? Escolher o melhor médico para cuidar de mim é de direita ou de esquerda? Na verdade, aqui está a diferença entre a opção política -que é genérica e diz respeito a valores, a fins- e a expertise ou capacidade -que se refere aos meios mais adequados. O eleitorado deve decidir sobre os fins. Nestes, valem as posições de esquerda e direita. O eleitor quer uma sociedade mais solidária ou mais competitiva? Deve ser informado sobre os custos de cada uma: a solidariedade pode gerar menos riqueza, a competição pode causar mais pobreza. O grande problema de hoje com a democracia é que se pede ao povo, não para escolher os valores (diz-se a ele que há um só), mas para selecionar o gestor. Quem é mais competente? Essa não é uma pergunta para o povo. É a pergunta típica para uma banca julgadora. Quem é mais honesto? Essa é uma pergunta para a polícia ou o Judiciário. O bom do parlamentarismo, em tese, é que o povo escolhe a maioria que vai governar, e esta é livre para selecionar quem será o primeiro-ministro -e trocá-lo, se for o caso. Onde o povo é insuperável, é para escolher os valores.
Janine: Não defendo a pena de morte porque me repugna. Mas perdi a crença de que todas as pessoas sejam recuperáveis, ou de que nenhum crime mereça a morte. Antes, eu era contra a pena de morte por princípio; hoje, por questões operacionais (temos certeza de executar o culpado? Se só executarmos quem é mesmo culpado, seremos mais severos com ele do que com criminosos piores, mas mais espertos, que deixaram menos pistas?). E acho profundamente hipócrita, num país em que tantos morrem nas mãos de justiceiros ou de fome, nos gabarmos de não ter a pena de morte. Temos, sim, e não é aplicada pela Justiça. Para resumir de forma muito dura, se a nossa condição de humanos não é dada naturalmente, mas é uma construção social, isso significa que em certos casos alguém possa se desumanizar. Ao perder a humanidade, talvez ele mereça morrer. Mas não estou convencido de que esse merecimento justifique que o Estado ou outra pessoa o mate.
Janine: O sr. Ota perdoou, sim, mas deixou claro que queria que eles fossem punidos pela lei e cumprissem sua pena na cadeia. Perdoou no sentido de não tomar a si a iniciativa de matá-los, coisa que poderia ter feito. Mas lamentou muito que fossem soltos tão cedo! Aqui, pessoalmente, não sei. Muitos dizem: sou contra a pena de morte, mas, se matarem meu filho, eu mato o assassino. Mas será que a vítima de um crime deve, ainda, arcar com o peso da vingança? Realmente não sei. Além de perder o ente querido, você ainda macularia suas mãos com o sangue do assassino? E, se eu disse que a pena de morte é pouco, é porque não restitui o que se perdeu. A morte de uma pessoa preciosa para nós não se compensa com a morte de um pulha. É uma perda sem redenção.
Janine: O caso do vôo da Gol, faz um ano, parece que teve por maiores culpados os pilotos estrangeiros, que se isentaram do caso. Já a tragédia do vôo 3054 da TAM tem muitos pais. Mas acontece que faço parte do governo, e por isso não me sinto à vontade para comentar as responsabilidades, porque -por meu cargo na Capes- eu não posso criticar autoridades federais. Então, se não posso falar de um lado, prefiro não falar de nenhum. Mas aproveito para comentar a situação do intelectual que está no governo. Minha geração só votou para presidente quando tinha mais de 40 anos. Crescemos acostumados à idéia de que “o governo” é o Outro, quase o Mal. Por isso me espantei quando, de 1995 em diante, pessoas que eu respeito e que simpatizam com o PSDB começavam a destoar do coro fácil que é, a qualquer propósito, falar mal do governo. Não me passava pela cabeça que uma pessoa do meu meio pudesse não falar mal do governo! Era a conversa de bar mais fácil que existia. Mas penso: se é difícil alguém concordar inteiramente até com o parceiro de vida, com a pessoa amada, como esperar que esteja plenamente de acordo com o governo, mesmo o governo de que participa e que é sempre uma composição? Faz parte das coisas, na vida, que são cálculos de pontos positivos e negativos. Você não mantém um casamento se o positivo não for melhor que o negativo. E não fica no governo se não achar que há um balanço bem favorável, seja na sua área, seja no conjunto das ações do governo. O curioso é que os cientistas sabem disso há muito tempo, e mesmo na ditadura colaboraram em ações, como o PADCT, muito positivas para o país. Quem tem mais dificuldade em assumir isso são os intelectuais de Ciências Humanas, que com freqüência lidam com o tudo ou nada, aprovando tudo ou rejeitando tudo. Política não é isso. Supõe composição, aceitação de nossos limites, em suma, fazer o que se pode. Agora, que seria bom nosso povo assumir suas responsabilidades, seria. É ele quem elege prefeitos, governadores e presidentes. É ele quem, diante de qualquer medida restritiva, sai-se com o pronome “eles”, ainda por cima oculto: “Fecharam o aeroporto”, “desviaram o trânsito” etc. Quem é esse “eles”? Precisamos dar nome aos sujeitos da ação e reconhecer nossa responsabilidade pelo que fazem ou deixam de fazer. O voto é o instrumento supremo de decisão numa democracia, mas há também mil formas de participação entre uma eleição e outra, nas quais devemos investir -desde que respeitando o princípio de que não é correto bradar “Fora FHC” nem “Fora Lula”, isto é, de que salvo casos muito sérios a decisão eleitoral deve prevalecer em última análise.
Janine: De fato, falta planejamento no país. Nossa crise aérea tem muitas causas, algumas que talvez nem imaginemos, mas o fato é que aumentou demais o uso dos aeroportos e faltou controle. Como se deixou que a TAM fizesse de Congonhas o seu ponto central, seu “hub”, onde grande parte de seus aviões fazia escala? O resultado é que qualquer solução depende de um novo terminal ou mesmo um novo aeroporto e de duas ferrovias rápidas, uma para Guarulhos, uma para Viracopos, e isso vai demorar anos. Isso tem que ser feito, no entanto. A questão é que também falta dinheiro para muita coisa. E o grande problema é que falta dinheiro, mesmo, para resgatar a dívida social. Isso acaba fazendo de nós, de classe média, prisioneiros em nossos apartamentos. Gastamos um dinheiro em segurança que, aplicado em educação, nos resgataria dessas autoprisões que são os prédios dos ricos. Acho que um dia ainda vão vender apartamentos luxuosos dizendo que têm segurança tão boa quanto Bangu II ou as cadeias de segurança máxima... . Humberto Pereira da Silva
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