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Essas circunstâncias conferem peso a projetos como o do coletivo Eloisa Cartonera, de Buenos Aires, fundado pelos artistas Javier Barilaro e Washington Cucurto, que trabalham com catadores de papelão de rua locais, pagando salários de mercado justo pelos materiais que eles recolhem para, com eles, fabricar e vender livros feitos à mão de ficção e poesia até então inéditos (numa região em que os livros ainda custam relativamente caro).

Do mesmo modo, o Projeto Long March, criação do curador Lu Jie, de Pequim, convocou mais de 60 voluntários para fazer o levantamento e documentação da artesania dos papéis recortados, que está desaparecendo em ritmo acelerado na medida em que a China corre para se desenvolver e urbanizar, descartando tudo o que se interpõe no caminho desse ideal. Um dos projetos de base mais ousados foi o do coletivo dinamarquês Superflex, formado por Rasmus Nielsen, Jakob Fenger e Bjorrnstjerne Christiansen, que desde 2003 vem colaborando com uma cooperativa local de agricultores no Estado do Amazonas para produzir uma versão independente do refrigerante popular feito de guaraná, bebida cuja produção e distribuição é quase monopolizada pela gigante fabricante de refrigerantes Antarctica (suas multinacionais filiadas são donas de quase todas as plantações de guaraná, formando um conluio para fixar os preços e expulsar os produtores independentes do mercado).

Na fase que antecedeu a abertura da Bienal, os diretores da Fundação proibiram os curadores de expor o refrigerante renegado e censuraram qualquer referência ao produto. Boatos faziam ligações entre membros da Fundação e o conglomerado, tornando o assunto “embaraçoso”, prova de que a chamada “liberdade institucional” ainda está à venda e que algo tão inócuo quanto a proposição de um refrigerante pode, mesmo em nossa era tão farta, lembrar um coquetel Molotov a alguém, em algum lugar. Em resposta, latas e garrafas do “Guaraná Power” apareceram em galerias de arte por toda parte em São Paulo e no Rio, e o consumo da bebida se transformou num ato de desafio saboroso. Enquanto o episódio “Guaraná Power” acabou por testar os limites atuais da nova “autonomia e independência” da Bienal, foram igualmente valiosos os programas destinados a ampliar o alcance do que esta instituição em particular é capaz de fazer, pelo menos na teoria.

Além das iniciativas educacionais extra-Bienal concebidas para fomentar a conscientização da cultura contemporânea e das questões levantadas pela Bienal em escolas e bairros pobres da periferia da cidade, houve um programa de seminários realizados entre janeiro e novembro que ampliou a presença da exposição para além de seus dois meses de duração. Em novembro, no último fim de semana dos debates, a questão discutida foi a região disputada do Acre. Sua realidade territorial e seu significado simbólico fluido foram usados como plataforma para discussões sobre se os conflitos provocados pelos movimentos incessantes de capital, doenças, desenraizamento cultural e degradação ambiental podem ser resolvidos ou conciliados, mesmo com as melhores das intenções.

De maneira característica da natureza poliglota da série, o fim de semana juntou o incendiário cientista, linha de frente e militante dos direitos indígenas, José Carlos Meirelles (que defende a destinação de grandes áreas de floresta como reservas para as últimas tribos autônomas remanescentes) e David Harvey, professor de antropologia do CUNY Graduate Center de Nova York (crítico acirrado de neoliberais em toda parte) em seu primeiro dia, e, no segundo, o historiador e teórico da arte francês Thierry de Duve com a ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva.

À primeira vista essas junções podem parecer estranhas. Mas, diferentemente do que se vê em debates semelhantes em Nova York ou Londres, notáveis por seus intercâmbios polidos, quase seguindo roteiros, e o tempo curto durante o qual dominam a atenção de participantes e público, os eventos, cada um dos quais com um dia de duração, chamaram a atenção por seus diálogos interdisciplinares substantivos e pelas discussões apaixonadas e acaloradas entre participantes e membros do público.

Dirigindo-se às aspirações sociais ambiciosas desta Bienal, Thierry de Duve questionou a instrumentalização da arte _como uma espécie de Acre edênico futuro_ com uma zona “autônoma bela”. A arte é demasiado ineficiente para solucionar males sociais; e não se trata de viver juntos em harmonia. Em lugar disso, ele argumentou, o tipo de autonomia de que goza a arte é a simples capacidade de servir de testemunho de nossa capacidade partilhada de sentir empatia para com outros. Esta talvez seja a única meta universal pela qual devemos esperar ou que devemos lutar para alcançar.


Copyright da revista “Frieze”, onde este artigo foi publicado originalmente.


Tradução de Clara Allain

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James Trainor
é editor da revista "Frieze" nos EUA.

 
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