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novo mundo
ZONA DE EXCLUSÃO

A captação do invisível
Por Pedro Duarte de Andrade


Marco do início da zona de exclusão de Chernobyl
Alice Miceli

A artista Alice Miceli desenvolve mecanismo para fotografar imagens da radiotividade de Chernobyl

Um Raio X nas Imagens Invisíveis de Alice Miceli Artista desenvolve pin-hole para fotografar imagens da radiotividade de Chernobyl e documenta processo em blog por Pedro Duarte de Andrade

No dia 26 de abril de 1986, uma explosão atingiu o reator 4 da usina de Chernobyl. Foi o pior acidente nuclear da história, causado por violação de regulamentos, problemas no projeto, falhas nos sistemas de comunicação e de segurança, entre outros fatores.

Se a proporção da fissão do átomo é infinitamente pequena para imaginarmos, já a da explosão nuclear é, por sua vez, grande demais: uma tampa isolante de mil toneladas explodiu e temperaturas acima dos dois mil graus derreteram o reator.

Mas não é só aí que temos dificuldade de formar imagens. Também não vemos a maior das conseqüências do acidente, a própria radioatividade. Lançado na atmosfera, um material altamente tóxico, por vezes mortal, espalhou-se pela Ucrânia, onde ficava a usina, por países vizinhos, como a Rússia, chegando até a Escandinávia e a Europa Oriental e, por fim, atingindo, em menor proporção, até mesmo o Reino Unido e, dizem alguns, a costa leste dos Estados Unidos. Foi na Bielo-Rússia, contudo, que se concentrou mais da metade de todo o material radioativo.

A busca por imagens desse desastre que não se dá a ver, ou seja, a tentativa de enxergar a radioatividade é que motiva o trabalho “Imagens do Invisível”, de Alice Miceli, ganhador do Prêmio Sergio Motta de 2006. A esta artista, o Videobrasil dedica seu mais recente dossiê (confira no link-se, abaixo) e um debate, no próximo dia 19 de maio de 2007.

O objetivo maior de Alice Miceli é captar imagens na zona de exclusão da Bielo-Rússia, na qual a artista já fez uma primeira incursão. Isolada por conta dos altos índices de contaminação, intoleráveis para que um ser humano possa ali viver continuamente, essa região _hoje deserta_ permite, no entanto, visitas curtas, como a que Alice fez.

Ela vem se dedicando, com afinco, a essa perseguição do aparentemente impossível, mas não existe, por ora, o trabalho propriamente dito, nem imagens produzidas pelo método que deve servir à obra. Podemos, entretanto, acompanhar, através do blog da artista, momentos decisivos do desenvolvimento de sua pesquisa.

Não é, certamente, a mesma experiência de ver uma obra finalizada. Porém, a arte moderna ensinou-nos que nem sempre o acabamento é o critério definitivo para apreciar uma obra de arte. Pelo contrário, a incompletude está no cerne da estética moderna. De lá para cá, aprendemos também a olhar, com interesse, estudos, planos, esboços, enfim, todo um material que dá ou daria ensejo a uma obra futura. É o que temos ao acompanhar o “processo criativo” de “Imagens do Invisível”. Mas não só. Além disso, é o modo de ser desta obra por vir que, na verdade, justifica o interesse pelo trabalho.

É que, como de hábito nos trabalhos de Alice, as imagens produzidas não são apenas “sobre” alguma coisa. Essa alguma coisa “sobre” a qual elas falam ou se debruçam é que deve dar forma às imagens dali surgidas. Se há informação, a informação está no objeto e, assim, ele mesmo deve dar forma ao método apropriado para que seja capturado, ou seja, para que apareça.

Trata-se de um processo genético de produção de imagens, em que é inseparável o modo pelo qual elas são feitas e elas mesmas. Melhor, as imagens devem trazer, em si mesmas, seu processo de criação, sua história. Neste sentido, há aí uma radical objetividade, pois a artista busca encontrar uma maneira de criar na qual o objeto, ele mesmo, crie, apareça.

Testemunhamos isso no blog do projeto Chernobyl. Por exemplo, na produção de uma tecnologia específica que possa produzir imagens dos locais contaminados pela radioatividade a partir da própria radioatividade. Essa tecnologia toma como modelo máquinas fotográficas de “pin-hole”, ou seja, o mecanismo mais básico da fotografia, onde um pequeno orifício numa caixa escura deixa entrar um ponto de luz bem pequeno, que, ao tocar um papel sensível dentro da caixa, fixa uma imagem. “Imagens do Invisível” pretende construir máquinas de chumbo capazes de fazer o mesmo, porém, não usando a luz, mas a radiação.

Num intenso trabalho no Laboratório de Radionuclídeos do Instituto de Radioproteção e Dosometria, Alice inventou uma “pin-hole” que enxerga a radiação gama, inivisível para nós.

Em suma, o trabalho pretende formar “imagens do invisível”. Numa certa medida, essa pretensão não faz mais do que atualizar, a seu modo, a definição que Kant já dera, no final do século XVIII, da imaginação, isto é, da faculdade de formar imagens: “Representar um objeto também sem a sua presença na intuição”.

Nesse sentido, a investigação específica sobre a possibilidade de captar imagens a partir da radiação diz respeito à estrutura mais geral de nosso acesso ao mundo pela imaginação. Ela desentranha, a partir do olho da máquina, a presença do invisível, que não está na intuição, como queria Kant, mas que compõe essencialmente o tecido do real. Tanto assim que o cenário encontrado na zona de exclusão de Chernobyl é, ele todo, resultado de uma presença que não se apresenta enquanto tal.

Naquele espaço desolador, quem dá as cartas do mundo é o invisível -e todo o visível fica devendo a ele o seu ser.

É nisso que se inspira e se baseia o trabalho de “Imagens do Invisível”. Por isso, seu processo de produção é crucial. Pois ele pretende operar analogamente ao cenário concreto que encontra, deixando que o mundo do invisível dê as cartas e, assim, componha o jogo de baralho do visível.

Seria simples captar imagens das paisagens da zona em Chernobyl através de fotografias, por exemplo. Mas aí não poderíamos acompanhar, num estranho paralelismo, a criação que a própria radioatividade, responsável por tais paisagens, produz. É nessa analogia, pela qual aquilo que produz o horror também pode produzir beleza, ou, se tal palavra nos amedronta ainda, pode pelo menos produzir arte -é nessa analogia que se instala “Imagens do Invisível”.

Trata-se, assim, de um trabalho que tateia a ambigüidade da essência da técnica, para a qual o filósofo Martin Heidegger chamou tanto a atenção. De um lado, a técnica moderna não apenas interpreta, mas age sobre a natureza em seu ser interior, lançando sobre ela a imprevisibilidade que, para os antigos gregos, pertencia apenas aos negócios humanos.

É que a tecnologia contemporânea não apenas mexe, direciona e se aproveita dos processos naturais. Ela cria processos naturais. Exemplo máximo: a fissão do átomo. Sempre com o objetivo de explorar e armazenar mais e mais, a técnica moderna, visando “controle e segurança”, tocou o interior estável da natureza com aquilo mesmo que jamais é inteiramente controlável ou seguro: o humano. Bastaria aqui uma palavra para comprovar a tese: Chernobyl.

De outro lado, a técnica moderna é, ainda, um modo de desencobrimento, ou seja, como queria Heidegger, um modo de acontecer da verdade, pela qual o real se desvela para nós. É para isso que “Imagens do Invisível” deve chamar a atenção. E pode fazê-lo com radicalidade porque não se contenta com a solução fácil de “documentar” a zona de exclusão de Chernobyl, mas pretende ser capaz de dar a ver aquilo que ela é a partir daquilo que faz com que ela seja tal como é: a radioatividade. É, portanto, no mesmo material liberado pela sanha da técnica moderna que a operação poética se constrói, recuperando o primordial parentesco entre arte e técnica.

No trabalho de Alice, somos lembrados que a essência da técnica não é nada de técnico, que a essência da técnica reside no caráter produtivo, isto é, poético, do ser. Técnica é desencobrimento, é um modo de levar o ser ao seu aparecer.

No caso de “Imagens do Invisível”, a produção do aparecer na imagem através de uma matéria invisível pode trazer a técnica moderna ao seu extremo, ou seja, à sua essência que dificilmente vem à tona nos objetos meramente técnicos. É que, para lembrar os termos aristotélicos, a mesma “causa material”, tratada de modo diferente pela sua “causa eficiente”, isto é, por aquele que lida com ela, pode ter outra causa formal, ou seja, ganhar outra figura, de acordo com o que é sua causa final.

No caso, a finalidade artística é, como diria Kant, uma finalidade sem fim. E, graças a isso, “Imagens do Invisível” pode ousar colocar uma mesma “causa material”, a radioatividade, numa outra posição frente ao ser, uma posição estética desinteressada, isto é, que não pretende muito mais do que dar a ver.

Nesta posição, as incursões de Alice à zona de exclusão de Chernobyl lembram uma outra “Zona”, aquela de “Stalker”, o belo filme de Andrei Tarkovski. Segundo o “stalker” do filme, “a zona exige respeito, caso contrário, castiga”. É armada, ou melhor, desarmada com este respeito que Alice empreende sua busca pelas “Imagens do Invisível”, sugerindo uma posição mais artística para a interação do homem com o real, sem, entretanto, demonizar a tecnologia.

Este percurso de “stalker” da própria Alice é o que podemos acompanhar no blog sobre o trabalho. Do mesmo modo que no filme de Tarkowski, esta “zona” por ela percorrida pode causar horror e fascínio, bem como a radioatividade. A intenção por trás do trabalho é que, uma vez a obra realizada, ela traga, em suas imagens, toda essa história. Não a história dos fatos, mas a história da própria imagem, a história que lhe pertence ou à qual ela pertence.

Por isso, torna-se instigante acompanhar esta espécie de “pré-história” de uma obra que ainda não existe. É, na verdade, condizente com aquilo que ela é. Pois, se acreditamos radicalmente na sua proposta, todo este processo foi inventado não só pela artista, mas também por seu objeto: a radioatividade, que deve estar tanto lá, no mundo, como cá, na imagem.

Noutras palavras, acompanhar o desenvolvimento de um tal trabalho, as idéias, conceitos e experiências que ele engendra e que são por ele engendrados, é já entrar nele, participar daquilo que ele é. “Imagens do Invisível” é uma história que, no fim, deve estar presentificada, a seu modo, numa obra -que, no puro elemento da visibilidade, deve conter sua história.


link-se

Blog “Imagens do Invisível” - http://www.jblog.com.br/chernobyl.php

Dossiê Videobrasil – Alice Miceli (Paula Alzugaray, curadoria) - http://www.sescsp.org.br/sesc/videobrasil/site/dossier027/apresenta.asp


(Publicado em 16/4/2007)

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Pedro Duarte de Andrade

É doutorando em filosofia na PUC-RJ.



 
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