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Hermida: Creio que não é somente uma possibilidade, mas sinto que é uma necessidade de nosso continente. Os projetos de integração regional vão, pouco a pouco, ganhando terreno na opinião pública e nas instâncias de poder dos governos. Com o tempo, acredito que teremos uma moeda comum e mercados regionais bem fortes.


Como o Brasil se inseriria numa unidade latino-americana, visto que tem uma outra língua e aspectos culturais e históricos particulares?

Leduc: Durante muitos anos, o Brasil foi muito fechado, sobretudo devido à geografia e à língua. Além disso, por ser um país de dimensões continentais, poderia ser muito bem auto-suficiente. Hoje, porém, por meio de acordos políticos, está abrindo os olhos, não só para a América Latina, mas para o mundo todo também. Além disso, tenho a impressão de que os brasileiros estão mais predispostos a conhecer a cultura e a realidade do restante da América Latina.

Giménez: O Brasil só pode se unir com o Paraguai, por exemplo, por meio da cultura. Quando o assunto é economia, desde a época da Tríplice Aliança, os acordos prejudicam o meu país. De qualquer maneira, vale salientar que há muitos brasileiros que vivem no Paraguai. Não é à toa que já existe uma geração de “paraguaios” que se entende (com brasileiros) e transita na região da fronteira.

Alcázar: Fala-se muito no gigantismo do Brasil. Primeiro, deve-se dizer que gigantismo é coisa de mapa geográfico: o Japão é muito menor que o Brasil, mas tem uma importância econômica bem maior. Somos uma sociedade que não conseguiu acabar como os principais problemas, quando, na realidade, deveria dar o exemplo e ajudar as outras nações a fazer o mesmo. Essa visão imperialista -que não é nossa, mas que algumas vezes repetimos- de que o Brasil pode ser auto-suficiente tem que acabar.

Hermida: Como as outras nações, cada uma se integra a partir de sua diferença: os países andinos têm uma história, os do Cone Sul têm outra, os da América Centro, outra... Mas o que nos une é o fato de pertencermos a repúblicas jovens, que, não faz muito tempo, passaram pelo processo de colonização, buscaram a independência e hoje têm a capacidade de gerar um projeto histórico próprio e único. Se a língua fosse um impedimento, o cinema estrangeiro nunca teria penetrado em nosso continente. Acredito que a língua não é um impedimento, mas uma oportunidade de aprender quando há um projeto político que se sustente.


O escritor Guillermo Arriaga disse que México, Brasil e Argentina deveriam ser protagonistas na tentativa de unir culturalmente a América Latina. Isso não pode representar uma espécie de imperialismo cultural, visto que são os países mais ricos da região?

Goggi: Indiretamente, nós já impomos determinados comportamentos às outras nações por sermos, como Arriaga falou, os países mais ricos da região e ter uma situação de pobreza mais confortável, vamos dizer assim. Para que isso não represente uma ameaça às outras nações da América Latina é preciso criar canais que permitam a produção e a exibição da cultura produzida nos outros países.

Giménez: Os três países têm mais história cinematográfica, enquanto o Paraguai, no momento, parece iniciar a sua própria história. Com o apoio da França, produções audiovisuais estão sendo recuperadas. Claro, o ideal seria a união dos países latinos, mas faltam medidas institucionais para que isso ocorra. Neste sentido, um evento como o Festival de Cinema Latino-Americano é importante porque permite, além da exibição dos longas, o compartilhamento das diferentes cinematografias latinas.

Alcázar: Quando o assunto é a economia, acredito, sim, que seja preciso existir uma liderança, seja ela representada pelo Brasil, pela Argentina, pelo México ou pela Venezuela. No campo cultural e, mais precisamente, cinematográfico, não. Hoje, todos os centros de produção, independentemente da quantidade de filmes produzidos, se equivalem, pois têm os mesmos componentes: câmeras, programas de edição, computadores... Sendo assim, podem produzir tão bem ou tão mal quanto Hollywood.


Não há muita circulação de filmes latino-americanos entre os países da região. Qual a sua opinião a respeito desse fato?

Goggi: É um problema provocado pela ausência de uma política cultural que permita a circulação constante de filmes latino-americanos dentro da América Latina. Mais do que nunca, é preciso criar novos canais de divulgação e exibição para fazer frente à estética do cinema norte-americano.

Leduc: Acredito que isto está para mudar, não só na América Latina como em todo mundo, devido à internet. Os filmes, acho eu, poderão ser vistos de dentro de casa mesmo em aparelhos telefônicos mais sofisticados. Com isso, barreiras serão rompidas.

Giménez: São necessários acordos políticos para uma maior circulação de filmes latinos na região. Em Assunção, assim como no Brasil, as salas ficam ocupadas por filmes como “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, impossibilitando a exibição de filmes brasileiros ou argentinos. Eu assisto a produções latinas na televisão. No momento, estou vendo, pela TV Globo (a cabo), um ciclo de longas brasileiros. Creio que os empresários deveriam deixar de pensar que só existe público para filmes do Harry Potter.

Alcázar: Apesar de Assunção estar a apenas 350 km da fronteira com o Brasil, o intercâmbio cultural é praticamente nulo. Além de não conhecer o cinema, o Brasil desconhece a música, a pintura e o pensamento paraguaios. E isso, infelizmente, se estende à toda América Latina. Quanto ao problema de circulação dos filmes latinos pela região, há dois fatores: o cinema dos Estados Unidos tem uma rede de distribuição de muitos e muitos anos, que é conhecida e reconhecida no mundo inteiro. Os Estados Unidos não só sabem produzir como também distribuir e vender seus filmes muito bem, enquanto o Paraguai, por exemplo, não. Estamos em um estágio em que podemos produzir tão bem quanto eles. Antes, um longa tinha que ser produzido em 16 mm ou 35 mm, o laboratório de edição era caro, fazendo com que o público do filme, para que ele fosse pago, precisasse ser de 200 mil espectadores. Hoje, com o vídeo digital, a produção ficou muito mais barata e não é preciso um público tão grande. Acredito que esta é a realidade do cinema latino-americano. Muito se falou de “Hamaca Paraguaya” (2006), da diretora Paz Encina (primeiro longa-metragem em 35 mm desde 1978 no Paraguai), mas, para mim, o filme tem um defeito: é uma superprodução, um modelo que não serve para a cinematografia latino-americana. Muitos criticam a supremacia audiovisual dos Estados Unidos, mas, apesar de ocasionarem a marginalização de outras cinematografias -inclusive a deles também-, eles estão certos, defendendo a própria indústria. Não adianta criticá-los ou criar quotas de salas para filmes locais. O que temos que fazer é pegar o nosso filme, mostrar a nossa imagem e conquistar o público.

Giroud: O problema é que, infelizmente, as pessoas já estão acostumadas a assistir um tipo de filme, que é o hollywoodiano. E, uma vez que os distribuidores internacionais estão mais preocupados em atingir platéias enormes, não há a preocupação em atender demandas menores e interessadas em assistir a cinematografias mais independentes. Em Cuba, no entanto, se vê muito mais filme latino, principalmente pela televisão.

Hermida: Trata-se de um problema que vivem todos os países da América Latina. É preciso muita vontade política por parte dos Estados para que a hegemonia da indústria de Hollywood diminua. Para isso, é preciso abrir espaços de exibição alternativos para que seja possível exibir outras cinematografias e se opor aos interesses dos empresários locais, que não estão dispostos facilmente a atender a demanda cinematográfica local e regional.


Qual é o seu diretor brasileiro preferido? E filme?

Goggi: Glauber Rocha é uma referência para mim. Por sorte, eu freqüento muitos festivais, onde eu posso assistir a filmes mais novos do cinema brasileiro, como “Antônia”, da Tata Amaral, do qual gostei bastante.

Leduc: É praticamente impossível responder a esta pergunta. Hoje eu sou amigo de quase todos os cineastas brasileiros. Pode-se dizer que o conjunto de produções brasileiras influenciou bastante o meu trabalho, sobretudo as obras de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha. Infelizmente, devido ao problema de distribuição, não tenho assistido a muitos filmes dos novos cineastas.

Giménez: Glauber Rocha. Assisti aos seus filmes quando jovem, e gostaria de revê-los com mais freqüência.

Alcázar: Não tenho acompanhado a produção brasileira atual. Diretores como Joaquim Pedro de Andrade (“O Padre e a Moça”), Nelson Pereira dos Santos (“Vidas Secas”), Roberto Santos (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”), Glauber Rocha (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”) e Luís Sérgio Person (“São Paulo S/A”) ajudaram a me formar.

Giroud: Walter Salles é o meu diretor preferido. Tenho a impressão de que a história de “Abril Despedaçado” foi escrito por Shakespeare.

Hermida: O meu diretor brasileiro preferido é Glauber Rocha. Infelizmente, não é possível assistir a filmes brasileiros atuais, pois, no Equador, não há muitas salas de cinema que exibem filmes independentes ou não hollywoodianos. Em festivais de cinema, eu assisti a “O Cheiro do Ralo” (de Heitor Dhalia) e “2 Filhos de Francisco” (de Breno Silveira), que nos foi apresentado como um fenômeno de público.


Publicado em 3/8/2007


link-se
Leia entrevista com Tania Hermida - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2890,1.shl

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Alan de Faria
É jornalista.

 
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