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prosa.poesia
OCEANOS

Cinco ilhas míticas
Por Wilson Bueno

Florívia, Lídia, Ládiva, Py e Eólia estão escritas na memória ancestral e grafadas na lenda antiga, em contos e racontos

Ilhas são continentes. Cabem nelas, às vezes, mais do que um meridiano. Escritas na memória ancestral, grafadas na lenda antiga, ou ecoando na noite primeira a noticiar, de boca em boca, os cantos e os racontos, costumam pintar o mar de arquipélagos.

Umas verdes como o imprevisto Oceano; outras azuis como o céu que as protege e, outras tantas ainda, de praias incendiadas pelo ouro velho das areias borradas por lascivo poente.

Lição para o futuro e suas malhas, nenhuma ilha deixou nunca de exercer o papel que melhor lhe cabe ao arrepio das altas ondas que encrespam o mar a ponto de cobrir dele o horizonte. Sobra sempre um sol atrás da nuvem que daqui se vê, deste trapiche onde não ancoram mais os barcos pequenos e nem infestam os promontórios as borboletas-gigantes da ilha em frente.

Não sem razão, os marinheiros antigos, enlouquecidos pelas viagens, nem sempre venturosas aos confins do Mar Ignoto, retornados às suas cidades ou, por insurgência, aos catres das masmorras lusas, emitiam um vagido, dizem, que chegava a comover a noite: “Maravilhas! Maravilhas! Maravilhas!”.

Só então sabia-se que os velhos nautas estavam muito perto de morrer.


1. Florívia

Quando você pensar em conhecer Florívia, ilha de paz e remansos em meio ao turbulento Oceano, pense, antes de partir e examinar, ainda outra vez, velames e cordas, âncoras, víveres e instrumentos de bordo, pense em tudo o que sua generosidade ofereceu ao mundo. Não se decepcione nunca contigo mesmo antes de embarcar a Florívia.

Rememore, minucioso, antes de partir, o que houve de coragem ou desassombro a cada vez que a vida lhe exigiu , não o silêncio dos carneiros a pastar as pradarias ou a sombra quieta das árvores aonde você deitou o seu sono paciente.

Pense, antes de partir, se você já não fracassou, de modo humilhante como podem ser algumas espécies de fracasso. Sobretudo ali, pense, onde seu braço foi curto, e desprezível a mão que se encolheu ao bolso a negar o que o vigor do corpo poderia oferecer de auxílio ou socorro. Pense, antes de partir, na covardia envergonhada que o impediu de salvar alguém ao lado prestes a ser engolido pela garganta do abismo.

Em Florívia não crescem cactos e as praias douram-se ao sol de maio feito um poema todo construído de cochicho, quando, vizinho da noite, o entardecer é só uma extravagância das tintas do céu. Em Florívia dorme-se muito cedo, ainda antes dos passarinhos.

Conversar com as ondas ou com a mudez das conchas e dos caramujos é prática comum em Florívia. Ainda mais comum do que os longos interrogatórios com que os peixes saciam a curiosidade não-pequena, a medir o tamanho da fé dos recém-chegados.

São bem suaves as noites de Florívia. Ausente de nuvens, o céu é só um drapeado de estrelas que cintilam e reperguntam às ondas, à faixa de areia das longas praias brancas, de onde vem o forasteiro. E, principalmente isso, não se assuste: se indagarem o que você traz no coração.

Se você uivou na noite porque era tarde e a solidão o pôs assim num vácuo sem remédio, não, não pense, não vá pensar, a sua arrogância triste, de que, só por isso, você é merecedor de Florívia e de suas escarpas por onde sobem, imensas, monstruosas rosas vermelhas. Se foi, por sua vez, um ser dedicado a si mesmo, a iludir-se de que esse era o melhor modo de doar uma singularidade ao mundo, também não parta já a Florívia.

Embora a vilania e a derrota, o suor da noite grande e o medo andando as paredes da casa, aranha peluda; embora o suplício da espera, melhor não embarcar a Florívia. Lá, no ancoradouro da ilha, em seu porto onde rinocerantes dançam cantigas de boas-vindas e colibris voejam ao redor dos desembarcados feito um enxame fosforescente, só te pedirão uma senha.

Mas aí é que mora o maior mistério de Florívia: ninguém até hoje soube a senha, ao certo. Os que lograram acertar, por pura sorte acertaram a senha a esmo. Mas tinham, dizem, nas mãos -na concha das mãos-, a luz em prata de uma única lágrima. Vertida, contam por aí, face o espanto de sentir a coragem, gume afiado, atravessar de repente toda uma floresta de medos.

Florívia é longe, muito longe, e reverbera em meio ao grande Oceano, nas noites de lua cheia, a sua existência estrelada.


2. Lídia

Minúscula ilha do mar Egeu, redonda como o Coliseu romano e mais ou menos de mesma extensão e circunferência, Lídia poderia ser a mais despercebida ilha de toda história, não procriassem nela os pégasos, estes cavalos de inenarráveis asas.

Vindos de todo arquipélago, Lídia é o cenário de amor onde se acasalam, nos fulgurantes maios gregos, pégasos com pelagem das mais diversas cores, e asas da mais diversa envergadura.

Mal raie o sol a indicar que é maio no azul do tempestuoso Oceano, os primeiros pégasos pousam nas estreitas praias. Afundam então na areia os cascos, manchados à luz do amanhecer pelas tintas de um ouro-velho de ferruginosa beleza. As asas, essas nem falem, agitam-se alvas, mas tão alvas, que chegam a refletir como num espelho o azul do Egeu profundo.

Bardos e nautas, górgonas e sereias em vão tentaram chegar a Lídia e foram invariavelmente afugentados, seja pelo violento mar que ali se escrespa e naufraga mesmo as galés mais portentosas, seja pelo pronto vôo com que os pégasos se arremessam, cascos e dentes, asas e crinas tensas, a escorraçar, à proximidade das praias, os eventuais invasores.

Nenhum estranho, nem mesmo os pássaros do velho arquipélago ousaram se aproximar de Lídia. Ou ali deitar seus ovos. Permanentemente vigiada, desde o princípio do mundo, por gerações e gerações de pégasos, Lídia é e sempre foi a ilha dos cavalos alados. De mais ninguém.

E é nela, pois, que crescem, amamentados por soberbas éguas-de-asas, nela, em Lídia, os potros selvagens que trotam, e nela ensaiam, empurrados com o focinho pelos pégasos mais velhos, os primeiros e oscilantes vôos. Obsedante exercício de quedas e imprevistas ascenções.

Então é que acontece: às centenas os pégasos novos descrevem um círculo sobre Lídia, branca e verde, em meio ao incalculável azul, e relincham, e voam, enfim voam!, a variegada pelagem, num estrepitar de asas que chega a silenciar o rumor do mar furioso.

Mas são tantos, por vezes, os pégasos no céu de Lídia, os que chegam e os que vão, os que amam e os que se assustam em escuro assombro, que o sol chega a faltar quando demora a tarde extravagante de Lídia e de suas praias brancas.


3. Ládiva

“Feliz daquele/ que ao ver o relâmpago/ não diz – a vida é breve.”

No micropoema do nipônico Matsuo Bashô foi onde encontramos, tarde dessas noites frias, nós, os navegantes de Hérida, a mais perfeita metáfora em favor da vida eterna -senha e sumo de quem se habilita à inenarrável ilha de Ládiva, ao norte do país eslavo.

De gelo e praias cinzas, Ládiva nunca amanhece. É sempre bruma, e a imaginação da noite, em Ládiva. A noite imaginada nessa permanência com que a névoa insiste, mesmo quando, ao fim da manhã, você supõe, no céu da ilha um sol de meio-dia.

Contam que, muito antes de nós e de nossos bisavós, ou ainda bem antes destes, os moradores de Ládiva, cuja maior característica, registram, era o engenho para escavar terras e construir túneis, chegaram a abrir, a marretas e pontapés, no céu cinzento, um grande buraco. Por alguns dias, o sol brilhou profuso e obstinado, sem intervalos, sobre Ládiva. E iluminou as praias lavadas pelo azul do mar e pela franja das ondas que sobre a areia se atiram ainda hoje, insistentes, suicidas.

Assim que o buraco aberto por nossos esforçados ancestrais tornou a fechar, voltou a névoa contínua e tudo misturou-se, em Ládiva, ao cinza-escuro quando é a noite imaginada, ou ao cinza-claro, forte indício de que é manhã ou tarde na ilha onde cultuamos os mortos com altas velas e mantras que são quase uma secreta carícia. Isto se não fincamos, ao telhado da casa, os crânios lavados a sal dos mortos antigos. Em Ládiva tudo é assim, surpreendente e novo, como se a morte não existisse, como se a morte não existisse mais.

Contudo o que nos incomoda é a imaginação da noite em nossa ilha onde sequer a noite existe, o céu fechado de modo nunca interrompido, sem estrelas, nem mesmo o vazio da ausência delas, ali onde nos postamos, quando é madrugada, e nada descortinamos além do permanente breu e a fuligem eterna das esgarças fumaças. Deambula sobre nossas cabeças um céu sempre móvel, e carregado, que foge, incessante foge para o largo Oceano -como se açulado por forças incoercíveis.

Não por obra do vento, diga-se, posto que em Ládiva o vento gane apenas nas frestas das casas e nunca ascende além que a altura da mais alta edificação da ilha -o templo devotado a um deus que ninguém até hoje soube o nome ou, o que é pior, adivinhou-lhe os preceitos e nem sequer a espécie de oferenda que exige lhe seja colocada aos pés. E sem saber o que um deus quer, nós, os nascidos em Ládiva, vivemos sempre temerosos ante a crua iminência de ser duramente castigados.

Por isso amanhã partiremos outra vez ao continente, em meio à névoa e à neblina. Deixaremos o cais de Ládiva, até que ela seja apenas um ponto perdido, fraco a luzir no horizonte, mas que nossos olhos súplices ainda hão de buscar, com saudade, com muita saudade, feito ela tivesse existido um dia.


4. Py

Na ilhota de Py um pirata permanece desde a criação das ilhas, dos oceanos e dos piratas, perfeitamente em pé, perfeitamente perneta e perfeitamente grato ao rochoso vértice que brota do mar, o qual além de lhe prestar socorro em noite tormentosa, serve de modo justo e sem erro, nem mais para a esquerda nem mais para a direita, ao seu único pé, cujos dedos abrem-se numa ferida de sal.

Saudades da muleta, dizem que sente, embora tivesse o hábito de, sem ela, permanecer em pé, sendo, muitas vezes, em razão desta pantomima, incensado pelos salões. Abandonava as muletas e equilibrava-se num desconcerto que causava mais o riso do que a lágrima, num só pé e numa só perna, o perneta triunfal.

Na ilha de Py nosso pirata chegava a ficar três dias e três noites, apoiado apenas no pé que dispensava a muleta, até ser resgatado por errantes marinheiros.

Senhor de estoicismo proverbial, não abandonava nunca o posto. Primeiro, por temer que o lugar lhe fosse roubado; e, segundo, porque dali, munido da mais potente luneta, vigiava o mar tormentoso à espera de quem o resgatasse um dia.

E lá, segredam, continua até hoje, ilhéu de seu próprio corpo, certo de que, mais cedo ou mais tarde, algo ou alguém o salve de si mesmo.


5. Eólia

Aferramo-nos durante muito tempo à idéia de que Eólia pudesse ser uma ilha de brinquedo. Isto começou a suceder ainda antes de que houvéssemos nascido, ainda antes de nossos pais e, dizem alguns, antes mesmo de que nossos trisavós cumprissem o rito de se tornar avós de nossos avós.

Mais ou menos assim: toda vez que Eólia era vista do continente, inventava de brincar de esconde-esconde. No lusco-fusco do primeiro crepúsculo ou, ainda antes que se fechasse inteira a noite sobre o segundo crepúsculo, o do entardecer, sumia completamente de vista e, com ela, o colar de archotes que a circundava como se altos fogos em alto mar.

Tentávamos, quase ao desespero, discernir o que se punha ali onde havia Eólia, e nada alcançávamos enxergar. Por mais que apertássemos os olhos, no esforço de descobrir para onde se deslocara a ilha e seus archotes, para que lado os coqueirais e o vôo dos pássaros em permanente rota de colisão contra os penedos do continente, ou aonde ainda o rugir quase inaudível de suas bestas prenhes, Eólia, outra vez, todos percebíamos, não era mais.

Há registros de avós de nossos avós dando conta de que, ao menos numa até hoje nunca esquecida tempestade que assolou não só a ilha como todo o Arquipélago, levando sérios prejuízos também ao continente, muitos foram os que viram a ilha ficar de ponta cabeça.

Em vez dos archotes e dos pássaros, das bestas e dos coqueiros, o que se distinguia, no grande mar, era só o fundo da ilha, feito de corais que se entrelaçavam numa fúria viva e escorpiã. Mexia-se, Eólia, de ponta cabeça –coisa viva a tragar, aos solavancos e aos engulhos, grandes golfadas marinhas.

Isto contam nossos antepassados, com um amor à ilha que chega a parecer a mais mentirosa das coisas já relatadas sobre ela e seus jogos de dissimulação. Sem falar de outro aparente exagero –o de que Eólia navega ao sabor do vento e por isso é que muda de lugar.

Se assim, por que o embate dos pássaros contra o rochedo, enquanto novas ninhadas, já prestes a voar, piam e piam, como soubessem de que mais cedo ou mais tarde terão o mesmo destino e por isso lamentam o futuro feito o antevissem de vez? Baixo sério horror, a desatinada sentença.

 
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