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audiovisual
ICONOCLASTIA

Chega de pintar porcelana!
Por Mauricio Stycer


Cena do filme "Baixio das Bestas", de Claudio Assis
Divulgação

O diretor Cláudio Assis, de “Baixio das Bestas”, ataca o diletantismo do cinema brasileiro e a voracidade das majors americanas

Como “Amarelo Manga”, o filme de estréia de Cláudio Assis, “Baixio das Bestas” explode nas telas com uma força pouco comum de ver no cinema brasileiro. A crítica, até o momento, dividiu-se, entre elogios e restrições, do entusiasmo à rejeição total. O grande público, por seu lado, não se deixou seduzir. Nas primeiras duas semanas de exibição em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, o filme atraiu cerca de 15 mil espectadores.

Pernambucano, de Caruaru, autodidata, Assis tornou-se um personagem atípico no mundo cinematográfico brasileiro não apenas pela personalidade de seus filmes, mas também pela forma desabrida e iconoclasta de tratar das questões relativas ao meio. Nesta entrevista, ele avalia a reação do público a “Baixio das Bestas”, analisa o cinema feito hoje no país, discute a política pública para o setor e, como seria de se esperar, aponta as lanças afiadas para alguns de seus alvos preferenciais.

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Em relação ao que você pensava originalmente sobre “Baixio das Bestas”, a sua percepção mudou de alguma forma diante da reação da crítica e do público, depois da estréia?

Cláudio Assis: Não. A maioria das pessoas entendeu o filme. Entendeu que era uma denúncia contra a violência que existe hoje contra a mulher. Entendeu que era uma denúncia contra a impunidade que reina no Brasil.

Um crítico na Holanda, um dos fundadores do Festival de Roterdã, me disse: “Quero te agradecer porque você me fez enxergar o quanto eu sou também filho da puta. Por alguns momentos desejei aquela garota de 15 anos que estava na tela. O filme, para mim, é bom também por isso, por me mostrar que eu tenho um lado podre”.

É lógico que há pessoas que não gostam do filme. E é bom que seja assim. Não faço filme para agradar todo mundo. Não sei fazer um filme para que todo mundo goste. Quem faz é a Rede Globo. E mesmo assim tem quem não goste.


Para quem você faz filmes?

Cláudio: Você tem que fazer o filme que você quer fazer. Que assim você vai encontrar um público. Se eu tivesse um lançamento com mais dinheiro tenho certeza que atingiria muito mais público. Coloquei “Amarelo Manga” a R$ 1 no centro de Recife e deu quase 13 mil pessoas. Como dizer que o povo não gosta desse filme? Ou que não gosta de filme brasileiro? O que não dá é cobrar R$ 18 pelo ingresso. Quando é que a pessoa que ganha R$ 300 vai poder ir ao cinema? Nunca!


Isso explica, na sua opinião, o pequeno público de “Baixio das Bestas”?

Cláudio: Está dando quase 1.500 pessoas por cópia. Com dez cópias. Acho razoável. Para um filme pequeno e com a força que ele tem, acho bom. A Unesco diz que morre uma mulher por dia no Brasil em razão de crimes domésticos. Em Pernambuco, nos primeiros três meses do ano, foram 80 mortes. Não adianta tapar o sol com a peneira, dizer que não está vendo isso.

A classe média prefere virar o rosto para as coisas que acontecem com o povo. Ela acha que não tem culpa. No momento que você vira o rosto, você está sendo cúmplice. A classe média vai ao cinema para comer pipoca, fazer barulho e tomar um copo desse tamanho de Coca-cola. Sai dali e não pensa em nada. Vai continuar explorando, passando por cima de tudo que tenha a ver com a humanidade...


Você acha que o cinema de ficção é uma forma eficaz de fazer, como você diz, denúncias?

Cláudio: “Baixo das Bestas” não é só uma denúncia, tem um filme ali, tem vários olhares sobre várias coisas. Mas acho eficaz, sim. Veja os filmes do Fassbinder, do Bergman, do Fellini. Estão todos discutindo assuntos que têm a ver com a humanidade. Não tenho nada contra o documentário. Dentro do “Baixio das Bestas” tem um documentário, que é a exibição do ciclo da cana-de-açúcar, esse câncer que acaba com a terra e o homem. Estou relendo “Geografia da Fome”, do Josué de Castro, e ele já dizia isso décadas atrás.


Este parece ser um tema que as pessoas que vão ao cinema não estão dispostas a assistir.

Cláudio: Só acredito em cinema que faz pensar. Cinema que você sai sem lembrar o que viu ou ouviu, para mim, não é cinema. Minha formação é de cineclube.


E para fazer o espectador pensar, você acredita, é preciso chocar, sacudir o público?

Cláudio: Eu não diria chocar... Cada um tem um jeito de filmar. Quero fazer filmes fortes. Quero que você olhe e pense. Eu não faço de conta no cinema. Quando passamos “Amarelo Manga” para o presidente (Lula), muita gente disse que não tinha visto o filme porque ouviu dizer que era violento. Logo que terminou, a dona Marisa foi a primeira a me dizer: “Não é nada do que falaram. O seu filme não é violento, o seu filme é muito forte. Forte e necessário”.

O Lula deixou passar uns 10 minutos e aí disse: “Esse filme mostra um Brasil que muita gente faz questão de não ver”. Por que falaram que esse filme é violento? Por que a gente mostra o que está acontecendo toda hora na nossa frente?


Qual é a razão desta percepção prosperar?

Cláudio: O cinema brasileiro perdeu muito. Virou cinema de pintar porcelana. O Nordeste que aparece na tela é aquele cacoete, os caras banalizam a nossa cultura, banalizam tudo. Um negócio terrível. Os cineastas hoje ou fazem cinema por culpa, para resolver seus problemas pessoais, psicológicos, ou então, simplesmente, porque têm dinheiro.

Cinema é uma arte burguesa. Muitos fazem cinema sem compromisso com nada, por puro diletantismo. Muitos também não têm compromisso com as próprias idéias, fazem testes para saber se a montagem do filme está correta, mudam o filme em função disso. Quando é que eu vou fazer um filme desse jeito? Você tem que fazer um filme em que você acredite. Se você se respeitar, você vai encontrar mil pessoas que vão gostar de você.


Você acha que as leis de incentivo deveriam contemplar de forma diferente os chamados filmes de arte?

Cláudio: Acho que as instituições financeiras não deveriam poder adquirir obras de arte para o seu próprio patrimônio com o apoio das leis de incentivo. Acho isso uma aberração. Outro problema são essas majors poderem investir aqui o imposto que elas pagariam por remessa de lucros. Elas só aplicam em filmes da Globo Filmes ou similares. Não sou contra filme caro, sou contra filme caro com dinheiro público. Acho que deveria haver um teto. Em torno de R$ 3 milhões, R$ 4 milhões.


Você captou quanto para fazer os seus filmes?

Cláudio: Quem é que vai dar dinheiro pra mim? Você tá louco? Não consigo nada. Só faço filme com dinheiro de concurso. Para não dizer que captei nada, consegui captar R$ 800 mil para “Amarelo Manga”, em empresas estatais. Para “Baixio”, nada. Só concurso e lei do incentivo do Estado de Pernambuco.


E o que você acha de estabelecer um critério pelo qual um cineasta, depois de alguns filmes, só poderia captar recursos se os seus filmes alcançassem um determinado patamar de público?

Cláudio: Sou contra. Para isso, primeiro, precisaríamos ter um bom sistema de distribuição de filmes. “Baixio” passou uma semana no Largo do Machado (no Rio) e saiu. Porque o “Homem-Aranha” precisa de mais salas e está chegando o “Shrek”. Um filme entra com 700 cópias. É um massacre. A falta de público dos filmes brasileiros não é culpa dos filmes, não. Isso quando você consegue lançar. Não é todo mundo que consegue.


De volta a “Baixo das Bestas”, não te parece contraditório num filme que pretende denunciar a violência contra a mulher, exibir em cena uma menina de 15 anos tomando banho nua, à beira do rio?

Cláudio: Essa cena, inclusive, não estava no roteiro. No universo daquela menina, aquele é um único momento particular dela, em que ela está sozinha. Minha intenção era mostrar esse momento dela, sozinha.


Mas você não estaria, dessa forma, estimulando o voyeurismo, algo que você critica no filme?

Cláudio: Todo mundo olha mesmo. O ser humano, como eu digo no “Amarelo Manga”, é estômago, sexo e o tempo parado. Somos animais mesmo.


É possível, hoje, falar em cinema pernambucano?

Cláudio: Discordo dessa idéia. Não existe cinema pernambucano, existe cinema do Brasil. Normalmente, quando nos tacham de pernambucanos é porque querem nos deixar na periferia, isolados lá, e só considerar brasileiro o que é do eixo Rio-São Paulo. Somos todos de uma mesma turma, temos mais ou menos a mesma idade.

Marcelo Gomes (diretor de “Aspirina, Cinema e Urubus”) foi meu sócio por dez anos. Lírio Ferreira (diretor de “Baile Perfumado” e “Cartola”) foi assistente meu. Paulo Caldas (diretor de “Baile Perfumado” e “Deserto Feliz”) é meu colega desde a faculdade. Acho que estamos sendo vistos porque conseguimos visibilidade no exterior. Isso obriga a sermos vistos aqui.


Publicado em 30/5/2007


Publicado em 30/5/2007

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Mauricio Stycer
É jornalista.

 
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