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Mas o século 19 foi o pior dos séculos tupiniquins. Não bastasse a derrota militar, o afetado Conde D’Eu, esposo da princesa Isabel de Orléans e Bragança, comandante de nosso (imenso) contingente militar, fez valer contra os “inimigos”, além da derrota no campo de batalha, a desonra, a vergonha, o ultraje. Alguma coisa assim como matar e escarrar em cima. E depois enxugar, com um lenço de seda, o suor das mãos.


De Ponta Porã a Sidrolândia

Em indiscernível trecho de Ponta Porã a Sidrolândia, chamado, sobretudo pelos índios, de mbiyá (estrela-do-céu) os caminhos se embaralham e, múltiplos, irradiam. Nesse ponto da estrada-de-chão pela qual se desviam montes e cerros da serra maracajuína, além do ruidoso e sempre arriscado asfalto da via estadual, como uma estrela de cinco pontas, vera viagem viajeira, a rota, de súbito, como que completamente se estilhaça.

Viaje conosco o epifânico leitor: abre-se a estrada em leque, puríssima geometria, de um ocre tijolo, baixo o sol e o escandaloso azul do céu matogrossero. Ampliada de savanas e campos a estrada a essa altura indica, faiscante jóia da manhã alta, não uma, duas ou três direções, mas uma infinidade delas, embruxado trevo de mil-folhas. Feito como se para convocar o viajante a perder-se num labirinto de caminhos e destinos.

Nenhuma placa, senhores, a nos informar aonde, levados por nosso automóvel amarelo, iremos dar, movidos pela esquiza obsessão de fazer das viagens, e da vida, um ofício em estado de insurgência, acossado, e, por isso mesmo, alguma vez, aterrador. Nada. O carro parado, só o vento zune na vastidão do verde sob o azul e mexe, aqui e ali, discreto, galhos e flores, as rebeladas folhinhas dos arbustos do chão. O silêncio silva no vento que nos alvoroça os cabelos com uma insistência de vento ponteiro ao revés do revés. Ou seriam os bóreas, ventos vindos do Norte com notícias antigas feito morrer?


Caminhos, fronteiras

Ali, no centro da estrela, trevo, procela, todos os caminhos hão de reandar os reinumeráveis caminhos, por mais diversa seja a fronteira que me separa de ti, Amor, e de vossa alvar doçura de cão. Impossível, no quase meio-dia, encarar de frente o sol que nos aflige a pele como agulhas. Rumoreja, dos meandros das pedras, no riachinho que serpenteia ao longo da estrada, ainda antes do trevo, sussurrante a canção d’água nos seixos –abaixo, muito abaixo da linha do silêncio.

Nem o gavião-salveiro, nem o empenachado seu semelhante, o gavião-rei, nem eles nem ninguém, capazes são de nos definir os caminhos, tantos, que parecem nascidos do chão e projetados para além, muito além do que sonha o sonho fronteiro de um homem e sua vida andeja. Um homem, diga-se, e sua mágoa –nascida talvez do espanto de estar vivo.

Ainda que voem gaviões e ararinhas, de todos os lados por onde refluem as rotas estradeiras do trevo-de-mil-caminhos, não saberão indicar jamais ao viajante o melhor destino. O carro parado, animal amarelo de quatro portas escancaradas como asas, observamos um silêncio quase religioso.

Há a multiplicidade de caminhos, fronteira; o céu e as aves do céu; o azul a pino que é quase um grito de lâmina ao sol, fronteira; e tudo o que chora nosso medo assim, fronteira, como um tapa no escuro; há a hora igüana de vossa ausência, fronteira; el troca-tiroteo na madrugada entre velhos cadilaques cênicos e amedrontadores, fronteira; el monflôrito de Panamba’í, fronteira; a pânica angústia como um alarme do corpo, fronteira.

Examino o céu e o meio-dia in punto em que pelos arbustos e esparsas árvores ciciam as cigarras desatinadas. Tudo é o cerro e a estrada de mil pontas –estrela a indicar os insuspeitados caminhos. Mbiyá.


Guarânia e solidão

Que caminho tomar? Em que folha do trevo-de-mil-folhas pôr o carro em marcha? Tantas as rotas, fronteira, capaz nenhuma delas satisfaça o nosso dúbio desejo de reandar as gozosas esferas do paraíso, fronteira; tudo o que na precária linha-de-equilíbrio, margem e limite, sejam os dois lados do coração; e acima de nós, bem acima de nós, o vasto céu –imprevisível como vossa carícia, Amor, feita de chistes e carrapichos, nomeados estes, nestas paragens e paisagens perdidas de um Deus, como amores-do-campo-sujo, os carrapichos.

Mas tudo é o céu matogrossero que já vai acumulando nuvens, brancas e alongadas a princípio, fugidio desenho a algodão-doce, mais alvas do que as garças que revoam, intermitentes, as frondosas andá-açus –solitárias nos campos em torno, com uma convicção de vegetal insubstituível. E o que era até agora há pouco o sol a pino já se torna e conforma em nimbo o céu onde sem pressa esmaece o azul.

Na libreta comprada no multishopping contrabandero de Luciernes, ali onde impera o senhor da fronteira, dom Acelo Acevedo de Cadiz, jefe y condottiere, anoto as nuanças do céu que, sem pressa, mas com insistência nunca interrompida, vai transtornando o até então fixo azul em esparsos aglomerados de nuvens. Aqui e ali, em claro cinza, a esmaecer igual fosse só uma miragem que os olhos recolhem –numa expectativa de quem pressente, pelo vento e pelas cambiâncias do céu, que vem de longe, mas sempre a caminho, o caudal furioso de iminente tempestade.

O calor aumenta consideravelmente. Ciciam ainda mais estridentes as cigarras. Cessam os ventos. Não mexe uma folha no ar parado. Bandos multiformes de mínimos pássaros, a sugerir um enxame de insetos, voam em fuga, volitam, revoam, e infestam o ar já cinza-escuro –tensionado em quase noite ao fulgor assombrado. A ararinha azul corta a noite enganosa, pequenina e fugitiva, numa solidão de pássaro muito anterior a nós e ao nosso desamparo, Amor, feito de quimeras e de fronteiras, misturações e borraduras. Vai na exuberância de tempestade que se anuncia, o inaudito receio de que nos percamos de nós e de nossa nívea ternura de animais para sempre caídos.

Ainda ontem presos ao bote e às ranhuras de presas em meio ao serpentuário de nossos sentimentos desencontrados, Amor, e agora atados à grandeza vil de uma expectação que já tempesteia no vento furioso que retorce as árvores e também os arbustos do chão. É a chuva que, a princípio em grossos pingos, que a terra engole com avidez, logo desaba e fustiga, retorce e faz gemer mesmo o caule grosso da andá-açu encharcada de pássaros e de folhas. E lava, a enxurrada, os veios do chão, a margem da estrada. Dentro do carro, de janelas cerradas, é como se estivéssemos, eu e meu compadre Dieguêz, prestes a ser engolidos pela água que transborda e canta na lataria, a chicotadas contínuas, feito fosse o derradeiro dia da Criação.


Água e olor

Quietos, respeitadores das águas insanas, acendemos um cigarro perfumado e fumamos, os dois, a tragadas fundas, o bom tabaco de Alianza, que vem em caixetas torneadas, ornada por um rótulo multicolor, e a encimar, em arco, um tosco desenho de lírio vermelho, a inscrição –“Flor do Pantanal“.

Aqui ficaremos, nós e nossos cigarros que perfumam, de raro olor, o automóvel de janelas hermeticamente fechadas até que as águas acordem por todo o universo matogrossero, borrascoso e úmido, os sapos que cantam numa algaravia de trinos e coaxos de musical aleluia. Fronteira.


Publicado em 17/7/2007

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Wilson Bueno
É escritor, autor, entre outros títulos, do livro de fábulas "Cachorros do Céu" (ed. Planeta), que esteve entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom de 2006.

 
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