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audiovisual
CINEMA
Acaso e necessidade ![]() Leonardo Medeiros em cena do filme "Não por Acaso"
Divulgação Longa de estréia de Philippe Barcinski, narra a irrupção do imprevisto na vida de personagens controladores Obsessão pelo controle. Esta é a principal característica das personagens de “Não Por Acaso”, longa de estréia do diretor Philippe Barcinski. O filme tem como protagonistas Pedro (Rodrigo Santoro) e Ênio (Leonardo Medeiros) que tentam, a todo custo, manter o domínio de suas respectivas vidas e das pessoas que os cercam. Eles, porém, esquecem do poder do acaso. Enquanto Pedro é um marceneiro que faz mesas de bilhar de maneira minuciosa, Ênio é engenheiro de tráfego e tenta controlar o trânsito dos carros da cidade de São Paulo. “Trata-se de um personagem urbano que forjou para a vida dele um controle absoluto. Mas ele recebe intervenções de fora, da família, que é completamente descontroladora”, disse o ator Leonardo Medeiros à Trópico, que, em junho do ano passado, acompanhou algumas cenas da gravação da produção. Tais intervenções mencionadas pelo ator são a morte da ex-mulher de Ênio e a reaproximação de sua filha de 16 anos, que passa a morar com ele. Já Pedro fica “perdido”, quando, no mesmo acidente, sua namorada também morre. “O luto do Pedro é tão avassalador que faz com que percebamos que ele não consegue controlar tudo na vida dele. Há algo mais forte que é justamente o acaso”, afirmou Fabiana Werneck Barcinski, uma das roteiristas de “Não Por Acaso”.
Falando no acaso, além de presente na vida das personagens do longa de Barcinski, ele também surgiu nas filmagens. Em um galpão da Mooca, tradicional bairro paulistano, foi reproduzida numa pequena sala, meticulosamente, uma unidade da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego): computadores com imagens do trânsito da cidade de São Paulo, móveis e paredes de tons azuis e relógio na parede. No chão, marcas para que os cinco atores em cena pudessem seguir. De acordo com Barcinski, há seqüências, como a que foi filmada nesse dia, em que os atores “estão a serviço da câmera, com marcações e coreografias ensaiadas”. Mas ele frisa: “Por outro lado, há cenas em que a câmera está a serviço dos personagens: solto os atores e a câmera vai”. Era uma seqüência curta, de praticamente três minutos ou menos: Ênio, personagem de Medeiros, soa cansado ao explicar para três estrangeiros o funcionamento do trabalho da CET, enquanto é observado por um superior que os acompanha. Ao todo, foi preciso captar três ângulos da mesma cena (ou seja, gravar três vezes). Para tanto, foram necessárias quase dez repetições. E, toda vez que os atores voltavam às marcas iniciais, verificavam-se novamente a luz, os objetos da cena e a distância dos personagens à câmera. Da cadeira onde estava sentado, Barcinski dirigia o elenco, frisando o que estava bom e o que poderia ser melhorado. Em uma das seqüências, quando tudo parecia terminar bem, um alarme estridente, que não estava no roteiro, soou. Ninguém sabia de onde o barulho vinha. Acompanhando a cena em um pequeno monitor, Barcinski, sentado ao lado de Fabiana, se irritou, procurou a origem do barulho e pediu que imediatamente ele fosse interrompido. Enquanto os atores ficaram parados -talvez para manter a concentração-, a equipe técnica, formada pelo diretor de fotografia, assistentes de direção, de produção e de câmera e o continuísta, evitou fazer qualquer comentário. Desde a primeira idéia do longa –formulada em 2001-, o filme mudou bastante, embora, de acordo com Barcinski, a essência tenha se mantido. “As mudanças foram de enriquecimento. A partir do momento em que agregamos pessoas ao projeto, surgiram muitas idéias boas. Claro, você pode se fechar, se ater à sua idéia original, mas geralmente ela tende a ser mais pobre do as que surgem durante o processo de produção e gravação do longa.”
Além de Fabiana, o roteiro de “Não Por Acaso” é também assinado por Eugênio Puppo e pelo próprio Barcinski. “Quando achei que a estrutura e o conceito do filme estavam de pé, chamei a Fabiana e o Eugênio para me ajudarem a desenvolver os personagens”, disse o diretor. Por essa razão, Fabiana brincou ao afirmar que, na verdade, o roteiro não foi escrito a seis mãos, mas sim, “a duas mãos e três cabeças”. Sobre o processo da construção dos protagonistas e dos outros personagens, Fabiana contou que cada um dos roteiristas sempre apontava algo que faltava e trazia experiências próprias para enriquecê-los. “O bom de ter três pessoas trabalhando juntas é que a gramática fica maior, mais ampla. Pegamos a diferença de cada um para dar carne aos personagens”, disse Fabiana, que, com o roteiro para “Não Por Acaso”, também faz sua estréia em longas-metragens de ficção. Até então, só tinha experiência na produção de roteiros para documentários, como “Brasília de João Almino” (2002), da série “Expresso Brasil”. “Procuramos saber quem os personagens eram e passamos a tratá-los como pessoas. Antes, eram apenas esquemáticos”, explicou Barcinski, que se formou em 1997 em cinema pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo).
A primeira experiência de Barcinski em um set de filmagem ocorreu aos 14 anos, quando foi estagiário de direção no longa “Leila Diniz”, de Luiz Carlos Lacerda. Hoje com 33 anos, ele diz se sentir um “jovem veterano”. “Acho que este foi o momento certo de fazer o meu primeiro longa, algo que exige bastante responsabilidade, além de ser bastante complexo.” No percurso até “Não Por Acaso”, como a maioria dos cineastas brasileiros, Barcinski, admirador de Stanley Kubrick, Roman Polanski e David Cronenberg, dirigiu alguns curtas-metragens, como “Palíndromo” (2001) e “A Janela Aberta” (2002). Este último -história de um homem que, deitado na cama, tenta lembrar se fechou ou não a janela da sala- foi selecionado para a mostra competitiva de curtas do Festival de Cannes em 2003 e ganhou menção honrosa do Prêmio Città de Roma - Arco-Íris, um dos eventos paralelos do festival francês. Neste ano, a produtora de “Não Por Acaso” tentou emplacar o filme em Cannes, mas não conseguiu -nenhum longa brasileiro, aliás, foi escolhido para a seleção oficial do evento. No Brasil, o filme ganhou quatro prêmios no Cine PE -Festival do Audiovisual, de Pernambuco: melhor ator (Leonardo Medeiros), atriz coadjuvante (Branca Messina), fotografia (Pedro Farkas) e montagem (Márcio Canella). “O grande desafio em ‘Não Por Acaso’ é fazer um filme que atenda ao meu desejo de ser radical -conseqüência da minha experiência na direção de curtas- e que, ao mesmo tempo, consiga comunicar com os espectadores”, diz Barcinski. A respeito do primeiro desafio, pode-se dizer que ele já venceu. Quanto ao segundo, porém, só as bilheterias dos cinemas poderão dar o seu veredicto.
. Alan de Faria
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