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dossiê
VOZES DISSONANTES

O teatro contra a opressão
Por Leneide Duarte-Plon

O dramaturgo Augusto Boal ataca a lei Rouanet: "Os diretores artísticos das companhias de teatro são as grandes empresas"

O criador do Teatro do Oprimido, Augusto Boal, passou por Paris antes de ir para a Noruega, onde trabalhou uma semana com gente de teatro, pedagogos e psicoterapeutas. Em Londres, dirigiu um ateliê durante uma semana. Em Paris, fez uma conferência organizada pelo grupo Ambaata, dirigido por Julian Boal, seu filho, e aproveitou para tratar uma dor persistente no joelho, seqüela das sessões de tortura na prisão, durante a ditadura militar.

Augusto Boal é um monstro sagrado do teatro brasileiro, mas tem a simplicidade dos sábios e o sorriso franco das crianças. Nascido em 1931, no Rio de Janeiro, ele trabalhou com o Teatro de Arena até 1971, quando foi preso pela ditadura.

Depois de libertado, se exilou na Argentina e na França. Durante o exilio, trabalhou em todo o continente sul-americano, em Portugal, na França e na Alemanha. Hoje, o Teatro do Oprimido é praticado em mais de 70 países. Esse teatro engajado se inspira na pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, e no pensamento da esquerda brasileira.

Através de diversas formas de expressão (Teatro-imagem, Teatro-invisível, Teatro-forum), o Teatro do Oprimido tem como objetivo romper com a passividade do espectador, semelhante à do cidadão. Nesse sentido, é um teatro subversivo.

Entre os diversos prêmios que Boal recebeu, dois têm grande importância para ele: o prêmio Pablo Picasso, atribuído pela Unesco a artistas que deram contribuições excepcionais à arte, e o prêmio da Association for Theatre in Higher Education, nunca antes concedido a um não-americano. Na área teatral, nenhum brasileiro teve tanto reconhecimento internacional quanto Augusto Boal.

Na entrevista a seguir, feita em um apartamento da rue de Lille, em Paris, próximo da sede do Partido Socialista e do histórico consultório de Jacques Lacan, o diretor conta como concebeu o Teatro do Oprimido, defende o governo Lula e critica o financiamento da cultura no Brasil, por meio da lei Rouanet. “Existe a censura policial que a gente sofria da ditadura e a censura sedutora que é a do dinheiro. No Brasil, atualmente, é assim, com a lei Rouanet. Quem é o diretor artístico das companhias (de teatro) são as grandes empresas, as pessoas que trabalham nas grandes empresas”, afirma.

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Como você criou o Teatro do Oprimido e qual a função desse teatro feito por e para oprimidos hoje?

Augusto Boal: Começou durante a ditadura no Brasil. Eles proibiam peças que a gente queria fazer e a platéia que a gente escolhia. Então, a gente se viu cercado pela polícia, pela estrutura do governo fascista. Passamos a fazer uma forma de teatro chamada Teatro-jornal, na qual a gente ensinava o espectador que ele próprio, usando notícias de jornais, as transformasse em cena teatral. Essa foi a primeira idéia do Teatro do Oprimido: pegar jornal acessível a todo mundo e transformar notícias em cena de teatro. Não havia interação ainda.


O espectador trazia o jornal?

Boal: Na verdade, a gente levava uma peça que mostrava 12 técnicas de como fazer essa transformação de notícia em cena. E a gente ia onde o nosso público estava: sindicatos, faculdade, escolas, igrejas.


Em que ano surgiu esse teatro saído do jornal?

Boal: Foi em 1970. Cecília Boal dava um curso juntamente com Eleni Guariba, que foi assassinada pela ditadura. Quando acabou o curso, os alunos queriam continuar, e então propus fazer uma pesquisa nesse sentido. De 1970 até fevereiro de 1971, quando fui preso, fazíamos isso em muitos lugares. Chamávamos a isso de Teatro-jornal. Fazíamos também com a Bíblia. Por exemplo, colocávamos em cena Jesus no Monte das Oliveiras indo discutir com Deus para decidir se levava o povo a uma revolta armada. Mas não havia interação, o espectador não entrava em cena.


Como você evolui para a interação em que o espectador entra em cena, como no Teatro do Oprimido?

Boal: Foi na Argentina, quando eu já estava exilado, com o Teatro-invisível. Era uma cena de teatro na rua ou dentro de um restaurante, mas ninguém sabia que era teatro. Era Teatro-invisível por uma forma estética que a gente queria desenvolver, mas havia o medo da polícia. A gente não contava para evitar ser preso, principalmente eu, que era brasileiro, pois, como existia a Operação Condor, corria o risco de ser enviado de volta ao Brasil, e aí seria mais perigoso ainda.


Havia sempre uma conotação política?

Boal: Sempre. Eram problemas que tinham a ver com a realidade opressiva, com aquela sociedade.


Chegou a ocorrer algum incidente grave durante a encenação?

Boal: Não, nesse começo. O incidente que houve foi mais tarde, em Estocolmo, quando fizemos algo sobre a poluição na cidade. Eu achava que não havia poluição nenhuma. Estocolmo é um conjunto de ilhas e tem uma circulação de ar ótima. Mas eles achavam que havia um excesso de carros e que havia poluição. Então, fizemos uma peça do Teatro-invisível que começava nas calçadas.

Era assim: as pessoas reclamavam que estavam tomando chá nas calçadas e pegavam a mesa e levavam para o meio da rua. Paravam o trânsito. A cena tinha sido imaginada para cinco, seis ou sete minutos, mas estava tão boa, muita gente participou, comia biscoitos... Mas a maioria das pessoas não sabia que era teatro, só um pequeno grupo.

Então chegou a polícia, que começou a prender todo mundo que estava ligado ao cenário, inclusive velhinhas que comiam biscoitos e chá. Levavam os presos até a esquina, onde estava o carro da polícia, e lá verificavam o número da identidade para saber se tinham antecedentes. Como ninguém tinha antecedentes, eles liberavam.


Foi no Peru que você criou o Teatro-forum e que se transformou em Teatro do Oprimido?

Boal: Não, o Teatro do Oprimido é o conjunto de formas: o Teatro-jornal, o Teatro-invisível, o Teatro-imagem, o Teatro-legislativo, o Teatro-forum. Todas essas formas são um galho da árvore que é o Teatro do Oprimido. Na América Latina, eles gostavam de fazer o foro, uma discussão depois do espetáculo para analisar a reação dos espectadores, o sentido da peça etc. E como a gente fez o foro ser dentro da peça: continuamos o debate dentro da peça usando a linguagem teatral. A isso chamamos de Teatro-forum.


Depois dessa época o teatro convencional e tradicional passou a não interessar mais a você? Você deixou de fazer teatro tradicional?

Boal: Continuei a fazer muito. Quando estava vivendo na Europa, até 1986, dirigi muitas peças na Alemanha e na Áustria. Peças minhas, de Julio Cortázar. Na Alemanha dirigi peças de Griselda Gambaro, a primeira montagem integral da peça de García Lorca “O Público”. Na França dirigi “Candida Erendira”, de García Márquez, além de peças minhas e do Teatro-forum também. E, quando voltei para o Brasil, também continuei a dirigir outras coisas.


O Teatro do Oprimido é uma forma de fazer política?

Boal: Todo teatro é uma forma de ação política. Ou contra o status quo ou a favor da situação tal como ela está. A gente vê muitas peças que fogem dos problemas centrais da sociedade e pegam problemas puramente circunstanciais, de entretenimento. Estes também estão tendo uma atuação política, ao dizerem: “Não vamos pensar nos grandes temas, vamos pensar nos pequeninos problemas que não são importantes”. Isso é uma ação política. No nosso caso, o teatro é uma ação política consciente. Sabemos que existem opressões, que queremos combater. É uma forma de fazer política, mesmo que não seja política partidária.


Você diz que o Teatro do Oprimido transforma o espectador em protagonista. Como o oprimido pode transformar a realidade da opressão pelo teatro?

Boal: Digo que o Teatro do Oprimido é uma chave. A chave não abre a porta, quem abre a porta é quem segura a chave e a torce. Todo e qualquer teatro mostra um segmento da sociedade em movimento, conflitos humanos sociais e políticos em movimento.

O espectador, ao entrar em cena, aprende primeiro a entender como é a opressão ao vivo. Ele aprende a detectar as armas do opressor. E treina para uma transformação. Não é no teatro que ele vai transformar. No teatro, ele se transforma, transformando a situação fictícia, mas ele próprio não é ficção. Ele se transforma. A idéia é fazer com que o teatro seja um trampolim para ir para fora de si e transformar a realidade. O teatro é um treino onde ele entende quem é o adversário e treina táticas e estratégias de luta para aplicar na realidade.


O Fórum Social Mundial, onde você já fez apresentações do Teatro do Oprimido, já não tem a mesma importância dos primeiros encontros, pelo menos no impacto midiático. Os “altermundialistas” estão perdendo a batalha contra a globalização?

Boal: Acho que o Fórum perdeu um pouco o impacto na mídia, mas também perdeu força porque, a meu ver, ficou apenas como um local de reflexão, e não como trampolim para a ação. Isso é uma das razões porque só fui aos três primeiros. A discussão era muito interessante, mas se isso não se converte em ação, torna-se apenas catártico. Você chega lá, xinga o imperialismo, xinga o colonialismo, denuncia... Tudo é verdade, mas tem que seguir uma ação. Por isso, o Teatro do Oprimido também luta contra a catarse.

Você tem que ir lá, ensaiar uma coisa, mas depois tem que continuar, não pode terminar quando baixa o pano. E o Fórum Social Mundial terminava quando baixava o pano. Uma vez fui a uma reunião mundial do Instituto Internacional de Teatro: metade do tempo se analisou o último congresso e a outra metade se preparou o próximo.

Acho que o Fórum Social Mundial não conseguiu ou não se propôs a tirar conclusões, mesmo pequenas. Digo que a direção do passo que você dá é mais importante que o tamanho do passo. Que sejam pequenos, mas na direção certa. Dê um passo pequeno, mas que provoque outro passo e mais outro. Acho que o Fórum teve discussões bonitas, mas só havia reflexão.


Você é um sonhador, um pedagogo, um homem de esquerda que sonha com um mundo mais justo. Como você vê a esquerda se afirmando nos novos governos na América do Sul?

Boal: Vejo com bastante contentamento. Mesmo sabendo que o caminho que está sendo percorrido é pequeno em relação ao que tem que ser feito. Vejo que há diversidade entre Chávez e Lula, entre Kirchner e Evo Morales, entre o equatoriano Rafael Correa e outros. Ainda há muita diversidade, não há uma unidade. A diversidade tem que existir, pois são países diferentes.

A Venezuela vive do petróleo, não é o caso da Bolívia. O Brasil tem um desenvolvimento industrial muito maior que o do Equador. Mas há uma coisa solidária, que há muito tempo eu não via no mundo. Como, por exemplo, o acordo do preço do gás que o Brasil compra à Bolívia. Sempre foi um preço de exploração dos países mais fracos. E o governo atual concordou em fazer um preço mais justo. Isso não havia.

No comércio externo é a força que impõe o preço, não é o consenso, não é a solidariedade. Estou vendo que se está formando na América do Sul uma entidade importante que é uma certa unidade, um certo diálogo, que antes não existia senão através dos Estados Unidos.


Mas isso tem futuro? Esse processo caminha para algo sólido ou pode a um momento ser interrompido ?

Boal: Os Estados Unidos já entraram numa decadência que é inevitável. Eles não respeitaram as determinações das Nações Unidas. Sabiam que não havia armas de destruição de massa, o El Baradei confirmou que tudo era falso. Assim mesmo, invadiram o Iraque, como antes invadiram a América Central, com o Exército, e a América do Sul, com a CIA.

Esse expansionismo, chega uma hora que ele explode. Essa derrota, eles estão tendo no Iraque, onde já morreram cerca de 150 mil iraquianos e cerca de 3 mil americanos. É uma derrota, pois não conseguiram criar o governo satélite a que se propunham. Conseguiram um banho de sangue. Acho que eles não têm mais força para abrir novos campos de batalha.


Você acha que a América Latina vai poder continuar no caminho de independência e solidariedade?

Boal: Por enquanto, sim. E vai depender não apenas dos líderes que assumiram os governos, mas também dos movimentos populares que pressionam esses governos. Num discurso que fiz no encontro de intelectuais com o presidente Lula, eu disse que o povo empurrou o Rolls Royce presidencial (presente da rainha da Inglaterra ao Brasil), quando ele ameaçou descer a ladeira. O carro seguiu e ele foi empossado. Eu disse que dessa segunda vez íamos fazer a mesma coisa, mas nós iríamos montar na garupa. É isso que o povo tem que fazer, tem que empurrar o carro presidencial para que ele pegue com todo vapor e toda a velocidade. Mas tem que montar na garupa.


Como você avalia o governo do presidente Lula, o primeiro mandato e o início deste segundo mandato?

 
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