a.r.t.e.
O compositor americano, um dos mais ilustres do pós-modernismo, esteve em São Paulo para palestras e concerto
A uma pequena peça com caráter de abertura, escrita em linguagem mais tradicional e que denunciava a influência de Aaron Copland, seguia-se um concerto para clarinete de execução dificílima, linguagem contemporânea e orquestração inusual. Para encerrar, uma grandiosa sinfonia, que mesclava estas duas linguagens e acrescentava pitadas de um romantismo mahleriano.
Assim foi o programa do concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, na última noite do mês de maio na Sala São Paulo. Curioso, no entanto, era observar que estas três obras tão díspares haviam sido escritas por um mesmo compositor: John Corigliano. Também presente no espetáculo, o nova-iorquino nascido em 1938 acompanhava cada compasso de suas composições, instalado em um camarote logo acima da orquestra.
À tarde, havia estado na USP, a convite do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes, onde discursara e debatera a respeito de suas obras e idéias para uma platéia que contava com a presença de alguns dos mais destacados compositores locais, tais como Ronaldo Miranda, José Antônio de Almeida Prado, Marisa Rezende, entre outros.
Com a mesma clareza com que se organizam suas obras, Corigliano falou sobre suas idéias, suas obras, seus métodos e técnicas de composição. Questionado acerca de sua posição perante o panorama musical atual, exaltou em sua resposta a liberdade estética e técnica dos tempos atuais, em detrimento do que classificou como uma postura “fundamentalista” dos compositores ligados ao serialismo integral, poética predominante nas décadas de 1950 e 60. “As técnicas estão todas em minha mente. Uso-as conforme as necessito”, disse.
Tal liberdade havia permitido ao compositor justapor em seu “Concerto para Clarinete” (1977) passagens cromáticas organizadas a partir de uma série dodecafônica a uma citação de uma sonata de Giovanni Gabrieli, escrita em 1597; ou ainda incluir uma tarantela como segundo movimento de sua “Sinfonia nº.1” (1988). Segundo Corigliano, não haveria mais barreiras estéticas neste mundo globalizado e internetizado. Todas as técnicas e estéticas surgidas ao longo do século XX, por mais antagônicas que fossem, poderiam agora se unir a 700 anos da tradição musical ocidental, aglomerando-se em uma só peça.
Além disso, ao que podemos deduzir de suas obras, são bem-vindos de volta à música contemporânea a melodia e a tonalidade da harmonia clássica, assim como estão abertas as portas para ritmos e gêneros advindos da música popular e folclórica de qualquer parte do mundo.
Este ecletismo, porém, não é uma característica exclusiva da música de John Corigliano. Ele insere o compositor em um contexto que a historiografia musical recente -não sem a desconfiança de muitos- tende a denominar como pós-modernismo, aproximando as obras de Corigliano às de compositores como o russo Alfred Schnittke, o estoniano Arvo Pärt, os poloneses Henryk Górecki e Krzysztof Penderecki (em sua fase mais recente) e, no panorama nacional, de compositores como Gilberto Mendes.
Como se pode averiguar por suas obras, esse ecletismo se manifesta nestes compositores ditos pós-modernos como uma clara intenção de restabelecer uma conexão entre suas composições e a História, seja pelo uso de citações ou alusões a músicas já existentes, ou pelo emprego de gêneros, técnicas e estruturas relacionados a outras épocas e tradições.
Entretanto, o que haveria de novo nesta postura? E o que a diferenciaria dentro da história da música? O ecletismo já não estaria presente, por exemplo, em Monteverdi, ao lançar mão da prima e da seconda pratica, alinhadas respectivamente às estéticas renascentista e barroca? A referência a músicas populares já não se faria sentir em compositores como Tchaikóvski e Dvorák, que construíam sinfonias a partir de temas inspirados no folclore?
Como se vê, muitos dos procedimentos observados nesta nova música pós-moderna não correspondem com o mesmo grau de novidade, sendo recorrentes em séculos de história da música. O fato é que a atitude destes compositores só pode ser compreendida se colocada em oposição direta à tendência que a precedeu, isto é, às poéticas ligadas ao serialismo integral.
Durante os 20 anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial, imbuídos da sensação de que a velha cultura européia havia culminado na destruição que se observava por toda parte, alguns compositores, como Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez e muitos outros, teriam empreendido um radical rompimento com tudo o que se ligava à música tradicional, à época diretamente relacionada às propagandas nazistas, fascistas e stalinistas. Posteriormente, em meados da década de 1970, superados alguns dos traumas da guerra, entrariam em cena compositores buscando reatar os laços com a tradição, restabelecendo um diálogo entre o presente e o passado musicais.
É nesse contexto que se insere John Corigliano. Referências à tradição musical estão presentes no todo e em cada compasso de suas obras. Ele toma de empréstimo gêneros clássicos, como a sinfonia ou o concerto, e os recheia de alusões tanto a obras consagradas do repertório quanto a pequenas estruturas tradicionais, como o motivo melódico ou mesmo o acorde perfeito.
Tais alusões são geralmente expostas de maneira clara e escancarada ao ouvinte, e Corigliano é mestre em costurá-las em um contexto incrivelmente homogêneo. No entanto, é preciso dizer que esta referencialidade se dá por vezes de maneira óbvia e estereotipada. Em sua “Sinfonia nº.1“, composta em homenagem a vários de seus amigos mortos pela Aids, o compositor elabora uma pequena melodia para cada uma destas vítimas, conectando-as em uma colcha de retalhos, à maneira daquelas montagens que se fazem com fotos de pessoas que se foram. O caráter triste que Corigliano imprime a cada uma destas melodias, contudo, é similar ao que ilustra cenas tristes em filmes hollywoodianos dos mais pasteurizados.
O fato de Corigliano não procurar por novos meios melódicos para expressar sua tristeza aponta para uma outra característica do chamado pós-modernismo musical. Se as poéticas do pós-guerra se destacaram pelo caráter experimental de suas composições, especulando acerca dos parâmetros que norteiam do discurso musical, como a harmonia, os timbres e texturas, a orquestração e tantos outros, os compositores do pós-modernismo parecem se portar de modo muito mais conformista. Talvez pela comodidade de disporem de vários séculos de repertório e técnica musical prontos para o uso, eles tenham se aposentado da arriscada atividade especulativa.
A mensagem que se extrai disso denota um certo pessimismo. Tem-se a impressão de que o novo se esgotou, e que apenas nos resta reorganizar o velho. No contexto histórico em que se insere, esta postura conformista coincide com o enfraquecimento das utopias nas últimas décadas do século XX.
Nascido durante o Renascimento, em substituição à religião que perdia força nos meios humanistas, o pensamento utopista se alicerçava grosso modo sobre o preceito de que o ideal de perfeição não se encontrava em um mundo além e inatingível, como criam os medievais, mas poderia ser alcançado pelo empreendimento dos homens.
Não por acaso, a religiosidade é outro fator que volta a se manifestar na música destes compositores pós-modernos e pós-utópicos. Na “Sinfonia nº.1” de Corigliano, ela surge sob a forma de um ritual fúnebre em memória de seus amigos, mais claramente no movimento final da obra. Em outros compositores, a religiosidade chega a ser o pretexto central da obra, como é o caso de Pärt ou Górecki.
Extramusicalmente, outro fator que permite agrupar estes compositores sob um mesmo rótulo é o seu discurso. A libertação das amarras seriais e a conseqüente reabertura dos ouvidos para toda a história da música ecoam em suas falas e sintetizam-se musicalmente no que Alfred Schnittke viria a denominar “poliestilismo”, poética da qual a obra de Corigliano é um bom exemplo.
Entretanto, é curioso observar que, livres das restrições seriais, compositores de histórias e caracteres tão diversos, espalhados por regiões geográfica e culturalmente tão afastadas, como a Rússia, os Estados Unidos e o Brasil, tenham encontrado um mesmo caminho no usufruto desta liberdade, enquanto compositores que jamais se desvincularam totalmente de alguns preceitos seriais, como Stockhausen, Luigi Nono ou Iannis Xenakis, puderam trilhar caminhos muito mais diversos uns dos outros. A diversidade, porém, se não se manifesta na ideologia dos compositores do pós-modernismo, é gritante em suas obras, como ficou claro ao longo das três peças de John Corigliano executadas pela Osesp.
O que ouvir:
John Corigliano:
- Sinfonia nº.1
- Concerto para Clarinete
Outros compositores “pós-modernos:
- Alfred Schnittke: Concerto Grosso nº.1
- Henryk Górecki: Sinfonia nº. 3
- Arvo Pärt: Tabula Rasa
Publicado em 17/7/2007
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Matheus G. Bitondi
É compositor, mestre em análise musical pela Unesp.