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LANÇAMENTO
Virtuose em negativo Em "Tarde”, o poeta Paulo Henriques Britto faz da própria poesia o seu tema por excelência “Sprezzatura”, o engenho em esconder o virtuosismo técnico sob uma aparência de espontaneísmo e facilidade, é termo que se encaixa à perfeição aos poemas reunidos em “Tarde”, livro de Paulo Henriques Britto que a Companhia das Letras lança neste mês. Como já havia feito em obras anteriores, o autor trabalha com rimas, alexandrinos e decassílabos, mas as formas canônicas de metrificação parecem sumir por baixo da fluência, da ironia e do humor presentes em seus versos. Britto é bastante conhecido no mercado editorial pelas pedreiras que encarou como tradutor. Verteu para o português, entre dezenas de outros, “Mason & Dixon”, em que os trocadilhos, animais e máquinas falantes, sotaques e termos técnicos comumente empregados por Thomas Pynchon são embalados (em quase mil páginas) num pastiche de inglês do século XVIII. Em 2004, alçou sua reputação de poeta ao mesmo patamar: os poemas que reuniu em “Macau” surpreenderam ao bater concorrentes de peso e arrematar os R$ 100 mil do Portugal Telecom, de longe o prêmio literário mais substantivo do Brasil. “Tarde” dá continuidade às pesquisas formais de “Macau”. Com o escrúpulo do tradutor que se enfurna durante semanas em bibliotecas para pinçar o termo mais preciso, ele concebe versos marcados por um rigor compositivo espartano. Mas, na contramão de vertentes poéticas que adotam a forma fixa como antídoto à hegemonia do verso livre, faz pouco alarde da métrica rígida: “quem garante/ que este modo de atrelar pensamentos/ seja pior que outro qualquer?”, indaga num dos poemas da série “Art poétique”. Se em poetas com pretensões arcaizantes os esquemas de configuração tendem a tornar-se uma camisa-de-força, aqui eles atuam no sentido inverso: são um trilho a dar sentido à experiência. Longe de qualquer parnasianismo extemporâneo ou de um construtivismo à Haroldo de Campos, a leveza do conjunto remete mais a Manuel Bandeira, quando não a Noel Rosa. A tal ponto que fica difícil falar sobre seu trabalho -como de resto sobre poesia em geral- sem cair na impostação ou no tom pomposo e beletrista que seus versos conseguem evitar. A própria poesia é o tema por excelência do livro. Sob a ótica do processo criativo, da insuficiência da linguagem, gramática ou tradução, o fazer poético é submetido a um escrutínio tão minucioso quanto consciente das próprias limitações. “Mesmo o maior esforço não adianta:/ da sensação à idéia há um declínio,/ e o que se pensa não é o que se canta”, diz em “Ossos do ofício”. Nos versos de “Tarde”, a indagação metalingüística não apenas exacerba a veia crítica do poeta; ela também aceita a lacuna entre o que se deseja exprimir e o que o poema é capaz de registrar. Paulo Henriques Britto usa a seu favor os limites da língua. Consciência crítica, rima, métrica, tema elevado, auto-referência, nada disso é mobilizado com vistas a “transcendência” ou algo que o valha. São apenas as ferramentas à disposição de quem busca a melhor maneira de fracassar. “É um beco sem saída,/ mas sempre é melhor que a rua:/ mais estreito. Acolhedor./ Vem, entra. A casa é tua.” Sob essa ótica, a idéia de “sprezzatura” ganha novo sentido. O que está em jogo não é um virtuosismo exibicionista, disfarçado apenas por graça e modéstia. O domínio pleno da técnica serve ao propósito oposto: à idéia de que a aspiração à completude carece de fundamento. O manejo habilidoso de formas clássicas torna-se então a ferramenta de um virtuose em negativo, mais interessado nos impasses, fissuras e pontos cegos do que na exaltação do fazer poético. “Aos céus ele pergunta, e na terra procura/ um bom compêndio e o frasco de purgante”, lê-se em “O metafísico constipado”. O procedimento, em que a tentativa de elevação é corrigida pelo chiste e pela autoparódia, é outro traço definidor dos poemas do livro, marcados pelo coloquialismo bem-humorado que Britto já exercitara em obras e traduções anteriores (veja-se, por exemplo, a liberdade com que traduziu Elizabeth Bishop). Mas nem por isso o registro elevado é esvaziado de sentido. Pelo contrário: ganha expressividade na medida em que é capaz de rir de si mesmo. Num idioma de poucos falantes e num país onde é comum a “boutade” segundo a qual há mais autores do que leitores de poesia, qualquer dicção altissonante só pode cair no vazio. Daí a tensão permanente entre mirar alto e a consciência de que não há o que acertar. Se em “Macau” esse isolamento era visível desde o título (a remota região da China onde se fala português como imagem cristalizada da insularidade do poeta), em “Tarde” ele se faz notar em cartas sem destinatário, diários de viagem sem viagem, nos cubículos fechados que a voz do poema considera “um bom espaço”, justamente por ser o único disponível. A modernidade tornou incontornável à poesia assumir o que nela há de artifício. Mas a tal ponto que a prática “se estiolou no infinito banal/ de espelhos frente a frente a refletir-se”. Os versos de Paulo Henriques Britto não hesitam em ver a própria imagem refletida. Mas fogem do círculo vicioso ao projetar o sentido para o mundo, num salto capaz de sintetizar o legado clássico ao melhor da tradição modernista.
. Flavio Moura
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