CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Há um ponto que me parece interessante em suas observações sobre Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente falou em ética da responsabilidade para pautar as ações do homem público -buscando legitimar com isso sua ação política nos termos de Max Weber. E, você pondera, “teve a cautela de não citar Maquiavel”. Por que FHC teria tido cautela em não citar Maquiavel?

Janine: A questão é que, com exceção dos especialistas em Maquiavel ou em filosofia e ciência política, quase todos os que ouviram falar nele o associam ao mal. Melhor, então, o candidato FHC gritar “aleluia!”, lembra? Maquiavel diz que muitos causaram maiores males querendo praticar o bem do que usando do mal que é necessário na vida social. Mas quem diz que a hipocrisia nacional admite que se diga a verdade?

O Brasil tem pavor de discutir a política enquanto política e se asila no moralismo simplista. Debater política quer dizer escolher o mal menor, saber que não dá para ter tudo ao mesmo tempo, ver o que sacrificamos -com sorte, escalonar o que vamos conquistar. Com sorte, porque no caminho há muitas perdas. É muito mais fácil fingir que dá para ter tudo de uma vez só, recusar sacrifícios e continuar atrasado. Nossa discussão é muito pobre.


No artigo “Ideais com deságio”, você assinala as diferenças de estilo com que FHC e Lula lidam com o poder. Você faz uso da palavra “afeto”: ao contrário de FHC, o registro no qual Lula se insere em seu modo de comunicação prioriza o “afeto” e não a “teoria”. Nesse sentido, entre nossos presidentes recentes, temos diferenças que expressam modos diferentes com que nossa sociedade se reconhece? Diferenças essas que opõe o estilo mais marcado pelo saber doutoral do de quem prima pela sabedoria da experiência de vida?

Janine: Tivemos a sorte de ter dois grandes presidentes um após o outro. Não votei em FHC desde 1985, mas o respeito. Quando o PT e o PSDB desistiram de fazer frente comum em 1994, o primeiro porque José Dirceu forçou sua candidatura em São Paulo, e o segundo porque FHC queria aproximar-se da direita liberal -o que eliminou a opção “Lula presidente-Covas governador”-, eu lamentei muito.

Mas houve um ganho nisso. Nossos dois melhores partidos se opõem desde então, às vezes beirando o ódio fratricida (o que me preocupa), mas cada um deles se tornou cabeça de uma frente. Sumiu o espectro ACM. A direita não tem mais presidenciáveis. Menos de dez anos após acabar a ditadura, ela já não disputava a hegemonia, não tinha proposta para o Brasil.

Estamos então num modelo que me lembra o da França que consolida sua República, nos anos pós-1875: alternam-se o centro-direita e o centro-esquerda. Aumenta o diálogo. Veja a educação. Hoje, nenhum gestor sério repudiará a necessidade de avaliar sua qualidade, e se aproximaram as idéias sobre qual formação é desejável para o aluno.

Lula é mais afetivo, comunica-se melhor. Ele foi acusado, sobretudo pela “Folha”, de ser paternal. Mas não vi nenhuma citação que o comprove. Ele dizia aos eleitores: “Vocês, como pais, esperam nove meses para nascer um filho e um ano para ele andar”. Isso não é chamar os cidadãos de filhos (dele), mas de pais (como ele). É constituí-los como seus iguais, não é agir de modo paternalista.

Parece-me com o discurso weberiano da ética da responsabilidade em FHC: você não pode ter tudo já, nem ao mesmo tempo. Um diz isso com o saber acadêmico, outro com a experiência ou a sabedoria popular. Públicos diferentes se reconhecem num e noutro. E é interessante que ambos granjearam admiração internacional, o que é bom para o país.


Nesse mesmo artigo você sustenta que “nenhum político cumpre tudo o que promete”. A questão que se propõe como decorrência dessa asserção é: como um governante lida com a frustração que difunde por sua ação e inação, por seus atos e não-atos?. Como se deve entender a frustração de expectativa em torno do governo Lula? Penso num ponto que você ressalta: a globalização é hoje o grande limite à independência nacional.

Janine: Saber que não se pode ter tudo, com a política, é uma das lições maiores desse grande liberal que foi Isaiah Berlin, na sua crítica à utopia, isto é, à esquerda. Disso, eu desenvolvi que a chave para a legitimidade de um governante está em dois pontos: primeiro que, mesmo quem não gosta dele, o aceite; segundo, que as frustrações com ele não cheguem a ponto de deslegitimá-lo.

Se eu governasse, não me interessaria o apoio de quem me dissesse: “Te apoio naquilo em que concordo contigo”, porque essa pessoa não estaria apoiando meu governo, mas a si própria. O apoio que interessa é de quem diz: “Não concordo com tais pontos de seu governo, mas, mesmo assim, concordo com o essencial, e por isso o apoio politicamente também naquilo de que não gosto”.

Esse é o elemento de frustração inevitável quando lidamos com o macro. Trabalhando no plano micro, posso lidar só com meus idênticos, com os clones meus -e é esse o risco da política das minorias, por exemplo., em que homossexuais por vezes convivem sobretudo com homossexuais, mas sem entrarem em contato com seus diferentes. A diferença exige concessões, frustrações, travo amargo na boca.

Se o mundo se globaliza, as diferenças ficam ainda maiores, e com elas as frustrações. Mas quer isso dizer que se cede em tudo? Não. À medida que o tempo avança, as diferenças entre o governo atual e o anterior se acentuam.

O difícil, e que o tempo premente da política raramente permite meditar e discutir, é medir duas coisas: primeiro, em que medida amadureceu um partido que, na oposição, chegava a fazer bravatas?; segundo, em que medida um partido que queria mudar tanta coisa cedeu, e em que pontos essenciais ele cedeu? O mesmo processo pode ser interpretado das duas maneiras, como amadurecimento do PT (primeira hipótese) ou sua rendição (segunda).


No artigo “A economia como mistério”, você afirma que “na esfera pública nunca antes houve tantas liberdades democráticas no mundo; não obstante, não nas questões fundamentais, pois na economia nem todos podem discutir e decidir: a economia se revela como arcana imperii”. Reconheço que a linguagem da economia é demasiado técnica -como a da engenharia, a da medicina...-, mas ela não é livre para que todos possam conhecê-la? A se considerar a tecnicidade da linguagem da economia, penso que a discussão sobre representação política pode ser tão arcana quanto a de taxa de juros.

Janine: Você tem razão, no caso de discussões essenciais para a democracia. Mas mesmo aí há valores que o povo deve decidir e procedimentos que são mais complicados. Quando o STF impôs a verticalização nas eleições, em 2002, feriu gravemente um princípio democrático, o de que as normas que se referem ao cerne da cidadania devem ser claríssimas. Não devem depender de técnicos ou de circunlóquios. Nossas leis deveriam ser claras, ao menos no que é matéria essencial para a cidadania.

Mas há pontos nas instituições políticas que são complexos. Por exemplo, fui contra a reeleição. Mas ela passou, e agora acho que deve ser longamente testada. Afinal, não é diferente “quebrar o Banespa” para eleger seu sucessor, como diz uma lenda não provada sobre um ex-governador de São Paulo, ou quebrá-lo para reeleger a si próprio. Quem acompanha o governo sabe que no primeiro ano se põe a casa em ordem, no segundo há outra eleição, no quarto se busca fazer o sucessor; quer dizer, governa-se no terceiro ano.

Forço um pouco as coisas, mas no Brasil se governa um ano em cada quatro. Já o governante reeleito pode governar três a quatro anos cada oito, o que multiplica seu tempo de trabalho eficaz. Já a proposta de um mandato de cinco anos, sem reeleição, exigiria que os parlamentares tivessem o mesmo mandato -e tudo isso só para o governante trabalhar para valer dois anos em cada cinco. Acho pouco. Esse é um exemplo de um debate um tanto técnico, concordo, mas nosso dever é traduzi-lo em linguagem compreensível.

Quanto à economia, o fascinante nela é que concentra o cerne da modernidade. A Idade Média supunha que o bom rei fosse o rei bom, isto é, seria eficaz na política quem fosse bom na moral. A modernidade, com Maquiavel, mostra a ferida que há aí, o corte entre a ética e a política: a bondade (como no caso dos clipes comprados ao menor preço) pode gerar desastres sociais (porque demoramos meses a comprá-los, e se tornaram inúteis).

A economia desenvolve essa descoberta da cisão entre intenções e resultados. Será melhor apostar no egoísmo que no altruísmo. Trará melhores resultados. Isso, que, em meu livro “A Sociedade Contra o Social” chamei a abertura Maquiavel (ou Mandeville), se constata. Só que, no limite, significa que para aumentar o emprego e o salário temos de reduzir os direitos sociais, ou seja, para produzir “A” temos que apostar em não-“A”. Ora, isso não é óbvio, é difícil de compreender, não funciona sempre e gera prejuízos morais às vezes maiores que os ganhos de produtividade.

Na medicina, é diferente. Suas versões orientais supõem que os pacientes entendam alguma coisa do que o médico -chinês, indiano- sabe. Os princípios são compartilhados. Se eu pratico a “Ayurveda”, sei qual é meu “dosha”. Já no Ocidente, o paciente é muito mais ignorante do que o médico. Mas, mesmo com esse descompasso, a medicina funciona melhor e, além disso, não diz respeito diretamente a projetos sociais. A economia trata de projetos sociais, pretende dizer a palavra final sobre eles, fracassa com freqüência e poucos a entendem. Eis a diferença.


Você alerta para os usos de termos como “neoliberal”, “jurássico”... Muitos dos que desqualificam análises e propostas como sendo “neoliberais” não leram, por exemplo, Hayek; e isso resulta numa caricatura. Concordo que, se tivermos apreço pela democracia, discutir com o outro exige respeito. Mas a democracia também não há de conviver com a retórica? Palavras como “neoliberal” e “jurássico” não têm muito mais efeito retórico do que desqualificação?

Janine: É normal que, em período de eleições, ou para militantes, o outro seja demonizado. Mas sempre lembro um comentário de Wilhelm Reich: de tanto exaltarem o metrô de Moscou como conquista socialista, os soviéticos confundiam o socialismo com a tecnologia -e, ao descobrirem que a ocidental era melhor que a deles, não tinham mais o que defender no socialismo. Ele disse isso em 1942.

Cinqüenta anos depois, quando o comunismo soviético ruiu, o que se podia dizer em favor dele? Mesmo onde ele mais apostou, na indústria pesada, por exemplo, acabou ficando para trás. E onde não apostou, como nas liberdades, ficou muitíssimo para trás.

Daí que devamos aprender muito com o diferente de nós, até com o antagonista -e que possamos e devamos ser corteses no debate. Por que o neoliberalismo teve sucesso? Não será porque devolveu, a muitos, a sensação de responsabilidade individual?

Parte de nossa esquerda passa o tempo desresponsabilizando as pessoas. Quando João Hélio foi assassinado, li gente que tinha mais pena dos assassinos do que dele. Vítimas eram eles, os “excluídos”. Ora, acho esse discurso altamente preconceituoso contra os pobres, porque supõe que, por serem pobres, se tornem criminosos. Provavelmente o porcentual de pobres criminosos é bem menor que o de ricos cometendo crimes. Mas sente-se uma pena enorme pelas vítimas da sociedade, que chega a justificar que elas façam o que quiserem.

Hayek e Thatcher puderam ser cruéis, mas notaram bem o esgotamento de um discurso esquerdista piedoso e sem base real. Quem pensa de verdade não precisa endossar o darwinismo social da direita, nem a piedade invertida do que chamo a pseudo-esquerda. Deve aprender com os dois. Os valores mais dignos de nosso tempo ainda estão à esquerda, como os da solidariedade. Os meios mais eficazes de ação sobre o mundo foram definidos pela direita ou, se quisermos, pelo capital. É preciso saber combinar uns e outros.

Há várias formas de combinação. Os meios estatizantes que a esquerda definiu deram errado. O vazio de valores que a maior parte da direita esposou (ao defender a concorrência desabrida, por exemplo; é claro que excetuo dessa direita alguém como Olavo de Carvalho, de quem discordo totalmente, mas que explicita os valores que defende, embora pudesse fazê-lo com mais respeito pelos seus adversários) também nos trouxe problemas sérios. Cabe-nos tentar, se não uma síntese, pelo menos dosagens entre fins e meios, entre idéias e eficácia.


Na discussão sobre esquerda e direita, você assevera que não há mais sentido em pensá-las como duas substâncias -“eu sou de esquerda”, “fulano é de direita”- e sim nos termos com que as palavras “esquerda” e “direita” se definiram como “posições” na Assembléia Francesa em 1789. Sendo assim, em relação a que você se posiciona, digamos, à esquerda?

 
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