1
prosa.poesia

As letras dobradas e outros poemas
Por Felipe Fortuna

"Nem o poeta/ da caatinga severina sabia/ do perigo estéril que existia:/ não ser lido por quem antipatiza"

AS LETRAS DOBRADAS

Professor Pucciani – E Kierkegaard, quando você o descobriu?

Jean-Paul Sartre – Entre 1939-1940. Antes, eu sabia que ele existia, mas não passava de um nome para mim, e este nome, não sei por quê, me era antipático. Por causa dos dois aa, eu creio... Isso me impedia de lê-lo. (Entrevista concedida em maio de 1975)


Confio tanto no filósofo: ele diz
uma palavra certeira (sobre as coisas)
para durar. Não é como o poeta
que cria as coisas para durar (e sobre
elas surgem poetas e filósofos).

Agora, porém, descubro que nada
se salva: nome após nome, somos
feitos mesmo de palavras. Baal já foi
adorado, foi tempestuoso e fértil.

Soçobrou a crença, com a fé mortal
dos adoradores de palavras. Baal.
Veemência e astúcia: de nada adiantam
se as letras se dobram e empunham

a sua antipática aparência a quem
de tanto as conhecer já as desprezam.
Está friíssimo fora do poema: nada
coopera para que surjam palavras

sobre palavras à espera. Nem o poeta
da caatinga severina sabia
do perigo estéril que existia:
não ser lido por quem antipatiza.

Tudo baixa imediato à geena
onde se queima cada verso e
cada fonema: ferve o iídice e
lacera-se Laocoonte, que sabia

o que viria a acontecer em Tróia.
Só me resta trabalhar: na meeira,
depois de colhido o primeiro algodão,
quem sabe a safra se renove e deixe
a palavra a salvo, pronta e reeleita?

Moscou, 10.3.2007


TETRALOGIA

para Gerald Thomas

Quem faz 4 vezes o texto
vai logo aos pontos cardeais:
pega direto o anjo torto
que nos distrai com suas brasas.

4 vezes sem quadrilátero:
é bem no círculo de giz
que se desenha a terra em trânsito.
Faz-se teatro tetrangular.

O bloco de gelo se parte
em 4 lados, todos cáusticos:
e uma atriz grasna ao ganso ao lado
o drama de virar foie gras.

São 4 lados da moeda?
Quem de longe vê o espetáculo,
esquece Iraque e global warming:
vai, em fogo, ser congelado.


A MESMA COISA

Eu sou igual a um anagrama. Meu
indeciso amor a Roma me
levou a confundir a imitação. E vou
pelo caminho bifurcado, que me basta
e me provoca.
Eu me repito
mesmo
quando não copio.

E o mesmo
acontece
quando me repito: precipício
arremessado ao precipício.
Eu sou o que sou, responde o Criador.
Portanto: não há limites. Esse infinito
se fez das coisas que já foram. Começarei
de novo, mas apenas começarei, porque
nada é novo para os que sabem o que ainda vem.
Valha-me a cópia, valha-me a implícita
repetição do meu arbítrio. Tudo o que aconteceu
está cercado no ciclo. Está entre as grades
verticalmente dispostas sobre o corpo horizontal,
e vice-versa: uma luta um combate uma contenda
que trançam metais continuamente, como os dias
sucessivos em que estamos.
Não me pergunte por que somos iguais:
mesmo nascer às vezes se proclama
reprodução. E morrer imita a vida
de modo tão brusco que nunca mais
será possível modo mais original.
Comece então a perguntar
se a gaguez permite esgueirar-se,
e se cada palavra
sempre suscita o terreno empecível que percorro.
Você veio juntar-se aos demais. Tudo se parece
ao rosto desdobrado em rosto estendido em rosto espelhado
em rosto rotativo, reagindo ao seu flagrante obsessivo:
matéria duplicante que adormece enquanto a lúcida
sombra das coisas existentes se demora.
Lassidão que custa a evaporar, apesar dos ponteiros que giram.
Tudo sofre em cada de um nós: somos siameses
em nossa camuflagem, e com os dedos de todas as mãos
apontamos o cúmplice no auto-retrato.
A nossa ventriloquia assusta qualquer um: o manequim
mal fica em pé no colo de alguém, e sempre se agita
cheio de som e fúria, significando a mesma citação.
Somos cópias. Fazemos clichês. Vendemos a mesma idéia
simultaneamente, com permanente disfarce.
Um livro fechado, depois de lido, parece novo: assim
o texto, quando assinado, é todo seu. Basta bradar
no amplo mercado, basta esbarrar em todos eles,
friccionando-se à multidão.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

E, no entanto, eles sabem de você, criatura
similar. Falam o seu idioma e se perguntam
quantos mais virão à tona e proclamar ergo sum.
Querem roubar a sua oferenda, um rastro
que leva a você, sempre a você no meio da cidade.
Quando apurarem quem é, verão que estou só,
fingindo divertir-me com idéias,
saindo pela rua com meu rosto. Estou preparando
nova armadilha em cada esquina. Vou congregar
a ordem dos capazes de imitar. Falta bem pouco:
peço silêncio, para prestar atenção na resposta
que eu em uníssono posso dar.

Não me pergunte por que somos iguais.

.

Felipe Fortuna
É poeta e ensaísta, autor de "Em Seu Lugar" e "A Próxima Leitura" (ed. Francisco Alves), entre outros. 

 
1