CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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livros
FILOSOFIA

O êxtase liberador
Por Henry Burnett

Nietzsche rejeita a leitura moralizante dos trágicos gregos em “Introdução à Tragédia de Sófocles”

Nos últimos anos ocorreu no Brasil uma grande popularização do nome de Nietzsche para além dos muros da academia. Mas esse fenômeno está longe de representar uma elevação no padrão do leitor médio brasileiro; antes, trata-se de uma diluição de seu pensamento em meio a alguns livros que ensinam como olhar o mundo com olhos “filosóficos”, buscando nossa “verdadeira” origem e fazendo crer que adquirimos com esse “esclarecimento” todos os elementos para a preparação de um futuro feliz. Nada mais contrário ao seu verdadeiro espírito, completamente antiprofético.

A simples menção ao primeiro livro de Nietzsche, “O Nascimento da Tragédia”, pode dar uma impressão de familiaridade imediata ao leitor; outro engano. Na verdade, o período de produção intelectual do chamado “jovem Nietzsche” é o mais difícil de ser corretamente posicionado em relação à sua obra, por ser o mais impreciso do ponto vista teórico -ainda que o mais rico do ponto de vista de uma teoria da arte.

Pouco tempo antes de publicar esse livro, Nietzsche foi professor de filologia clássica na Universidade da Basiléia. Brilhante, foi admitido no cargo quando tinha apenas 24 anos. Nesse período, proferiu um ciclo de preleções com o título “Contribuição à História da Tragédia Grega - Introdução à Tragédia de Sófocles”, formado por um conjunto de anotações que o então professor usava nas aulas. Após a preparação da edição crítica Colli-Montinari na Alemanha, com base nos manuscritos de Nietzsche, o texto das preleções foi fixado pela primeira vez na íntegra. São essas anotações que foram agora traduzidas pelo professor Ernani Chaves, da Universidade Federal do Pará, na melhor tradição franco-germânica de traduções acompanhadas de introdução e notas de esclarecimento que acabam tornando-se, inevitavelmente, referência.

Em alemão, o termo usado para esse tipo de aula, a preleção, é “Vorlesung”, e se define pela posição do professor, no alto de um púlpito, lendo para os alunos, que à época deveriam permanecer em silêncio e não fazer perguntas ao final -como nos sermões dogmáticos da igreja. Uma boa imagem que ajuda a entender porque a carreira acadêmica de Nietzsche encerrou cedo.

Podemos dizer que as aulas da Basiléia marcam, antecipadamente, a oposição de Nietzsche contra o primeiro grande texto estético do Ocidente, a “Poética” de Aristóteles, num ato de profunda coragem e independência intelectual. Em linhas gerais, trata-se de uma ruptura entre a visão antiga e a visão moderna da tragédia, e elas anunciam seu afastamento em relação à interpretação até então na ordem do dia, que moralizava a tragédia, eliminando o seu sentido estético original e adequando-a à ordem moral então vigente. Essa posição viria a ser desenvolvida com mais profundidade em “O Nascimento da Tragédia”. Mas as preleções fornecem um quadro muito esquemático dessa muito citada “querelle des anciens et modernes”.

Opor-se a Aristóteles significava ir de encontro a certa concepção teórica da tragédia que permaneceu canônica desde a Renascença, através das inúmeras traduções e releituras do texto da “Poética”. Àquela altura, nas palavras no tradutor e na esteira da recepção alemã, a obra de Aristóteles já havia se tornado um “manual de regras e normas do bom dramaturgo” (p.16).

A contramão da posição de Nietzsche confrontava autores e dramaturgos de grande importância, como Johann Christoph Gottsched, cuja obra “Ensaio de uma Poética Crítica” (1730) fazia reverência explícita ao texto de Aristóteles e o considerava o maior crítico da retórica e da poética da antiguidade; Christian Heinrich Schmid, em sua “Teoria Poética” (1767), que via na história da dramaturgia e nas obras de seus grandes autores uma confirmação indiscutível dos preceitos do texto aristotélico; Lessing, que na “Dramaturgia de Hamburgo” (1769) afirmava que se afastar da interpretação do estagirita era o mesmo que perder as virtudes de sua perfeição; e mesmo o poeta Schiller, que entendia a “Poética” como uma lei da arte.

O jovem Nietzsche acreditava na reconstrução da cena trágica original, pois compartilhava com Richard Wagner a idéia de um retorno à Grécia nas grandes exibições dos dramas musicais do amigo compositor no famoso Festival de Bayreuth, onde se executava com toda a grandiosidade o empreendimento da “obra de arte total” -que fundia no palco todas as artes, na ânsia de forjar espetáculos com o mesmo espírito clássico grego dentro da Alemanha.

No entanto, poucos anos depois do lançamento de “Nascimento da Tragédia”, na “IV Consideração Extemporânea” intitulada “Richard Wagner em Bayreuth”, Nietzsche já desacreditava na capacidade daquele público, apenas disposto a esquecer da vida cotidiana durante as representações e incapaz de compreender o verdadeiro sentido do trágico.

Tudo isso mostra, de fundo, a visão contrária de Nietzsche à filologia clássica universitária, pois ele não suportava um saber e uma arte aprisionados e distanciados da própria vida. Sua imagem no alto do púlpito, lendo suas aulas para um grupo em silêncio, pode ser a grande metáfora de sua negação da leitura da “Poética” operada pela filologia clássica, à qual ele estava profundamente ligado, ainda que em permanente vigilância.

O cerne de suas aulas gira em torno dessa dita moralização da tragédia, ou seja, contra uma leitura moderna que convertia o herói trágico em um cristão arrependido, ao ver nas mazelas de um Édipo o resultado de uma vida de excesso (“hybris”), sobre a qual a dor e o destino deveriam agir como componentes punitivos. Era uma leitura que invertia completamente o sentido estético original do texto, exaltando, ao final, a figura do homem justo, moderado e, principalmente, resignado.

A finitude, a perda e o sofrimento não eram vistos na Antiguidade como males que precisavam de expiação e penitência. Nietzsche interpreta a catarse trágica como um êxtase libertador e não como um elemento purificador. Num momento em que a humanidade já perdia seus instintos mais profundos, Nietzsche conclamava seus contemporâneos a ver no destino não um castigo, mas uma possibilidade de libertação. Uma lição pedagógica que chega até nós como um grito, e como uma nova chance de renascer.


(Publicado em 2/4/2007)

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

 
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