1
cosmópolis
BARULHO

A ditadura da música ambiente
Por Matheus G. Bitondi

Mesmo que não queiramos, hoje é impossível passar um único dia sem ouvir música, que se banaliza e se torna mero item de decoração

Até o século XVIII, ouvir música não era uma coisa fácil. O indivíduo que manifestasse tal desejo tinha poucas opções. Talvez ele mesmo pudesse cantarolar uma melodia ou improvisar algo em um instrumento qualquer, caso dispusesse de um. Talvez ele encontrasse alguém que fizesse isso por ele, com alguma boa vontade. Se fosse um nobre, as coisas seriam certamente mais fáceis. Podia abrigar músicos em sua corte. Um coral, uma pequena orquestra e mesmo um compositor, para criar músicas especialmente a seu gosto. Não sendo nobre, talvez a melhor opção fosse o culto religioso em qualquer igreja cristã.

Claro, qualquer uma que dispusesse de recursos para manter um bom coro, um conjunto instrumental e um mestre de capela, para ensaiar os músicos, ensinar música e compor. Caso a igreja local não apresentasse tais requisitos, a saída era se deslocar até uma outra. Tinha-se, então, que reservar alguns dias para se matar esta vontade de ouvir música. Diz a lenda que Bach caminhou centenas de quilômetros para ouvir tocar o compositor dinamarquês Dietrich Buxtehude, atitude hoje incogitável, mesmo pelo mais ensandecido fã dos Rolling Stones.

No século XIX, a situação melhorou um pouco para os melômanos. Com a ascensão da sociedade burguesa, popularizavam-se os concertos públicos. Surgia então uma nova opção: podia-se comprar um ingresso para um concerto no teatro... caso houvesse um na cidade. Nessa época, aquecia-se também o mercado de partituras, de modo que se tornava possível executar música em casa, para si mesmo, para a família, para convidados etc. Vale lembrar que a educação musical fazia parte da cultura geral da época, pelo menos entre as camadas mais abastadas da população. Caso contrário, de nada adiantariam as partituras.

Pouco depois, ao longo do século XX, o desenvolvimento da transmissão radiofônica e das tecnologias de gravação e reprodução de som viria resolver quase todos os problemas dos amantes da música. Em pouco tempo, tornou-se possível adquirir e ouvir músicas de vários estilos, gêneros e origens, encerradas dentro de discos, fitas-cassete, CDs e, atualmente, no século XXI, nenhum destes suportes. Enfim a música se tornava acessível a pessoas das mais diferentes classes sociais e culturas. No entanto, essa democratização desenfreada trouxe consigo um efeito colateral devastador: a ditadura da música ambiente.

Hoje é praticamente impossível passar um único dia sem ouvir música. Mesmo sem que queiramos ouvi-la, sem que a escolhamos, sem que gostemos dela ou sem que prestemos a mínima atenção nela, a música está em todos os lugares: nas casas, nas lojas, nos carros, nos restaurantes, nos consultórios médicos etc. Não há como escapar dela.

Podemos nos trancar em casa com o aparelho de som desligado, mas certamente o do vizinho estará ligado num volume suficiente para ambos. Também pode ser que alguém telefone e nos coloque em espera ouvindo uma rádio qualquer ou aquela famosa depravação em midi de “Für Elise”. E mais tarde passará pela rua um enorme auto-falante revestido de automóvel, difundindo a música que seu motorista escolheu, sem consultar os demais donos de orelhas. Como acontece em relação ao cigarro, nos tornamos ouvintes passivos. Somos prejudicados pelos maus hábitos de outrem.

Além de danos à saúde, os malefícios da música ambiente se estendem ao convívio social. Em bares e restaurantes, por exemplo, tradicionais redutos de socializações entre amigos e familiares, fez-se comum a presença da festejada música ao vivo. Basta que ela comece a soar e rapidamente as vozes se calam, as conversas são interrompidas e os grupos se subdividem em “panelinhas” limitadas pelo alcance das vozes. O comportamento social é imediatamente substituído pelo individual, assim que a música começa a prejudicar a emissão e a recepção de mensagens pelas pessoas, tornando-se aquilo que a ciência da comunicação classifica como ruído.

Algumas pessoas ainda se esforçam por cantarolar junto com a música, bater os pezinhos no ritmo ou batucar com as mãos na mesa, na ilusão de que agem coletivamente com os músicos, já que com os amigos deixou de ser possível. E, se isso é socialmente ruim para o público, para o músico é profissionalmente degradante. Muitos dos profissionais que atuam nessa área têm de conviver com o fato de que as horas dedicadas ao estudo e o investimento no próprio instrumento e em equipamentos, em prol de maior qualidade de interpretação e som, pouca ou nenhuma diferença fazem mesmo para o público dos estabelecimentos mais especializados em música, mais interessado em beber, comer e se divertir.

Como é comum às ditaduras, sob a tirania da música ambiente, temos ainda alguns de nossos direitos cerceados. Para não falar do óbvio direito ao silêncio, que deveria ser irrevogável, mas que há muito já perdemos, estamos terminantemente proibidos de desconhecer os hits musicais em moda. Se não gostamos de cinco sinfonias de Beethoven, podemos escolher não conhecer as outras quatro, e ninguém nos forçará a ouvi-las.

Já com o lixo musical que nos é empurrado diariamente orelha adentro, não dispomos desta opção, pois ele está invasivamente presente em ambientes que necessitamos freqüentar. Mesmo sem que compremos o CD e sem que liguemos o rádio ou a televisão, as músicas das paradas de sucesso nos serão fatalmente apresentadas assim que formos ao supermercado ou que pegarmos carona no carro de alguém que acreditamos ser um amigo.

Percorrendo alguns poucos metros de um corredor de qualquer shopping center, podemos vir a conhecer todo o “Top 10” das rádios mais populares em apenas alguns minutos, uma vez que cada loja tem sua própria música ambiente ligada, competindo umas com as outras e com a música que toca nos corredores fora das lojas. Óbvio, mas necessário dizer que os principais prejudicados por essa poluição ambiental são as próprias pessoas que trabalham nesses locais e que ironicamente ligam os aparelhos de som. Quão menos mentalmente cansativo não seria o trabalho se elas tivessem mais silêncio para se concentrarem e menos ruído interferindo na comunicação?

Em meio a todo este barulho, quem também passa despercebida é a própria música, que se banaliza e se torna mero item de decoração. Hoje em dia, pouquíssimas pessoas reservam algum tempo para a escuta musical. Uma minguante minoria pára o que está fazendo para se concentrar na audição de uma peça musical. Os outros, a grande maioria dos “usuários” de música -pois não são propriamente ouvintes-, apenas a suportam ao fundo enquanto exercem qualquer outra atividade. E cada vez mais as músicas são feitas para soar ao fundo. São geralmente baseadas na repetição exaustiva de um refrão trivial e de fácil memorização, sem variações de dinâmica que possam incomodar ou simplesmente atrair a atenção. São músicas para não serem ouvidas, feitas para não ouvintes.

Disso tudo, podemos concluir que, apesar do imenso alcance territorial que a música obteve ao longo do século XX e deste início do século XXI, a quantidade de ouvintes que se ocupam com ela não aumentou muito em relação ao saudosamente silencioso século XIX. Continuam poucas as pessoas que se concentram, dispostas a desvendar um discurso musical com começo, meio e fim, ou em procurar novos detalhes a cada nova audição de uma peça, como foram relativamente poucas as pessoas que, séculos atrás, tiveram um contato freqüente com algum tipo de música.

A diferença é que as pessoas de hoje dificilmente padecem de falta de oportunidade para tal. Conta contra estes, porém, o fato de a formação musical não fazer mais parte da gama de conhecimentos gerais hodierna, o que torna a audição musical uma experiência alheia, da qual só se pode participar passivamente, uma vez que a música que se ouve deixou de ser executada pelos próprios ouvintes e passou a ser tocada pelos rádios e aparelhos de som.

Outros entraves para aqueles que desejam dedicar alguns minutos do dia para uma escuta musical concentrada é se desvencilhar do cansaço de ter tido o ouvido exposto à música ambiente durante o restante do dia e, principalmente, se livrar durante estes poucos minutos da música de ambientes alheios e encontrar um mínimo de silêncio, precondição para qualquer escuta atenta.


(Publicado em 24/4/2007)

.

Matheus G. Bitondi
É compositor, mestre em análise musical pela Unesp.

 
1