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Luz, câmera e ação na América Latina
Por Alan de Faria


Ofelia Medina em cena de "Frida, Natureza Viva" (1983), filme de Paul Leduc
André Komatsu

Seis diretores do II Festival de Cinema Latino-Americano falam sobre política e cinema no continente

Na abertura do IIº Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que ocorreu entre os dias 24 e 29 de julho, o curador e cineasta João Batista de Andrade declarou: “Mais do que um festival cinematográfico, este é um evento político”. Tratou-se de uma resposta concreta à dominação dos filmes realizados e distribuídos pela poderosa indústria audiovisual norte-americana, que, por meio de suas produções, ocupa cerca de 90% do mercado latino-americano -no Brasil, três filmes (“Harry Potter e a Ordem da Fênix”, “Shrek III” e “Transformers”) chegaram a ocupar 70% das salas.

Por meio do festival, foram vistos longas latino-americanos de diferentes escolas cinematográficas, algumas já estabelecidas, como é o caso do México e da Argentina, e outras que vivem um nascimento da produção audiovisual (Equador, Paraguai e Bolívia, por exemplo). Pode ter sido, inclusive, a única chance de o público brasileiro assistir a algumas das produções, uma vez que boa parte delas não tem estréia prevista no país no circuito comercial.

O evento também promoveu uma série de mesas de discussão, nas quais profissionais do audiovisual brasileiro e do restante da América Latina debateram a respeito da produção cinematográfica na região e meios de criar parcerias entre os órgãos do cinema.

Trópico aproveitou a visita de alguns dos cineastas para falar com eles a respeito da atual situação política latino-americana e da pouca circulação de filmes entre os países da região.

Foram entrevistados: a argentina Daniela Goggi, que assina a direção de “Vésperas” (2005); o mexicano Paul Leduc, diretor de, entre outros, “Barroco” (1969), “Frida, Natureza Viva” (1986) -seu longa mais premiado- e o ainda inédito “O Cobrador” (2006), que concorre no Festival de Gramado; a paraguaia Galia Giménez, cujo filme, “O Inverno de Gunter” (2005), foi exibido no festival; o brasileiro José Eduardo Alcázar, diretor de “US/Nosostros” (2007), que vive há dez anos no Paraguai; o cubano Pavel Giroud (“A Idade da Peseta”, 2006), que venceu na categoria de melhor diretor no último Festival Cine Ceará, e Tania Hermida, diretora equatoriana do longa “Qué Tan Lejos” (2006), escolhido o melhor filme do festival pelo público.

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Como você se define politicamente?

Daniela Goggi: Posso dizer que eu sou da corrente marxista-dialética, pois acredito que os problemas só podem ser solucionados por meio da reflexão e da discussão.

Paul Leduc: Não sei. Estamos em uma época na qual a auto-proclamação política não quer dizer muita coisa. São utilizados de maneira enfática alguns termos para definir a atualidade, quando, na verdade, estamos em um momento de novas definições. De um modo muito genérico, eu diria que sou de esquerda. Acredito que podemos mostrar como realmente somos e o que pensamos por meio de nosso trabalho. É muito fácil fazer declarações, mas, se o nosso trabalho não corresponder com o que dizemos, fica sem sentido.

Galia Giménez: Não gosto de nenhum partido. Diria que sou amante da liberdade de expressão e do apoio à cultura, que, na minha opinião, é o que nos salva e permite à sociedade reivindicar seus direitos.

José Eduardo Alcázar: Sou eleitor do Lula. Sempre tive uma visão mais de esquerda, pois acredito que, ou você é solidário com todo mundo, ou não tem saída para problemas como a concentração de riqueza e a marginalização. Mas qual é a solução? Não acredito que esteja na Argentina de Nestor Kirchner, nem na Venezuela de Hugo Chávez, nem na Cuba de Fidel Castro ou no Brasil de Lula, mas sim em uma nova visão de progresso democrático que atenda às necessidades de toda a sociedade. Temos que acabar com essa história de que é preciso crescer primeiro para depois dividir.

Tania Hermida: No momento, eu estou envolvida no processo de votação (que irá ocorrer no dia 30 de setembro) da Assembléia Constituinte do Equador, como candidata na lista do governo (o esquerdista Rafael Correa). É uma tarefa nova e complicada, pois represento todo um setor que quer uma transformação profunda na gestão cultural equatoriana.


Acredita que os EUA ainda podem ser um modelo de desenvolvimento e civilização para a América Latina?

Goggi: A influência dos Estados Unidos na América Latina é horrível. No campo do audiovisual, eu percebo que se injeta muito dinheiro, sobretudo em marketing, para que continuemos a assistir às produções hollywoodianas. Em contrapartida, faltam ferramentas para promover o cinema produzido pela América Latina em nossa própria região.

Leduc: Nota-se hoje um intenso movimento migratório mexicano, não só de camponeses, mas também de físicos, matemáticos e cineastas, para os Estados Unidos. No entanto, não se trata de um problema local. Muitos africanos e pessoas que residem nos países europeus ex-socialistas estão migrando para a Europa Central. A cifra de migrantes tem sido enorme. Não são mais exilados políticos, mas sim cidadãos vítimas da situação econômica, das guerras e do desemprego. Está se criando uma nova geografia, que irá resultar no aparecimento e no desaparecimento de países.

Giménez: Cada pessoa tem o direito de pensar o que realmente quer e ir atrás de seus objetivos. No entanto, culturalmente, eu acredito que devemos ser independentes de qualquer outra nação, embora seja benéfico existir conexões com outras realidades culturais.

Alcázar: Os números mostram que, a cada ano, aumenta o número de latino-americanos migrando para os Estados Unidos. Talvez acreditem que lá possa haver mais possibilidades de crescimento e desenvolvimento. Acontece que, hoje em dia, a mobilidade populacional é muito grande, o que permite o fluxo de pessoas não só para os Estados Unidos, mas também para a Argentina, para o Japão...

Pavel Giroud: Eu estou muito feliz em Cuba, tanto que não me interessa migrar para os Estados Unidos e trabalhar como cineasta lá, como muitos profissionais latino-americanos estão fazendo. Meus filmes se adequam à realidade sociocultural cubana.

Hermida: De modo algum! Ao contrário: creio que, frente à invasão de histórias e personagens da indústria audiovisual norte-americana em nosso continente, temos que ter políticas culturais que nos permitam fazer resistência por meio de alternativas próprias e diversas, porque uma das características da América Latina é justamente a diversidade.


Na América Latina, o modelo bolivariano é defendido por Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Evo Morales, presidente da Bolívia. Você acredita que esse modelo e os governos citados são benéficos para o presente e o futuro da região?

Goggi: É muito interessante a atitude do presidente venezuelano Hugo Chávez. De certa forma, por meio de suas decisões, ele faz com que a Venezuela passe a ser notada no mundo, uma vez que muitas das políticas adotadas têm sido benéficas para a população. Há, porém, um outro lado: eu não concordei, por exemplo, com o fechamento do canal RCTV (no dia 27 de maio deste ano, o presidente Chávez decidiu não renovar a licença para a transmissão em sinal aberto da Rádio Caracas Televisão). No caso de Evo Morales, percebe-se também a tentativa de reduzir a desigualdade, um problema crônico presente em todos os países da América Latina. E se o Brasil e a Argentina não criarem políticas sociais similares farão com que uma geração inteira cresça sem perspectiva.

Leduc: Na medida em que os venezuelanos decidiram por Chávez e os bolivianos, por Evo Morales, em eleições democráticas -no caso de Chávez, em várias eleições (o candidato foi reeleito em dezembro de 2006) -, acredito que não podemos fazer nada. No máximo, deixar de nos meter nos assuntos dos dois países.

Giménez: Creio que toda mudança é positiva. Ao mesmo tempo, é difícil dizer se as políticas adotadas por Chávez e Morales são benéficas. De qualquer maneira, se eles foram eleitos pelas sociedades venezuelana e boliviana, respectivamente, é porque elas sentiram a necessidade de colocá-los no poder. É preciso sempre buscar o que as pessoas chamam de democracia.

Giroud: Não sou analista político, mas acredito que Chávez e Morales têm bons propósitos. Assim como o desempenho de um longa-metragem, é preciso um bom roteiro para guiar o país ao desenvolvimento. Acredito que as políticas implantadas por eles, apoiadas pelas classes menos favorecidas, têm gerado avanços sociais importantes. O problema é que tanto a classe média quanto a elite econômica da Venezuela e da Bolívia, preocupadas em não perder status, temem mudanças radicais.

Hermida: Creio que cada um desses governos -e acrescento também o do presidente Rafael Correa- têm projetos distintos, uma vez que Venezuela, Bolívia e Equador são países com situações e histórias diferentes. O que os une é uma tendência -que pode ser chamada de esquerda, mas creio que podem ser inventados novos nomes- que busca dar mais poder à sociedade do que ao chamado “livre mercado”. Ou seja, uma tendência na qual o capital está subordinado ao bem-estar dos seres humanos, e não o contrário, o que predominou nos últimos anos. Ao mesmo tempo, acredito que estamos em um momento de “crise dos modelos” e, por essa razão, é preciso inventar um modelo singular para casa país. Como equatoriana, acredito que o projeto do governo Rafael Correa está abrindo as portas a uma nova era para meu país, pois se propõe a romper com a dicotomia Estado-mercado, dando à população o poder de propor modelos próprios por meio da participação democrática.


Você acredita na possibilidade de uma unidade latino-americana, mesmo com tantos contrastes geográficos e as dificuldades de trocas culturais?

Goggi: Eu percebo que, infelizmente, há um déficit e uma incomunicabilidade marcantes. Quando o assunto é a produção audiovisual, por exemplo, é triste constatar o pouco intercâmbio cultural. Ok, existem festivais de cinema, sim. Ao mesmo tempo, porém, o que é uma semana inteira de exibição de filmes latinos? E ao longo do ano: por que não são exibidos filmes latinos nas salas de cinema? A cinematografia da região só cresce por meio do intercâmbio cultural dos realizadores.

Leduc: A América Latina é um continente muito singular, muito parecido, mas também com grandes diferenças refletidas, inclusive, dentro dos próprios países. O México de hoje, por exemplo, é muito diferente do México de 20 anos atrás. Enquanto era mais liberal, hoje se mostra mais conservador (o presidente de direita Felipe Calderón venceu nas últimas eleições presidenciais, em 2006, o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador) e mais próximo da política norte-americana, características que influenciam a cultura produzida no país. Temos uma língua comum, fora o Brasil, o que acaba sendo uma barreira. Mas, mesmo assim, temos tradições e costumes muito semelhantes. No caso do cinema, houve um momento de intensa integração com o denominado “Novo Cinema Latino-Americano” (tendência dos anos 60 e 70 que reuniu cineastas como Fernando Birri, Tomás Gutiérrez e Glauber Rocha). No período, os diretores da região se reuniam, não para produzir filmes, mas para discutir leis e melhorias de condições de trabalho etc.

Giménez: Sempre há algo que nos une: entre outros fatos, temos a língua. No entanto, acho bastante complicado porque, pelo menos no Paraguai, a cultura é a última das preocupações do governo. Os profissionais paraguaios produzem praticamente sem apoio e com muito sacrifício.

Alcázar: Não só é possível, como fundamental. Somos um continente cheio de possibilidades. E tem uma diferença em relação à Europa. Posso estar exagerando, mas tenho a impressão de que a Europa tem uma tara visceral de se matar: basta lembrar as duas guerras mundiais, mas, que na verdade, foram muito mais guerras civis. Na América Latina, isso nunca ocorreu: na realidade, foram os europeus que vieram para cá e assassinaram os índios. Por aqui, não há antagonismo. Pode ser que, quando as sociedades latino-americanas se unirem, isso aflore, que nossas distâncias estejam nos preservando dessa possível loucura. Mas, de todo modo, eu tenho esperança de que ocorra a união latino-americana.

Giroud: Creio que sim. Sempre há pontos em comum, seja entre um cubano e um brasileiro, ou entre um cubano e um alemão. Cuba e Brasil, por exemplo, apresentam mais aspectos semelhantes do que Cuba e Equador ou Bolívia. Temos raízes históricas parecidas. A música é diferente, mas tenho a impressão de que tanto os brasileiros quanto os cubanos a sentem da mesma forma.

 
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