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novo mundo
ESCALAS E BYTES

A imagem entre-linguagens
Por Giselle Beiguelman


Imagem produzida pela Cia. de Foto
Divulgação

Exposição em São Paulo coloca em xeque o estatuto da fotografia no contexto da cultura digital

O crítico, curador e professor Eduardo Brandão está licenciado de suas atividades de professor na faculdade em que leciona. O motivo? Fotógrafo e professor de fotografia, diz que não faz mais sentido falar em fotos hoje em dia.

Segundo ele, a cultura digital impõe que se pense em imagens para além dos fenômenos imediatos do vídeo, do cinema ou da fotografia, extrapolando os limites da crise de credibilidade das imagens que deu o tom às reflexões sobre a digitalização da cultura nos anos 1980.

Uma impactante cena de “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982), filme que se tornou paradigmático da visão punk-noir dos 80, é emblemática do período, nesse sentido. Falo daquela em que a andróide Rachel tenta convencer o caçador de andróides Deckard de seu passado humano e assim escapar da escravidão.

“Tenho fotos”, diz ela, procurando mostrar provas de sua infância humana nos braços da mãe. Deckard ignora o assunto, não olha as fotos e deixa claro que tem acesso a informações de seus arquivos muito mais confiáveis, porque residentes na memória de seus chips, e que qualquer imagem hoje é fabricável. Não existe mais prova fotográfica da verdade...

Nessa época, a reflexão ainda era exercício de mentes críticas (Baudrillard, Virilio, Jameson), imaginando, com certo tom apocalíptico, porém necessário, o mundo das imagens digitais.

O susto, global e midiático demoraria uma década para acontecer. Precisaria de duas capas de revista de megacirculação -“Time” e “Newsweek”- para se impor em escala planetária.

As duas revistas tratavam do caso O. J. Simpson (1994), o ídolo de futebol americano acusado do assassinato da sua ex-esposa e do seu ex-amigo, e traziam a mesma foto na capa. Mas a “Time” deu uma “photoshopada” no retrato de Simpson e acabou acentuando sua barba mal-feita e sua negritude, com alguns recursos de “melhoria do acabamento” por escurecimento (supostamente, manipulação do contraste).

Além de ser interpretada como ofensiva e racista por inúmeros leitores, consolidou a dúvida sobre a fidelidade das imagens, sobre a qual ninguém hoje se importa. (“Playboy”, “G Magazine” e “Sexy”, com suas técnicas de apagar celulite, barriga, queixos duplos etc. que o digam).

Anedotas do fim do século, essas historinhas servem hoje para pensar a emergência de uma cultura visual mais complexa. Ela se distancia definitivamente das estratégias de veridicção para demandar reflexões mais acuradas que demandam exercícios de contextualização permanente.

Uma parte dessa sua reflexão aparece na exposição que será inaugurada no Itaú Cultural, em São Paulo, com o portfólio da Cia. de Foto, coletivo fotográfico formado por Jacinto, Pio Figueiroa e João Kehl. As imagens serão apresentadas ao público sem que seja utilizada nenhuma ampliação em formato impresso.

“A permeabilidade entre os campos na produção fotográfica contemporânea obriga a rever a idéia do ‘portfólio do fotógrafo’, escreve o curador Eduardo Brandão no catálogo da mostra.

Afinado com a crítica de mídias mais contemporânea, na linha de Lev Manovich e Victoria Vesna, que defendem a emergência de uma estética do banco de dados no âmbito da cultura digital, Eduardo afirma que “o portfólio perdeu sua função de mostrar uma sensibilidade específica para dar lugar a um ‘banco de fotos’, um arquivo de imagens que revela estratégias na representação de realidades complexas”.

Organizadas em conjuntos de slide shows, dispostos em diferentes tamanhos de monitores, o formato da exposição obriga a interrogar as transformações não só estéticas e técnicas, mas também perceptivas e cognitivas que operam na passagem da produção analógica à digital.

Uma das primeiras reflexões que a mostra sugere é sobre como os processos de digitalização causaram impacto em nossas noções de medida.

A ocupação do espaço com centenas de imagens que se apresentam numa sucessão de stills traz uma discussão sobre novas relações de escala, que não passam necessariamente pela avaliação de altura e largura, mas de sim de uma interrogação de quantidades de bytes.

Os volumes hoje dizem respeito à quantidade de informações em bytes que conformam e implicam em arquivos que são curiosamente percebidos por nós, quando os manipulamos, como mais ou menos pesados.

Uma das primeiras “atitudes” dos programas de organização de slide shows é homogeneizar o tamanho e o peso das fotos e padronizar o tempo de exposição. Ao serem vistas em seqüência, arranjadas em intervalos temporais variáveis, distanciam-se não só da lógica do still, mas também -por serem quadros pensados para visão isolada- da do cinema e do vídeo.

Acompanhadas de trilha sonora composta por Guilherme Barrella, a montagem impõe pensar na emergência de uma sensibilidade audiovisual. De formato híbrido, ela se pauta por um “comunismo da forma”, como definiu Nicolas Bourriaud, que demanda refletir sobre uma estética do entre-linguagens.


Exposição:

“Portfólio Cia. de Foto”. De 13 de maio a 24 de junho. De terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h. Piso Térreo - Itaú Cultural Avenida Paulista, 149 (metrô: Brigadeiro). Fones: (11) 2168-1776/1777.


link-se

Cia. de Foto - http://www.ciadefoto.com.br/

Itaú Cultural - http://www.itaucultural.org.br


(Publicado em 14/5/2007)

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Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Criadora dos premiados "O Livro depois do Livro" e "egoscópio" e de projetos artísticos que envolvem o acesso público a painéis eletrônicos via Internet, SMS e MMS. É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. Site: www.desvirtual.com

 
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