Com apenas dois longas, o diretor garantiu lugar seguro entre os novos autores do cinema francês
Um dos atributos principais dos chamados "autores de cinema" -dentro da perspectiva do termo inventado pelos críticos (e futuros cineastas) franceses dos anos 60- é a capacidade que alguns diretores têm de criar em seus filmes um universo facilmente reconhecível, formado por obras coerentes formal e tematicamente e que representam uma continuidade ou progressão da visão de mundo do seu criador.
Reconhecer e compreender os mundos criados por um autor ou artista são a base das reflexões sobre o estilo, segundo a definição de Nelson Goodman. A busca incessante de traços estilísticos que caracterizam determinado criador de obras artísticas ou literárias tem sido, assim, uma das frentes de batalhas dos estudos cinematográficos e da crítica de cinema atual. É reconfortante e inspirador reconhecer uma certa maneira de colocar a câmera, uma astúcia de montagem ou até mesmo a ocorrência de um determinado tipo de personages ou situações dentro da filmografia de um autor de cinema.
Nessa lógica, Alain Guiraudie -três curtas, dois médias e dois longas- pode não ser um dos cineastas mais reconhecidos pelo público no seu país de origem, a França, mas seguramente já tem lugar garantido no posto de autores do atual cinema francês.
Guiraudie conseguiu fato admirável: o de firmar seu nome no circuito de cinema de arte europeu antes mesmo de fazer seu primeiro longa-metragem. O média-metragem, formato ingrato que fica meio fora de lugar no circuito de festivais de curtas-metragem e que não possuem o status comercial ou simbólico de um longa, foi a maneira encontrada por Guiraudie para se demarcar dos seus pares.
Filmando sobretudo na região onde nasceu, cresceu e vive até hoje, o Sudoeste francês, Guiraudie evita as cidades grandes, as paisagens urbanas e mesmo os conflitos pequeno-burgueses que tais ambientes acarretam. Seu primeiro média metragem, "Du Soleil Pour les Gueux" (2001), titulo intraduzivel que significaria algo como "pérolas para os porcos", é uma ótima introdução ao diretor.
Dizer que o filme é totalmente rodado em espaços abertos, em cenas exclusivamente diurnas, onde não se tem à vista nenhuma construção feita pelo homem, é menosprezar a imensidão que se sobressai do filme. Imensidão não quer dizer necessariamente que as personagens aparecem em desvantagem perante a natureza que os cerca (o filme é todo em plano americano ou primeiro plano), mas que o ambiente influi diretamente na maneira de mover e agir dos personagens.
Em toda sua filmografia, Guiraudie oscila entre o concreto e o onírico, o palpável e o imaterial. Em "Du Soleil Pour les Gueux", essa dualidade de registro é a marca do filme. Nele, uma garota vinda da cidade (Nathalie Sanchez) se embrenha pelas montanhas de um país ao mesmo tempo imaginário e real para conhecer uma lenda da qual ela ouviu muito falar na cidade: a dos pastores de "ounaye" (pronuncia-se "unai").
"Ounaye" é, na verdade, uma palavra inventada por Guiraudie, a primeira das várias onomatopéias, epítetos e nomes próprios sonoramente poéticos que contaminam coisas, personagens e títulos dos seus filmes. O que vem a ser um "ounaye" e toda a mitologia em volta desse misterioso bicho é a peça-chave que afasta o filme de ser um banal registro ecológico ou um drama bucólico.
A busca de Nathalie Sanchez pelos "ounayes" tem muito da busca dos personagens de Michelangelo Antonioni, já que a coisa ou a pessoa procurada, em ambos os casos, é apenas uma fuga do mundo real e um pretexto que revelará dimensões desconhecidas do foro íntimo da pessoa que procura, e não do procurado.
Assim como em "A Aventura", clássico de 1960, em que a busca por uma garota desaparecida numa ilha aproxima as personagens de Monica Vitti e Gabrielle Ferzetti de uma maneira intensa e irremediável, Nathalie Sanchez vai acabar descobrindo sentimentos até então desconhecidos nos braços de um velho pastro de "ounayes" que atende pelo misterioso nome de Djema Gaouda Lon.
Guiraudie, que já era ator do seu curta "Os Heróis São Imortais" (1990), homenagem a "Esperando Godot", de Beckett, aparece em "Du Soleil… " como Carol Izba, um misto de bandido carismático do velho Oeste e maratonista sem limites. Izba dá um dos contrapontos realistas do filme, já que vem dele a única referência ao mundo concreto que cerca os personagens (ele procura inutilmente o caminho de Montpellier para, no final, decidir não ir mais a tal cidade, temendo sentir muita saudade da sua terra natal).
Izba corre durante o filme todo e cruza várias vezes o caminho de Nathalie ao fugir de um terrível caça recompensas. Ele acabará por testemunhar o feliz encontro da garota com o último pastor de ounaye da Guiraulândia.
Já no seu filme seguinte, "Ce Vieux Rêve Qui Bouge" (Este Velho Sonho que se Movimenta, 2001), Guiraudie deixa sua terra natal e a natureza dominante para vestir sua outra camisa: a de militante comunista, onde conquistas políticas e sociais se misturam a um interessante questionamento sobre a condição dos homossexuais no meio operário.
O cenário de "Ce Vieux Rêve Qui Bouge" é uma usina prestes a ser fechada, gerando nos operários total incerteza sobre o seu futuro -situação recorrente na Europa atual devido aos deslocamentos de fábricas e usinas do continente para países de mão-de-obra mais barata. Guiraudie imprime nos diálogos toda a sua ideologia de esquerda anticapitalista e evita mostrar o trabalho quando se discute justamente a validade de tal prática na sociedade atual -grande parte das cenas são rodadas no exterior da fábrica, durante a pausa dos empregados.
Os últimos dias já desencantados dos operários de "Ce Vieux Rêve... " são alterados pela chegada de um jovem metalúrgico encarregado de desmontar as últimas máquinas restantes. Pouco a pouco, o garoto vai despertando o desejo de um dos mais antigos trabalhadores da fábrica, assim como o do chefe de todos eles.
O tema da homossexualidade insere-se na trama como um fantasma, uma aparição que ronda as conversas e as atitudes dos personagens, mas que não materializa (não há sequer uma cena de sexo) e logo desaparece. O tratamento da homossexualidade no filme é bastante oportuno, já que o tema, tabu em meios até menos conservadores, torna-se verdadeiro assunto maldito numa sociedade proletária de uma cidade do interior.
A naturalidade com que Guiraudie trata a homossexualidade deixa seus filmes longe do simples e banal militantismo. A atemporalidade do universo guiraudiano e a sua quase completa "aterritorialidade" dá ao tema uma abordagem legítima e completamente inovadora.
Inserindo-se mais no cinema de gêneros, o primeiro longa do diretor, "Pas de Repos Pour les Braves" (Os Bravos Não Têm Descanso, 2003) é um faroeste rock-rural, que se organiza também em torno da busca: um jornalista justiceiro sai à caça de um garoto acusado de matar toda uma vila e que desapareceu do mapa.
Pouco dado à referências cinematográficas, Guiraudie se permitiu nesse filme assumir a influência de Glauber Rocha no seu cinema e a citar entre outros o clássico antibélico "Johnny Vai à Guerra" (o nome do justiceiro é Johnny Got, como o começo do titulo original do filme de Dalton Trumbo, "Johnny Got His Gun") e o cinema de Eisenstein (uma das personagens pede um drink desconhecido do barman chamado Potemkin).
Mas a maior referência do seu cinema está subentendida, na direção de atores. Assim como Robert Bresson, Guiraudie é contra o pseudonaturalismo que domina o cinema atual e também a "uniformização do mundo pela uniformização dos rostos". As falas dos personagens passeiam por textos originais, que apesar de banais e corriqueiros aparecem declamados e impostados na voz dos atores -estes, por sua vez, são estreantes ou semi-profissionais, todos oriundos da mesma região de origem do diretor.
O cinema de Alain é um cinema de utopias, alimentado por uma filosofia libertária que se relaciona ao pensamento dos transcendentalistas norte-americanos -atitude até então inédita no cinema europeu. "Ce Vieux Rêve Qui Bouge" termina com a canção "Villanelle", de Hector Berlioz, uma ode às alegrias e delícias da vida no campo, entoada em coro pelos técnicos (câmeras, diretor de platô, maquiadora, eletricistas) e pelo próprio diretor. Onirismo politico é uma corrente cinematográfica que nunca existiu, mas que poderia ter em Guiraudie seu primeiro e mais digno diretor.
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Pedro Maciel Guimarães
É jornalista, mestre em cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Trabalha atualmente em tese de doutorado sobre o cinema português e Manoel de Oliveira.