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Boal: Acho que o que falta é uma mobilização popular mais intensa. O MST está mobilizado e ocupando terras não-produtivas. Ele pode ocupar mais ainda, e as outras organizações sociais deveriam fazer a mesma coisa, porque acho que não é uma pessoa no governo que vai resolver nada. Quem resolve é a pressão popular. Sempre foi assim.


A imprensa brasileira não tem muito interesse em falar do saldo positivo do governo Lula. O que ele fez de positivo no terreno da cultura?

Boal: Acho que o bolsa família é muito positivo. As pessoas dizem que é caridade. E o direito ao “salário de desemprego” é assistencialismo, caridade? Não, na França o trabalhador tem o direito de ser sustentado pela sociedade que não lhe oferece oportunidade de trabalho. Ele vai fazer o quê? Ficar marginalizado, passar fome?

A sociedade tem que incluir todos os habitantes como sócios. Então, aqueles habitantes que não têm chances têm que ser assistidos, mas não é assistencialismo, é um direito do trabalhador. O governo Lula deu esse direito a 11 milhões de famílias. Isso corresponde a quase 50 milhões de pessoas. Acho importante a abertura de comércio externo em países que não dependem da mediação dos Estados Unidos. Acho importante o que estão tentando fazer no Mercosul, que o comércio seja feito nas moedas locais, sem passar pelo dólar.


E no terreno cultural?

Boal: O ministro Gilberto Gil já fez mais de 500 pontos de cultura. Os pontos de cultura eram um desejo de muita gente desde a primeira campanha de Lula, em 1989. Tinha nomes diferentes. Mas o que Gilberto Gil fez de melhor foi não criar de cima para baixo os centros de cultura, mas verificar onde já existiam embriões de centros de cultura e aí reforçar os centros que podem ir mais para a música, mais para o cinema, mais para a dança, para uma mistura de tudo.

Em todo o país já existem mais de 500, mas também existem em Moçambique, em Guiné Bissau e em outros países onde há comunidades brasileiras importantes. Em Calcutá, vai haver um, pelo fato de haver o Teatro do Oprimido lá. Na França e na Alemanha também existem pontos de cultura ligados ao Brasil.


Você tem um livro que se chama “O Teatro Como Arte Marcial”. O que você quer dizer com o título?

Boal: Acho que as artes marciais são sobretudo artes de defesa. E de afirmação. Aplicado ao teatro é isso. Não é uma arte para ser admirada de longe, para ser vista, se usa como uma arma, como uma arte de guerra. Em Paris, há um grupo Ambaata que já tem cerca de 20 pessoas. São imigrantes, da África e do Magreb, e aqui a imigração sofre uma rejeição violenta de parte da sociedade.

A França e outros países da Europa colonizaram parte da África e agora é normal que eles venham para cá. Tem que se procurar o convívio. A África foi tão explorada... Agora eles vêm para casa do invasor, falando a língua do invasor. O Ambaata tem pessoas da Argélia e da África. Aqui existe uma hostilidade aberta.


Quando você está na Europa, você vai ao teatro? O que você pensa das novas práticas teatrais na França e na Europa?

Boal: Quando venho, em geral é para trabalhar e não tenho muito tempo de ir ao teatro. Conheci muito bem o teatro alemão. Na Inglaterra, trabalhei com o Royal Shakespeare Company. Tenho a impressão de que, quando o teatro é apoiado maciçamente pelo Estado, o Estado é o diretor artístico. Em alguns países, como a Alemanha e a Áustria, eles têm o teatro local que tem a obrigação de fazer um repertório variado.

Existe a censura policial que a gente sofria da ditadura e a censura sedutora que é a do dinheiro: “Se fizer o que eu quero, tem dinheiro se não fizer, não tem”. No Brasil, atualmente, é assim, com a lei Rouanet. Quem é o diretor artístico das companhias são as grandes empresas, as pessoas que trabalham nas grandes empresas.

O Rouanet convidou várias pessoas de teatro para conversar sobre a lei que ia ser proposta. Eu disse a ele que, a partir do momento em que você tem que submeter sua proposta a uma empresa, é evidente que esta empresa vai dizer o que ela subvenciona ou não.


Você começou fazendo teatro como diretor e dramaturgo, com um grupo de atores em cena e um público que assistia ao espetáculo passivamente. Hoje esse teatro sem interatividade não interessa mais a você?

Boal: Neste mês está estreando em Lisboa uma peça que escrevi recentemente, “A Herança Maldita”, uma metáfora do que acontece no Rio de Janeiro, a violência extraordinária e, ao mesmo tempo, o que acontece no mundo. Acho que o capitalismo está destruindo a Terra. Antes ele estava interessado em destruir metade da humanidade. Agora, ele vai destruir a Terra inteira. E não vejo nenhuma solução dentro dessa forma competitiva tal como ele se apresenta.

Por exemplo, nos Estados Unidos eles não querem parar de poluir, porque é inerente ao sistema capitalista. Para parar de poluir tem que parar de crescer, parar com o capitalismo. Tem que inventar uma forma nova de socialismo. Se é capitalismo, tem que ter lucro e mais lucro que os outros. Então, tem que concentrar mais as riquezas, fundir empresas e produzir, produzir. Existem carros no mundo em quantidade suficiente para abastecer o mundo inteiro. Eles já podem parar de fazer carros. Mas, se pararem, perdem mercado, vendem menos. Os próprios operários ficariam desempregados, vão fazer o quê?


A peça “A Herança Maldita” fala disso?

Boal: Fala, metaforicamente. O que acontece no mundo é metaforicamente mostrado numa família. O capitalismo está fadado a ser isso. Eles vão se matar uns aos outros. Ele antes destruiu metade da África pela Aids e pela fome. Mas não tem importância porque é a África.

Seria preciso reduzir a emissão de CO2 em 50%. Toda a produção deveria ser dirigida para o que fosse necessário. A lógica do lucro é que governa o mundo, que vejo caminhando para um desastre. A destruição ecológica é sintoma de um mundo que está sendo arruinado.


Por que o Brasil não tem um jornal cotidiano de esquerda?

Boal: Não temos diários de circulação nacional. Faz uma falta imensa. Houve época em que havia jornais de esquerda no Brasil: “Última Hora”, “Correio da Manhã”... Havia um momento no Brasil em que se distinguia a “burguesia nacionalista” e a “burguesia entreguista”. Hoje não se fala de empresários nacionalistas, patriotas.

Atualmente existe um jornal chamado “Brasil de fato”, de esquerda, ligado ao MST. Mas não é encontrado em todos os quiosques e nem é diário.


Uma versão reduzida desta entrevista foi publicada no jornal francês de esquerda “L’Humanité”


Publicado em 7/7/2007

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Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

 
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