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cosmópolis
PAISAGENS

Diário da fronteira
Por Wilson Bueno

Abre-se a estrada em leque, puríssima geometria, de um ocre tijolo, baixo o escandaloso azul do céu sul-matogrossense

O gavião-de-aruá

Leitor, amigo leitor, trago os olhos cheios de paisagem. Paisagens ao longo de estradas e caminhitos, rios, riachos, veras veredas sul-matogrossenses. E me permito aqui, desde este hotel-cabana da boca da serra de Maracajú, dar-vos, linha por linha, este diário da fronteira.

Fora, borboletas e pássaros; o crocitar do gavião-de-aruá, invariavelmente solitário, nunca saciado dos grandes caramujos que infestam as margens do Aquidaban-Niguí. Outras vezes, pousado às ramas mais altas da palmeirinha-anã, a suspender, no recurvo bico, a lesma enorme. Os olhos de rapina, vigilantes e perscrutadores.

Arisco, ao menor ruído, mesmo de um vento e seu fragor estrépito, voa grande e fugitivo, o gavião-de-aruá, também chamado de pinhé, pinhém, ximango-caramujeiro. O uruá é uma festa -da savana ao cerro cerrado das vastidões matogrosseras. À toda hora, da janela é ele que vejo, como se fôra uma ave mítica; ave-de-cinco-asas da mitologia ancestral. Muito antes de nós e dos avós de nossos avós.


A coral em flor

Impossível perceber a coral -pequenina e traiçoeira, enrolada em si em meio a flores e ao mato-carrapicheiro. Tão mimética que é capaz, a coral, de se fazer confundir com a dália-do-bispo, rubra e furta-cor -já não sabemos se cobra ou dália, cipó ou serpente. Os índios guardam, pela coral, um respeito que é junto de Deus e das mais agressivas entidades da noite.

Mboichumbé –entre os guaranis quer dizer bem mais que cobra ou bicho peçonhento. É a própria peçonha a coral com jeito de cipó-em-flor, como se existisse ali para ser pisada e pronta ao bote, a assassina. Há rezas-brabas para nos livrar de sua picada mortal e, contra ela, pasmem!, ainda não se inventou soro capaz de lhe neutralizar o veneno.

Não entramos nunca, mesmo no capão mais doméstico e quintal, sem que invoquemos La Virgenzita de Caacupê, capaz desta e de outras inenarráveis proteções. Sobretudo se é noite e a mboichumbé finge, na barranca do rio, uma forma indizível de flor.


O gato de cinco patas

Já na terceira noite ao sopé maracajuíno convidaram-nos a avistar, desde o pátio do hotel-cabana, dali mesmo, posto que ninguém se atreve a furar o cerco do mato em torno, espesso e tenebroso, nada mais nada menos do que o mbaracajá. Esquiza forma de gato selvagem –mais para monstro índio do que para animal cotidiano, o mbaracajá, nos garantem os guias da floresta, tem como que cinco patas y dos colas (cinco patas e duas caudas).

Aqui estamos, agora, tarde da noite, as lanternas apagadas por instrução dos guias, esperando, esperando... Há de miar o seu miado estertorante o mbaracajá. Os índios da fronteira, quando o encontram, ante a visão lanosa e felpuda de cinco patas y dos colas, batem os punhos fechados contra o coração. Sabem para quê? Para que nunca mais, e sob qualquer hipótese, a saudade venha a morder ali o seu desespero sabendo a vinagre e sal.


Pedro Juan Caballero

Às quatro horas em ponto da tarde de sol e ventos, eu e meu compadre brasiguayo, Douglas Diegues, também conhecido como o poeta Diégo, Dieguêz, fomos visitar o sr. Liu. De Ponta Porã a Pedro Juan Caballero, apenas o trabalho de atravessar uma praça e caminhar no ar já gelado aí umas cinco quadras.

Taoísta praticante, indiscerníveis 37 anos, zenbúdico ser de 1 metro e 50 (se tanto...), vestido numa calça vietnamita pouco acima dos tornozelos, a ressaltar, ainda mais, os minúsculos pezitos enfiados em não menor chinelinho-de-dedo, sr. Liu é o mais exímio cultor de orquídeas e borboletas da fronteira. E nos recebe em sua loja florida, o fixo e permanente sorriso. Nos fundos da loja, quase invisíveis, a mulher; e a filha, menina.

Toda uma orquestração de gestos miúdos e miúdos movimentos; invariável, uma mudez de pedra. Ainda que sempre risonho, feito a algaravia, uma flor que só prospera em Cerro-Corá, nas nascentes do Aquidaban murmuroso, e tem o rubro desenho de uma gargalhada cheia de dentes.

Convidando-nos a sentar em torno de baixíssima mesa de centro, sem os sapatos, sobre um tapetinho ornado de ramalhetes e folhas, o sr. Liu retira de uma pequena caixa os apetrechos para a cerimônia do chá. Do chá verde, senhores, que nos arranca de dentro o que os guaranis chamam de epóxi, o desconforto d’alma, também conhecido como angústia, coisa-ruim.

Uma a uma depositou na mesa as minúsculas xícaras da mais legítima porcelana de Taiwan; e a seguir, sob um silêncio que já me incomodava, também a chaleirinha-de-ferro, até a boca com o chá verde dos Himalaias.

Isto posto, em novo sorriso, e ainda o imutável silêncio, como que nos pediu licença e deixou a sala, para voltar segundos depois com a mais ocidental das chaleiras de alumínio onde fervia a boa água de Pedro Juan Caballero. A água fumegante deitada à chaleirinha-de-ferro, ainda esperamos, seguramente uns dez minutos, antes que nos servisse o verde líquido translúcido nas minúsculas xícaras taiwanesas.

Ensaiei um brinde para, no mínimo, quebrar o gelo. E aí, pela primeira vez, ouvi a fala chino-paraguaya do sr. Liu:

– No se ússa, esto, brinde... Tchá es só toma, nô? – e pôs de novo, entre os lábios, o fixo sorriso.

De meu lado, escondi a cara mais desenxabida do mundo, enquanto sorvia o chá verde dos Himalaias. Quieto, como convinha à ocasião e, me parece, ao indispensável (e gritante) silêncio... Diegues tinha os olhos baixos quase fixos no chão, a xicarazinha junto à boca.

– Sr. Liu – ousei – nunca vi chá com tamanho sabor... Ainda que sem açúcar é o chá mais delicioso que jamais provei...

– Tchá no ê deliciôsso, no! Tchá es cerimônia – de novo nos impôs suas verdades, o sr. Liu, o inenarrável sotaque chino-paraguayo. E continuou – Este es do montaña mais alto, nô? Tchá do Himalaia. Tira ipotchy do corazón. Tchá no puede ser deliciôsso. Pecado este, achar tchá deliciôsso...

Já o considerando mais au(sen)te do que “zen” e já pronto a classificá-lo como autoritário pentelho oriental, o sr. Liu saiu-se com esta, mais que definitiva, e que continuou a me ecoar noite adentro nos ouvidos e no coração:

– Tomá tchá do más alto montanha es igual haicai... – E pediu a Diegues que recitasse o haicai:

– Qual, sr. Lui? Aquele? Ao “Fujie sobes/pequeno caracol/mas sobes...”

– Ête!!! Ête mismo! – e rasgou, o sr. Lui, um franzidíssimo riso até as orelhas.


Emas & estradas

De Ponta Porã a Sidrolândia, estradas de chão, ocres, de fina areia, firme e macia como o melhor asfalto, a guardar ainda a umidade das chuvas de há uma semana. Por elas, o carro desliza, quase sem levantar poeira. Não, nenhuma lama ou buraco. Só a suavíssima ondulação da estrada a rasgar o interior do interior das terras sul-matogrossenses.

E lá vamos nós colher algaravilhas às margens do Aquidaban murmuroso. Eu e meu compadre Dieguêz. O vento, a entrar pelas janelas abertas do carro, com uma violência de seda, zune, ensurdece, e traz até nós o cheiro intenso do capim-limão, em gigantescas touceiras, ao longo das duas margens da estrada. Cortam a paisagem, em bandos, os papagaios-do-cerro. Tudo aqui é opulência e excesso. O mundo incriado, muito antes de ele existir um dia...

Então, senhores, é que acontece: como uma manada de bois de pena e asas, bichos anteriores ao Dilúvio, em bandos de cem, duzentas cabeças, as emas galopam a súbita savana, a 40 kms de Sidrolândia. E vão num estouro que chega a produzir sons arrepiantes, umas coladas às outras, a massa de emas, também conhecidas como avestruz, e que os guaranis chamam de ñanduguasú. Guardam pela ñandú um respeito quase religioso, como, de resto, por todos os animais tocados pelo sopro do grande Deus.

Paramos o carro. Cessa o vento. Aumenta o tropel das emas – cinzas; ao sol, quase metálicas, contra a savana verde. Eu e meu compadre Diégo, Dieguêz, ficamos em silêncio. Os olhos esperam, e guardam, como num espelho, a paisagem de prata e pena, rumor e ronco, arrepiante rugir. Até o bando desaparecer na savana como se o engolisse o horizonte.


Caracol multicor

A fronteira é o habitat de um exótico caracol. Ainda antes de Cerro-Corá, ali onde jaz a tumba de Lopes, e sobre a qual deitei um lírio selvagem, ele existe em profusão. Os índios o chamam de guatapí, caramujo gigante.

A gosma que deixam, os guatapís, ao longo de sua passagem -infinitamente mais brilhante do que a das lemas domésticas, reverbera ao sol como se fôra caminhos pisados de uma estranha fosforescência. Multicor, senhores. De assim, o que se vê são trilhas, inúmeras, caóticas, a se entrecruzarem, riscos vertiginosos de mil arco-íris na firme areia, ali onde há muitos milhões de anos, foi o mar. O extenso e grandioso mar paraguayo. Habitado hoje pelo caracol de Cerro-Corá e a sua esquiza mania de desenhar a lápis-de-cor luminescente as nervuras do chão.


Índio & borracho

De Sidrolândia a Campo Grande eles vão pelas margens da estrada -rotos, maltrapilhos, estropiados. Por vezes, famílias inteiras, as trouxas equilibradas às cabeças, as crianças sujinhas e ranhentas, quase sempre nuas, e de grandes, intumescidas barrigas.

Acenam aos (raros) veículos que passam. E é um aceno trêmulo, hesitante. Diminuímos a marcha do carro para ver melhor como é que pelas estradas se arrastam, sobreviventes de nós, os brancos, seus algozes. Percebo que quase riem, a boca de dentes cariados ou desdentada.

Aí é que me revolto brutalmente contra o céu e a manhã matogrossera: são os guaranis, os gloriosos índios guaranis, ou o que restou deles –minados pelo alcoolismo, devorados pela cachaça ordinária que conseguem nem que seja em troca das filhas ou da roupa do corpo. Roupa? Frangalhos, farrapos...


Campo Grande

De Sidrolândia a Ponta Porã; dos cumes e enleios da sinuosa serra maracajuína às areias e savanas do ancestral mar paraguayo de Cerro-Corá e adjacências; de Alvoradóz a Pedro Juan Caballero; do pátio de pedras vermelhas da mansão de Don Acelo Acevedo de Cadiz, em Luciernes, à choça guarani de Guapí Montezino, o índio mais índio dessas paragens -com a (mágica) manipulação de suas poções de encantamento e embrujo, a fronteira, senhores, é uma ponte móvel pensa sobre o abismo. Olor y espinhos.

A fronteira é maior, bem maior do que o generoso coração do viajante, mesmo o mais peregrino. Coração que andou por fronteiriças vertigens e precipícios; rios e cascatas; campos, bichos, árvores, flores.

Em Pedro Juan Caballero, por exemplo, andar e andar as ruas desertas às três horas da madrugada, eu e o meu compadre Dieguêz, dispostos a surpreender la novia fantasma. Sim, ela, a embrujada, que arrasta o longo vestido branco pelas empoeiradas ruas barrancosas da cidade-símbolo da fronteira, a cidade-cacto, a cidade-pedregosa, poeirenta, habitada de uivos e espectros, la gran ciudad de Pedro Juan Caballero. Con sus novias fantasmas embrujadas de blanco.

E, claro, afora um que outro bar, de luzes multicolores na fachada ou um que outro cão noturno e magro, o que vimos foi apenas o céu despejado de estrelas, o frio como agulhas no inverno da fronteira. E o vento, que vem de longe, de muito longe, de Cerro-Corá, talvez. Ou de outro mundo, tão gelado é o vento e a noite em que anda, inapreensível aos olhos e às mãos, la novia fantasma de Pedro Juan Caballero. Em que lápide oscura su guirlanda de flores?


A tumba de Lopes

Silêncio. A tarde azul desaba sobre a mata intocada de Cerro-Corá. A mata ali desde o início dos tempos. E, desde 1870, ao final da cruenta e sanguinária Guerra do Paraguai, também ali, cavada com as mãos por Madama Linch, a esposa eterna, a tumba del Mariscal Francisco Solano Lopes. Morto com certeiro golpe de lança, bem no centro do coração, pelo demoníaco brasileño Chico Diabo.

Bem próxima, não mais que trinta metros, a tumba de Panchito Lopes, o filho amado do Mariscal e Madama Linch, tumba igualmente cavada com as mãos em carne viva pela mãe, alucinada, baixo os farrapos de uma guerra para sempre perdida.

Com delicadeza e concentração, arranquei, da mata virgem de Cerro-Corá, um lírio selvagem, e o deitei, reverente, sobre a tumba de Lopes. E uma branca e desconhecida flor, pequenina, em cachos, esta a depositei, com mesma reverência, na sepultura do ajudante-de-ordens, e filho do Mariscal, el coronel Panchito Lopes.

Mortos ambos ali, em Cerro-Corá, na vergonhosa e sanguinária humilhação que impusemos, o exército imperial brasileiro, às maltrapilhas e famintas forças paraguaias, de há muito já vencidas.

 
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