CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
1
livros
LANÇAMENTO

A colheita dos rastros
Por Humberto Pereira da Silva

Em 14 ensaios, a professora de filosofia Jeanne-Marie Gagnebin reflete sobre a memória e o esquecimento

A oposição memória e esquecimento é uma constante na filosofia e na literatura. Se nos fiarmos no mundo grego, desde os poemas épicos de Homero essa oposição se impõe: lembrar, de alguma forma, nos coloca na situação de trazermos à tona o que estava oculto, o que fora de algum modo esquecido (nos versos iniciais da “Ilíada” e da “Odisséia” o aedo exorta os ouvintes para que não esqueçam os feitos de Aquiles e de Ulisses).

Trata-se então de um movimento pendular, no qual um dos elementos é considerado pela ausência do outro. Presença e ausência dão o tônus, portanto, da discussão que envolve a lembrança e o esquecimento. Coloca-se, com isso, entre esses dois pólos, um elemento de ligação que, de alguma forma, ativa a memória para o esquecido: a escrita. Um texto, deixado de lado, logra o esquecimento, mas é por meio dele que se pode em outro momento enlaçar (lembrar) o que, justamente, foi esquecido. “Lembrar”, “escrever” e “esquecer” são nesse sentido palavras que se entrelaçam num movimento de interdependência em que a presença ou a ausência de uma nos remete à outra.

Na filosofia contemporânea a oposição memória e esquecimento está presente nas obras de autores tão dispares quanto Bergson e Heidegger; e, na literatura, em escritores como Proust e Primo Levi: Belle Époque e Shoah se oferecem para que entre em cena a semântica que envolve as palavras “lembrar”, “escrever” e “esquecer”.

É com as possibilidades dadas por essas palavras que Jeanne-Marie Gagnebin traz à lume seu mais recente livro, sinteticamente intitulado “Lembrar, Escrever, Esquecer” (Editora 34, 221 págs.). Livro que resulta de sua participação em palestras, colóquios, congressos e de artigos que foram elaborados para publicações especializadas desde 1991. Trata-se, portanto, de um itinerário que percorreu mais de decênio e meio. Com ele -o itinerário- tem-se a ocasião de lembrar (!) o que de mais “antigo” Gagnebin escreveu e contrapô-lo às suas incursões mais recentes. Dito isso, vale a pena chamar a atenção para a organização do livro.

“Lembrar, Escrever, Esquecer” é composto de 14 textos que não seguem a ordem cronológica com que foram concebidos. O primeiro, “A Memória dos Mortais: Notas para uma Definição de Cultura a Partir da Leitura da ‘Odisséia’”, é de 1996, e o último, “As Formas Literárias da Filosofia”, é de 2004 (o artigo mais recente é “Os Prelúdios de Paul Ricoeur”, de 2006, antepenúltimo do livro).

Não tendo sido dada uma ordem cronológica, é um exercício para o leitor notar como Gagnebin reelabora seus temas, suas questões, em sua trajetória intelectual. Pois o mais “antigo”, “Memória, História e Testemunho”, de 1991 (o quarto na seqüência do livro), trata do fim da narração tradicional a partir de dois ensaios de Walter Benjamin, “Experiência e Pobreza” e “O Narrador”. Nesses dois ensaios, o que se coloca é a idéia de perda ou de declínio da experiência.

É a partir dessa idéia basilar que Gagnebin comenta as sugestões feitas por Benjamin de que a regra que governa a vida moderna não deixa rastros e que, igualmente, na cidade moderna o narrador é expresso para figura do trapaceiro, do catador de sucata e de lixo. Já o texto seguinte, na ordem com que foram concebidos, é justamente “A Memória dos Mortais”. O que ela propõe nesse ensaio é uma leitura diversa da feita tradicionalmente da “Dialética do Esclarecimento”, de Horkheimer e Adorno. Com sua leitura, Gagnebin acentua que reconhecer nossa condição de mortais implica cuidar da memória dos mortos para os vivos de hoje.

Se contrapusermos esses dois ensaios, o que chama a atenção é que Gagnebin, com o primeiro -mais recente, portanto-, volta-se para aqueles que pereceram nos campos de concentração na Segunda Guerra Mundial e que não deixaram rastros; com o segundo, ela se atém à viagem de Ulisses ao mundo dos mortos e assevera que a função secreta do herói homérico é, por meio da palavra viva do poeta, manter viva a lembrança gloriosa dos mortos.

Em ambos nota-se em Gagnebin a preocupação em tratar da lembrança da perspectiva dos que morreram. É importante ressaltar que ela começa expressando a condição lateral do narrador moderno -recolher os cacos que são deixados para dar sentido à narração-; ou seja, ele não tem por alvo os grandes feitos. Para em seguida mostrar uma leitura da “Odisséia”, tendo por via a “Dialética do Esclarecimento”, em que a memória dos mortos tem sido preservada nesses 3.000 anos que nos separam dos poemas homéricos. Bem entendida a intenção de Gagnebin, a leitura dos poemas homéricos é tão mais importante quanto mais tivermos em mente a preservação da memória dos mortos que nos são recentes. É o que nos deve ensinar a “Odisséia”, assim como “É Isto um Homem?”, de Primo Levi.

Não se trata de considerar que a preservação da memória decorre da grandiosidade dos feitos de um herói (uma história gloriosa), mas tão-somente que é pela escrita -que seja dos cacos a serem colhidos-, que ela é preservada. O que se deve guardar desses dois ensaios é que eles variam em torno do mesmo tema: cada qual deve ser pensado da perspectiva do outro. E é desse modo que se deve levar em conta, na seqüência com que foram concebidos, “Homero e a Dialética do Esclarecimento”, “Verdade e Memória do Passado”, “Após Auschwitz”, “Sobre as Relações entre Ética e Estética no Pensamento de Adorno”, “O Rastro e a Cicatriz: Metáforas da Memória”, “O Que Significa Elaborar o Passado”. O que, assim entendo, encerra um momento de preocupação de Gagnebin com questões como a consagração de Ulisses como narrador, a manutenção da memória dos sem-nome, a atualidade crítica ligada à Shoah, a maneira pela qual o pensamento ajudaria a que Auschwitz não se repita.

Como a organização dos ensaios não segue a cronologia com que foram redigidos, o leitor pode lê-los isoladamente e perder de vista o modo como os temas e questões que eles encerram acompanham a trajetória de Gagnebin entre 1991 e 2002, momento em que foram escritos. Com isso, esclareço, não quero propor uma outra organização para o livro (independentemente de injunções editoriais ou de critérios da própria autora, a organização de um livro pode ser pensada como um labirinto e um fio de Ariadne por referência); mas apenas indicar um itinerário de leitura, tendo em vista, justamente na passagem do tempo, as inquietações que moveram a autora.

Feitas essas observações sobre a maneira como o livro é organizado e sobre as questões que movem os ensaios citados, passo aos temas que predominam no restante do livro. Ora, ainda que mantenham o mesmo fio condutor, creio ser oportuno destacar que os ensaios restantes de “Lembrar, Escrever, Esquecer” são, por assim dizer, mais independentes e revelam outras preocupações de Gagnebin: a oposição memória e esquecimento, em seus escritos dos últimos sete anos, não está condicionada à discussão sobre a preservação da memória dos mortos e o recolhimento dos cacos do passado, à busca de elementos no pensamento para evitar Auschwitz. Nesses outros escritos do livro destacam-se dois focos de interesse: a aproximação entre filosofia e literatura e a exposição das linhas mestras do pensamento de Paul Ricoeur.

No primeiro foco situam-se os ensaios “Escrituras do Corpo”, “O Rumor das Distâncias Atravessadas”, “Platão, Creio, Estava Doente” e “As Formas Literárias da Filosofia”. Com o ensaio “Escrituras do Corpo” Gagnebin empreende uma análise da novela “Na Colônia Penal”, de Kafka. O que lhe interessa é apresentar uma leitura divergente da que vê na novela de Kafka uma visão profética do nazismo (sustentada por autores tão distintos quanto Hannah Arendt, Bertolt Brecht e Adorno). Ela entende que quando muito apenas alguns aspectos de “Na Colônia Penal” assumem um caráter premonitório, mas que em si não são suficientes para se enxergar vislumbres do nazismo na obra de Kafka.

Em “O Rumor das Distâncias Atravessadas”, Gagnebin prende-se a um dos seus autores prediletos: Marcel Proust. A partir do cotejo com “Jean Santeuil” e “Contre Sainte-Breuve”, ela visa mostrar os perigos de interpretação do episódio da “madeleine” de “Em Busca do Tempo Perdido”. O risco é de tomar o romance de Proust como a descrição de reencontros felizes entre sensação presente e sensação passada. Gagnebin sustenta que a força de “Em Busca do Tempo Perdido” reside em ser uma criação que confronta as dificuldades de revivências felizes com a presença do tempo e da morte.

Já os ensaios “Platão, Creio, Estava Doente” e “As Formas Literárias da Filosofia” são curtos e se apresentam como esboços de questões que a incomodam e que merecem um tratamento mais pausado. Com o primeiro, Gagnebin toca no problema da enunciação do discurso filosófico: qual a relação entre o sujeito de um discurso filosófico e as figuras de narrador que imperam nas outras práticas de fala contemporânea a esse discurso? Com o segundo, expõe um conjunto de questões que a literalidade da filosofia levanta: não se trata de somente de analisar linguagem, mas de analisar textos escritos; a diversidade das formas literárias dos textos filosóficos indica separação entre tipos de filosofia; a multiplicidade das formas literárias em filosofia assinala as diversas tentativas de abordar o que excede a linguagem discursiva racional.

O segundo foco de interesse nos escritos restantes de “Lembrar, Escrever, Esquecer” é o pensamento do filósofo Paul Ricoeur. Em “Uma Filosofia do Cogito Ferido” e “Os Prelúdios de Paul Ricoeur”, Gagnebin trata do percurso do pensamento desse filósofo, com ênfase em sua inserção no ambiente filosófico da França entre os anos 60 e 70, assim como do diálogo que ele abre com as filosofias alemã e inglesa.

Nesses ensaios Gagnebin abre espaço também para a discussão acerca do papel da fé religiosa na reflexão de Ricouer, e assevera que ele não trata de religião no sentido de uma resposta da fé às aporias da razão, mas sim na separação estrita entre os domínios da fé e da razão; e, ainda, ela se atém à leitura que Ricouer faz, em “La Mémoire, l’Histoire, l’Oubli”, da ligação entre vida e memória no pensamento de Platão e de Nietzsche.

“Lembrar, Escrever, Esquecer”, como alerta Bento Prado Jr. na orelha do livro, compõe-se de ensaios a que não faltam a vivacidade de uma polêmica. Acrescento que, com esse livro, Gagnebin oferece ao leitor, por conta de sua exposição aberta, questões que com certeza merecem nossa atenção e que continuarão a nos acossar; questões que exigem o exercício constante da “rememoração”, a fim de não perdemos do horizonte a lembrança de como a filosofia -uma forma narrativa, portanto- deixa rastros, ou cacos, a serem colhidos no futuro: um texto, deixado de lado, logra o esquecimento, mas é por meio dele que se pode enlaçar o que foi esquecido. No desafio da escrita, que articula memória e esquecimento, reside o grande mérito desse livro de Jeanne-Marie Gagnebin.


Publicado em 30/5/2007

.

Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
1