CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Sibilia: Eu vejo um vínculo entre ambos os fenômenos, pois eles decorrem do modo de produção e consumo capitalista, com sua capacidade de produzir doses imensas de falta e de excesso ao mesmo tempo. Em ambos extremos do sofrimento corporal contemporâneo, tanto nesses corpos ameaçados pelo fantasma da fome como nesses outros organismos humanos que são assombrados pelo fantasma da obesidade, impõe-se o mesmo sacrifício: não comer. É nesse quadro que se espalha a lipofobia, uma rejeição cada vez mais violenta às adiposidades que recheiam os corpos próprios e alheios. Trata-se de uma nova forma de abjeção que condena moralmente os corpos por serem impuros -e prescreve, portanto, o devido sacrifício visando a extirpar as impurezas.


Diz-se muito comumente que vivemos sob a égide da fúria consumista e da voracidade hedonista, porém, muitas das teorias sobre a modernidade defendem a idéia da “administração”, seja da satisfação (Marcuse), da insatisfação (Lacan), ou mesmo a gestão-de-si (Foucault), linha a partir da qual você desenvolve sua pesquisa. Neste panorama do “Goze!... Mas com moderação!”, como se dá a auto-gestão e administração dos riscos?

Sibilia: Trata-se de um mecanismo de poder muito ardiloso. Suas premissas dizem o seguinte: com todas as técnicas, serviços e produtos de embelezamento hoje disponíveis no mercado, “só é gordo e feio quem quer”. Como a responsabilidade é individual, cabe a cada um de nós o dever de administrar corretamente os prazeres e as privações; tudo em nome desse ideal do “corpo perfeito”. Nesse sentido, reveste um tom de conquista moral a capacidade pessoal de se aproximar do padrão de beleza hegemônico. Ao mesmo tempo, seu fatal distanciamento denota alguma falha igualmente moral.


As novas práticas ascéticas e os novos sacrifícios, isto é, esta contemporânea “via crúcis do corpo”, estariam em consonância com um novo tipo de redenção? Penso em uma redenção não-transcendental, mas alocada na conquista da “auto-estima”. Redenção como aceitação-de-si e inserção social. Ao menos é sobre esta dramaturgia que se constroem os reality shows de transformação estética, a partir do sacrifício imposto pelas intervenções cirúrgicas e sua conseqüente premiação.

Sibilia: É curioso que exista esta propensão ao sacrifício numa era como a nossa, que reivindica o gozo constante e praticamente compulsório. No entanto, qualquer sacrifício parece válido em nome desse ideal do “corpo perfeito”, uma meta aparentemente tão prosaica ou até mesmo banal.

Contudo, inclusive a própria morte é válida em seu nome (e somente em seu nome), como é o caso das jovens anoréxicas, por exemplo, ou das vítimas de complicações nas cirurgias plásticas ou do consumo de anabolizantes de uso veterinário. Alguns autores aludem a um novo tipo de “ascetismo” hoje em crescimento: uma série de rituais de expurgação carnal que não procuram atingir a transcendência espiritual, mas apenas a aproximação desse ideal do corpo imagético.


Você associaria a tirania da pureza, da beleza e da magreza (como forma de “limpeza”) a um ideário protofascista? Neste caso, quais seriam os deslocamentos e as continuidades?

Sibilia: A pureza da raça ariana foi uma das premissas do ideário nazista. O “corpo belo” do ariano era um ideal a ser atingido, enquanto todos os outros organismos humanos eram definidos como impuros. Entretanto, a pureza do ariano não era definida por sua “interioridade”, no sentido das capacidades intelectuais ou morais pacientemente cultivadas por cada indivíduo. Ao contrário, essa pureza era definida apenas por uma série de atributos físicos “exteriores”: a cor dos olhos e do cabelo, certa altura e medidas corporais, a posse de certos genes e de certo sangue. A impureza, no caso do regime nazista, devia ser eliminada junto com os corpos impuros.

Já na nossa sociedade contemporânea, apesar das inquietantes similitudes, a impureza deve ser extraída dos corpos impuros. Estes podem (e devem) ser purificados. Isso significa que todas as aberrações que conspiram contra o nosso ideal do “corpo perfeito” têm possibilidade de cura: podem ser lipoaspiradas, esculpidas, retocadas. Poderíamos dizer que hoje vivemos em um regime de totalitarismo de mercado, que visa, portanto, à inclusão dos consumidores, ao contrário dos fascismos que vigoraram na primeira metade do século XX, que visavam à exclusão de certos cidadãos considerados inferiores ou impuros.


É cada vez mais comum o uso de softwares de “correção” e “lipoaspiração” de imagens, empenhados na construção e digitalização de um corpo que seja belo e desprovido de qualquer vestígio material que o macule. Através deles, marcas do tempo e linhas de expressão são apaziguadas, rugas esticadas, manchas uniformizadas e gorduras localizadas estirpadas. Esses processos, possíveis através do “popular” programa “photoshop” e da técnica do “retouching”, têm migrado para poderosos softwares desenvolvidos em parceria com emissoras de TV. É o caso do programa “Baselight”, utilizado na novela “Páginas da Vida”, da Globo. Essa é uma tendência -e uma demanda- da qual é difícil escapar?

Sibilia: Já estão à venda, também, certas câmeras digitais de fotografias que possuem esse recurso de “emagrecimento” dos corpos fotografados. Acredito que esta mania do apagamento e do retoque digital, esta rejeição das viscosidades orgânicas que supuram os corpos reais, suscita também a reação contrária: uma “vontade de real” que se desenvolve cada vez com mais vigor em nossa cultura.

Essa crescente busca pelo “verdadeiro”, que é a outra face deste movimento de gradativa falsificação das imagens, percebe-se no auge do “realismo sujo” nas artes contemporâneas, por exemplo -notoriamente no cinema e no audiovisual, mas a onda já chegou a atingir até mesmo as publicidades de produtos de beleza.

Sob essa perspectiva, podemos interpretar o sucesso mundial de uma campanha publicitária como a do “creme modelador” da marca Dove, que “ousou” ao colocar um grupo de mulheres reais no lugar normalmente restrito aos corpos imagéticos das modelos -muito embora tais “corpos reais” também tenham sido trabalhados digitalmente com as costumeiras ferramentas de edição digital de imagens. “Testado em curvas reais”, sublinhava o anúncio do produto, enquanto mostrava os corpos seminus de um grupo de mulheres jovens; e ainda esclarecia que era fácil “firmar” os corpos das modelos, difícil mesmo era fazê-lo com as “curvas de verdade” das mulheres reais.

A mensagem, portanto, não parece diferir muito de todas as outras publicidades do gênero: é preciso usar este produto para que você, consumidor demasiadamente orgânico, carnal e imperfeito, possa se aproximar daquele corpo imagético que tanto deseja, porém jamais poderá atingir.


Em que medida as práticas de digitalização e virtualização do corpo poderiam estar em consonância com outras práticas, que você tem também estudado, de digitalização e virtualização do “eu” em blogs, flogs e toda sorte dos novos diários “íntimos” na internet? Ambos os fenômenos seriam frutos da mesma demanda por visibilidade e reconhecimento de si nos olhos alheios? E ambos se valeriam de certa indistinção entre pessoa e personagem?

Sibilia: Podemos comparar os blogs que hoje proliferam na internet com os diários íntimos tradicionais, como duas ferramentas bem diferentes de criação de si. Enquanto as velhas confissões escritas no papel demandavam a solidão, o silêncio e a preservação do segredo na privacidade do quarto próprio -todos elementos característicos da era burguesa-, os novos gêneros autobiográficos que hoje inundam a Web são ferramentas para a construção de si na visibilidade das telas globais.

Por isso, podemos dizer que se trata de mais um sintoma desses deslocamentos dos eixos em torno dos quais as subjetividades se constroem, tendendo a uma gradativa exteriorização do eu e a uma construção de si alterdirigida. Assim, hoje prolifera um tipo de subjetividade que precisa da confirmação do olhar alheio para consumar a sua existência: um eu que precisa aparecer para ser.

Essa construção de si como personagem visível denota um flagrante pavor da solidão: diferentemente das “pessoas reais”, os personagens nunca estão a sós, pois sempre tem alguém olhando ou acompanhando tudo o que eles fazem (e também tudo o que eles não fazem). Nesse sentido, as novas subjetividades construídas na visibilidade da pele e das telas denotam uma fragilidade, uma vulnerabilidade nessa dependência do olhar alheio e nessa perda das âncoras que sustentavam o eu moderno.


(Publicado em 16/1/2007)

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Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.



 
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