Para Bento Prado Jr., a confrontação com o caos era uma exigência fundamental da filosofia
Morto em janeiro deste ano, no momento em que organizava três livros que seriam a sistematização de sua longa produção filosófica, Bento Prado Jr. foi responsável por uma das experiências intelectuais mais originais do cenário nacional das últimas décadas. Seu trabalho, marcado pela desconsideração soberana de fronteiras e tradições, porta a marca obsessiva daqueles que cedo compreendem quais são suas questões fundamentais.
Uma leitura retrospectiva capaz de partir de seus textos de juventude (como a tese, de 1964, “Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson”) e chegar até a produção recente revela a permanência de uma problemática geral que foi, aos poucos, se complexificando. Problemática original por construir-se na interface de tradições filosóficas aparentemente antagônicas, como a surpreendente tríade Bergson-Sartre-Deleuze, por um lado, e a filosofia de Wittgenstein, por outro. Problemática ainda mais original por ser conjugada no interior de um campo de confrontação onde se encontram filosofia, psicanálise, psicologia e estética.
Um corpo estranho dentro do Si mesmo
Um dos eixos do pensamento de Bento Prado foi por ele mesmo definido como sendo a reflexão sobre: “o lugar do sujeito, ou melhor, o problema da ipseidade e de suas formas de expressão”. Contrariamente a uma tendência hegemônica na filosofia da segunda metade do século XX, não se trata aqui de compreender a categoria de sujeito como um mero entulho metafísico ou como um resquício de aspirações fundacionistas.
Nem discurso sobre a morte do sujeito de matizes pós-estruturalistas, nem redução materialista da consciência própria às correntes majoritárias da filosofia da mente, nem filosofia neo-pragmática da intersubjetividade para a qual a irredutibilidade ontológica do lugar do sujeito é algo próximo de um pathos romântico. Em várias ocasiões, Bento Prado criticou cada uma destas correntes que atualmente organizam o debate das três grandes tradições da filosofia ocidental: a francesa, a anglo-saxã e a alemã.
No entanto, nas mãos de Bento Prado, o lugar do sujeito transformou-se em um lugar que não responde mais às coordenadas habituais. Longe de ser o solo da transparência e da auto-identidade, tal lugar aparece como des-idêntico, clivado. Pois desde sua tese sobre Bergson, ficava claro que a verdadeira preocupação de Bento Prado consistia em perguntar-se sobre o que pode ser uma subjetividade capaz de descobrir o impessoal e o irredutivelmente Outro como seu solo gerador. Ou seja, contrariando uma longa tradição moderna, tratava-se de desvincular sujeito e locus da identidade, isto através de uma reflexão sobre a alteridade anônima que precede toda constituição da subjetividade, mas com a qual ela deve sempre se defrontar (um “dever” que não deixa de ressoar exigências éticas).
Era tendo tal estratégia em mente que Bento Prado se aproximou posteriormente de maneira tão insidiosa e produtiva de temáticas maiores da psicanálise e da estética contemporânea, duas experiências intelectuais marcadas pela consciência da irrupção violenta do heterogêneo no próprio cerne das relações de si a si mesmo. Aproximações que renderam a inauguração, entre nós, de gêneros de reflexão como a filosofia da literatura e a filosofia da psicanálise.
Só por esta maneira astuta de atualizar a reflexão sobre o conceito de sujeito, Bento Prado já merecia ser, entre nós, objeto de leitura atenta e sistemática. Pois esta sua estratégia lhe permitia construir operações intelectuais surpreendentes como, por exemplo, recorrer a um filósofo para quem “sujeito” é um conceito claramente supérfluo (Deleuze) a fim de reconstruir uma teoria complexa da subjetividade. Mas Bento Prado queria mais. Tratava-se principalmente de, a partir daí, introduzir “um mínimo de negatividade” na segurança moral-ideológica de vários setores do discurso filosófico contemporâneo. Pois ele sabia que modificações nas estruturas elementares de determinação da subjetividade implicam em reorientações gerais das expectativas da razão.
Neste sentido, não era questão de procurar suspender os vínculos fundamentais entre sujeito e razão, estratégia maior na segunda metade do século XX. Ao contrário, tratava-se de insistir no fato de um conceito renovado de sujeito nos levar necessariamente a re-compreender o que significa agir e julgar racionalmente, já que ele nos obriga a abandonar idéias reguladoras fundamentais para a constituição da noção de “reflexão” como transparência, proximidade.
Dissolvido o vínculo entre identidade e sujeito, ou seja, salientado o fato da auto-reflexão sobre si mesmo não fornecer mais nenhuma certeza de auto-identidade, não seria mais possível pensar o julgamento racional através de um pensar identificador que hipostasia aplicações categoriais e determinações de critérios normativos a priori ou que procura fundar a razão no solo não-problemático do senso comum acessível apenas àqueles não acometidos pelas “patologias” de um pensar incapaz de encontrar algo dado. Daí porque uma das estratégias críticas maiores de Bento Prado consistia em se perguntar sobre a estrutura da subjetividade pressuposta por posições filosóficas que procuravam salvar alguma forma de universalidade normativa.
Através deste questionamento, tratava-se de “desconstruir” (o termo aqui não é gratuito) a “normalidade” historicamente determinada do homem do senso comum, a “normalidade” do indivíduo frankfurtiano capaz de esvaziar a irredutibilidade da noção freudiana de inconsciente à auto-reflexão e, por fim, a “normalidade” do “vernüftige Mensch” com sua “humanitas minima de facto”. Tais desconstruções da normalidade eram, na verdade, operações iniciais de um redimensionamento do campo da experiência, já que o abandono do horizonte normativo nos leva ao reconhecimento da: “incontornável ambigüidade da experiência e a anarquia discursiva que ela abre”.
On est toujours l´irrationaliste de quelqu´un
Mas esta defesa da ambigüidade da experiência, da procura da heterogeneidade irredutível com sua anarquia discursiva não seria uma simples profissão de fé irracionalista ou, no mínimo, relativista? A princípio, a acusação parece ganhar força se levarmos em conta a maneira com que Bento Prado afirmava a impossibilidade de fundamentação positiva de critérios universalizantes de julgamento. Apoiando-se em uma leitura da noção wittgensteiniana de “jogos de linguagem”, Bento Prado insistia não ser a universalização de critérios e sistemas de regras exatamente o objeto de um “entendimento comunicacional mais ou menos transparente”.
Ao contrário, ela era objeto de persuasão e quem diz “persuasão” não diz apenas reconhecimento do melhor argumento, mas constituição de um campo conflitual no qual entram em cena processos de identificação, projeção, retórica de interesses, investimento libidinal etc. Operação arriscada, pois definir a argumentação racional como campo conflitual de persuasão implica, ao menos neste caso, na desmontagem de dicotomias estritas entre o psicológico e o transcendental, já que significa trazer categorias psicológicas para a compreensão dos processos de argumentação racional. Por outro lado, parece que não estamos longe, por exemplo, desta temática presente tanto em Michel Foucault quanto em Adorno e Horkheimer que consiste em denunciar a imbricação constante entre expectativas de racionalidade e procedimentos de dominação. Temática denunciada várias vezes como uma crítica totalizante da razão que resvala em simples contradição performativa.
Contra tais suspeitas de irracionalismo, Bento Prado não cansava de afirmar: “Irracionalismo é um pseudoconceito. Pertence mais à linguagem da injúria do que da análise. Que conteúdo poderia ter, sem uma prévia definição de Razão? Como há tantos conceitos de Razão quantas filosofias há, dir-se-ia que irracionalismo é a filosofia do Outro. Ou pastichando uma frase de Émile Bréhier, que, na ocasião, ponderava as acusações de libertinagem, poderíamos dizer: ´on est toujours l´irrationaliste de quelqu´un´”. Mas isto nos deixa com a obrigação de perguntar sobre qual o conceito positivo de razão que Bento Prado tinha em vista e que lhe permitia desconsiderar monarquicamente tais acusações de irracionalismo.
É neste contexto que o seu diálogo com a obra de Gilles Deleuze ganha importância decisiva. Pois, animado por uma certa chave interpretativa advinda de suas leituras precoces de Bergson, Bento Prado recorre ao conceito deleuzeano de “plano de imanência” a fim de insistir na existência de um campo pré-subjetivo e pré-conceitual anterior até mesmo à distinção entre sujeito e objeto. Terreno caótico que se abre para uma experiência não amparada por um sistema de regras e que seria o nome correto deste irredutivelmente Outro, deste heterogêneo com o qual o sujeito deve se confrontar no interior de toda verdadeira experiência que não seja simples projeção narcísica do Eu.
Aproximar o pensamento deste plano de imanência, encontrar modos de formalização deste ponto de excesso em relação à determinação conceitual seria a função positiva de toda filosofia, mesmo que para isto ela precise operar reconfigurações profundas em dicotomias como razão/loucura, identidade/diferença, conceito/pré-conceitual; mesmo que para isto seja necessário, entre outras coisas, uma reconstrução dos modos de articulação entre filosofia e estética como condição para a articulação de um conceito positivo de razão.
Pensar no limite
Este recurso à noção deleuzeana de plano de imanência permitia a Bento Prado fundamentar um certo deslizamento sempre presente em seus textos. Deslizamento que consiste em aproximar deliberadamente “alteridade” (que a princípio poderia ser reconhecida no interior do meu sistema de regras, do meu jogo de linguagem) e “a-normatividade” (que indica processos cuja apreensão não se submete a sistemas de regras). Pois a alteridade que realmente interessa é aquela que me obriga a deparar-me continuamente com o limite, a pensar no limite, ou seja, neste espaço onde as garantias de controle e individuação estável vacilam. Um pensar capaz de se deixar tocar por: “algo como o Outro absoluto -o homem que eu não posso ou que não posso mais reconhecer como um homem- este que fala uma outra linguagem, que joga um jogo diferente. Ou ainda, o que não é muito diferente, o i-mundo, um mundo que não é submetido a regras, a respeito do qual não podemos falar”. Um Outro absoluto que, no entanto, me é constitutivo, Outro que encontro todas as vezes que volto os olhos para mim mesmo.
Pode parecer, a primeira vista, que entramos aqui em alguma hipóstase da diferença absoluta, isto na mais clara aproximação com o pós-estruturalismo de um Derrida. E não era com a différance radical que Bento Prado flertava já nos anos sessenta, ao falar sobre a prosa de Guimarães Rosa? Prosa onde a “linguagem aparece menos como um sistema de signos que permite a comunicação entre os sujeitos do que como um ´elemento´, como um horizonte, solo universal de toda existência e todo destino”?
Bento Prado não teme sequer em afirmar que, com Guimarães Rosa, estaríamos diante de uma escritura anterior a toda escrita (em uma fórmula tipicamente derridiana), texto grafado na própria Physis, uma escritura que exige a descontinuidade entre a experiência vivida e o conhecimento estrutural. Teríamos então chegado à conclusão de que um dos capítulos mais originais de nossa experiência intelectual das últimas décadas era, na verdade, uma versão sofisticada do pós-estruturalismo francês?
A tentação é grande, mas não exatamente correta. Pois devemos estar atentos para esta maneira com que Bento Prado recorre a categorias filosóficas aparentemente obsoletas em um contexto que normalmente as nega. Desde o início, vimos, por exemplo, que em sua obra era questão “do lugar do sujeito”, um lugar simplesmente ilusório para filósofos como Derrida e Deleuze (isto sem falar em Foucault). E quem se pergunta sobre o lugar do sujeito não pode deixar de se perguntar por noções como fundamento e universalidade. Duas noções que pós-estruturalista algum estaria disposto a aceitar. Mas, através desta reconstrução profunda da categoria de sujeito, Bento Prado pode nos oferecer um fundamento que é opaco e ambíguo, uma universalidade que não é nem normativa, nem positiva. Neste sentido, sua experiência intelectual demonstra a originalidade de alguém que procura abrir um caminho que permite o abandono conjugado tanto do universalismo normativo quanto do relativismo.
1 - Prado Jr., “Erro, Ilusão, Loucura”, Editora 34, São Paulo, 2004, p. 11.
2 - idem, p. 14.
3 - Ver “Por Que Rir da Filosofia?” In: “Alguns Ensaios”, Paz e Terra, São Paulo, 2000.
4 - Ver Safatle, “Auto-reflexão ou Repetição: Bento Prado e a Crítica ao Recurso Frankfurtiano à Psicanálise”. In: Revista “Agora”, UFRJ, 2004.
5 - Prado Jr., “Erro, Ilusão, Loucura”, op. cit..
6 - Prado Jr., “Alguns Ensaios”, op. cit., p. 96.
7 - Prado Jr., “Erro, Ilusão, Loucura”, op. cit., p. 48.
8 - Prado Jr., “Erro, Ilusão, Loucura”, op. cit., p. 256.
9 - Prado Jr., "La Depistage de l´Erreur de Catégorie".
10 - Ver, sobre as relações fundamentais entre Bento Prado e o pós-estruturalismo, o ensaio de Arantes, Paulo, “A Musa do Departamento”, in: “Um Departamento Francês de Ultramar”, São Paulo, Paz e terra, 1996.
11 - Prado Jr., “Alguns Ensaios”, op. cit., p. 196.